GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 14, pp. 21-30, 2003

 

Gestão do Turismo no Contexto do Planejamento Estratégico Regional. Estudo de casos latino-americanos

Geraldo Luciano Toledo*; Álvaro Castroman Pollero**;

Humberto Gallo Junior***

Resumo:

Este trabalho objetiva argumentar que, para uma gestão bem sucedida do turismo regional, devem-se articular iniciativas de todas as entidades envolvidas, ou seja, organizações públicas, privadas e não-governamentais (ONG). A partir dessa articulação, devem ser posicionados, em um mesmo plano de gerenciamento, os objetivos das diferentes áreas de conhecimento. Assim, abordagens interdisciplinares podem ser planejadas, executadas, coordenadas e avaliadas eficientemente no âmbito do Planejamento Estratégico (PE) turístico regional. A metodologia adotada foi de Estudo de Caso e os casos analisados referem-se ao Planejamento Estratégico de três países: Costa Rica, México e Brasil. Os resultados revelam como são articuladas as iniciativas e objetivos do PE turístico e seu envolvimento com o desenvolvimento sustentável (DS) regional.

PALAVRAS-CHAVE:

Gestão regional, planejamento estratégico, turismo

ABSTRACT:

This paper discusses the thesis that the most successful regional companies in tourism must articulate public, private and non-governmental organizations (ONG). The articulation of these elements must fulfill in the same level of management the goals of the different areas of knowledge. In that sense, the interdisciplinary objectives can be researched, executed, controlled and evaluated efficiently in the Strategic Planning for regional tourism (PE). The methodological tool selected was the case study, and the three cases of Strategic Planning were analyzed: Costa Rica, Mexico and Brazil. The final results examined how the initiative and objectives of a PE belonging to the field of tourism were articulated and their involvement with the regional sustainable development (DS).

desertification in the Brazilian Northeast.

KEY WORDS:

Regional management, strategic planning, tourism.


* * Professor da Faculdade de Administração e Economia da USP. gltoledo@usp.br

**Doutorando da Geografia Humana da FFLCH-USP. alvarocp@usp.br

***Doutorando da Geografia Física da FFLCH-USP. humbetogj@bol.com.br


- GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 14, 2003 TOLEDO, G. L.et Alii


I- INTRODUÇÃO

O Instituto Espanhol de Turismo (IET, 1999) define a atividade turística como um fenô-meno sociológico de grande amplitude, que pode ser estudada e analisada sob várias perspectivas, integrando diferentes disciplinas ou áreas de conhecimento, como Economia, Ciência Política, Geografia, Ecologia, Antropologia, Gestão. Podem-se obter, desta forma, definições de conceitos de turismo, segundo a ótica própria de cada uma dessas disciplinas, configurando-se, assim, uma abordagem multidisciplinar. Nesse contexto, qualquer definição tende a revelar uma visão parcial do fato turístico. No entanto, algumas caracte-rísticas da atividade turística apontam para sua complexidade e para sua natureza interdisciplinar e sistêmica. Tais características dizem respeito aos seguintes fatores presentes nas atividades turísticas: intangibilidade, perecibilidade, simulta-neidade do binômio produção-consumo e demanda flutuante.

Yázigi (2001) nota duas características intrínsecas ao turismo, a primeira corresponde ao que ele define como a "arte de agradar", e a segunda remete ao pressuposto de que a atividade turística pode autodestruir-se com sua própria execução. Essas propriedades da atividade turística servem de alerta para a complexidade e o cuidado que se deve ter ao se planejar e desenvolver o sistema turístico.

Para analisar a questão do Planejamento Estratégico, normalmente se divide o sistema turístico em três sub-sistemas: o Meio Ambiente (MA), o Trabalho (T) como indicador do meio social, e a Economia (E), configurando-se, assim, a tríade MATE. A alta inter-relação desses elementos da tríade MATE, junto com a comple-xidade e explosão do setor turístico na América Latina, resulta no fato de que os empresários, governantes, ONG´s e academia não possuem uma posição devidamente questionadora e analítica sobre o fenômeno turismo. Alguns manifestam uma atitude apologética, e outros assumem um posicionamento mais crítico, argumentando que a "indústria" do turismo "transforma tudo o que toca em artificial".

Em face dessa realidade antagônica,

presente na sociedade latino-americana, o presente trabalho se propõe analisar situações indicativas das inter-relações que envolvem o turismo, e realçar seus impactos regionais na tríade MATE. Especificamente, os seguintes objetivos são perseguidos:

· apresentar evidências práticas de como, a partir de um PE consistente, o fenômeno turístico pode contribuir como elemento de articulação do Desenvolvimento Sustentável (DS) regional;

· sugerir algumas atividades práticas do planejamento regional da tríade MATE para a obtenção do DS.

Do ponto de vista metodológico, o estudo apresenta-se como de caráter exploratório-descritivo, com o recurso do base a determinação dos sistemas do processo de "produção-circu-lação-distribuição-consumo" e suas combinações particulares, na problemática complexa e temporal de cada região geográfica específica. Procurou-se estudar especificamente o PE de três regiões turísticas: México, Costa Rica e o Nordeste brasileiro. Para a coleta de dados, foram utilizadas entrevistas com questões semi-estruturadas e não disfarçadas, as quais foram sendo ajustadas segundo as especificidades do pólo turístico estudado.

Com base na bibliografia e na opinião de técnicos responsáveis e integrantes de ONG`s regionais, avalia-se como é tratada, aprimorada e articulada a idéia de desenvolvimento sustentável a partir da atividade turística, no âmbito das regiões geográficas latino-americanas. Teve-se especial cuidado, no marco teórico desse estudo, na utilização de conceitos presentes nos relatórios das mega-conferências mundiais como a CMMAD (1987) e ECO 92.

II- Desenvolvimento sustentável no âmbito institucional.

A Comissão Mundial de Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD, 1987) apresentou o Relatório "Nosso Futuro Comum", permitindo difundir mundialmente o conceito de desenvol-vimento sustentável, utilizado com o fim de integrar conceitos aparentemente discrepantes: o desenvolvimento social como ponto de equilíbrio


Gestão do Turismo no Contexto do Planejamento estratégico Regional, pp. 21-30.


entre Ecologia e Economia. O propósito era integrar os objetivos da tríade MATE em um único plano, mediante a utilização de indicadores precisos e relacionados entre si.

Segundo Santos (1997), pode abordar o espaço como um sistema de sistemas ou como um sistema de estruturas. Nesse sistema não existem apenas relações bilaterais, uma a uma, mas relações generalizadas. Assim, o sistema é comandado pelo modo de produção dominante nas suas manifestações à escala do espaço em questão. Isso coloca de imediato o problema histórico, ao que Santos (1997) alerta sobre as limitações práticas que dificultam o estudo científico do espaço. Em especial o "espaço turístico" contém especificidades e complexidades detalhadas por Figuerola (1978), Pearce (1993), Lozato-Giotart (1996), Yázigi (2001) e na atualidade, uma das falhas normalmente apontadas com relação ao planejamento da produção do espaço turístico, é a falta de enfoque holístico de sua complexidade e multicasualidade. Assim, a economia utiliza-se de indicadores econômicos, a área social de parâmetros sociais e os profissionais ligados a questões de meio ambiente de termos físico-químico-biológicos. Os objetivos apresen-tados, segundo a perspectiva de cada um dos profissionais, situação em uma dimensão diferente da dos demais, sendo, portanto, problemático o estabelecimento de indicadores quantitativos universais, além de não se dispor de parâmetros comparáveis. O DS depende desta articulação de objetivos no âmbito do marco institucional.

Pode-se aproximar uma representação do DS por uma função g, que otimize e controle os objetivos comuns da tríade MATE em um mesmo plano ou dimensão:

DS = g de objetivos comuns (Meio Ambiente, Trabalho, Economia)

Certamente, a equação não é tão trivial. Como analisa Sen (1996), para um DS de um país ou região, os três componentes da tríade são influenciados por múltiplos fatores, principalmente pela capacidade de ação conjunta e coordenada entre o governo e a iniciativa privada, baseada numa cidadania participativa. Essa coordenação é encabeçada por processos relacionados com educação, inovação tecnológica e formação de recursos impactos.

Toledo et al. (2001) interpretam o porquê da preocupação do turismo com o desenvolvi-mento sustentável, principalmente porque na América Latina, entre outros aspectos, o turismo exige uma série de transformações no local original, gerando, na maioria das vezes, um impacto irreparável no meio ambiente e na sociedade anfitriã. Tais impactos fizeram Krippendorf (1977) considerar os turistas como "devoradores de paisagens", e Yázigi (2001) a chamá-los de "novos vândalos", devido às más práticas e à falta de consciência sobre os desequilíbrios que seu comportamento consumista causa ao meio ambiente e à sociedade anfitriã. Sachs (1993) salienta a utilidade e capacidade do turismo de poder colocar o social no centro do desenvolvimento, isto é, de reafirmar a finalidade social do desenvolvimento.

Como potencializador econômico regional, tanto a Embratur (2000), como a SECTUR (2000) são contundentes, ao apontarem a quantidade de sub-setores econômicos que o turismo dinamiza. A cifra relativa a esses sub-setores ultrapassa cinqüenta.

Conforme proposto no presente trabalho, considera-se a otimização da tríade MATE para o DS como a área superposta hachurada (Figura 1).

Nessa área, situados em um mesmo plano, encontram-se os objetivos propostos no PE da MATE e delineados para cada Setor Econômico i. O PE, desenvolvido de forma interdisciplinar e integrada, permite a otimização dos resultados, do ponto de vista do DS. Figurativamente, esse fato revela-se no aumento da área tracejada. Como conseqüência, ocorrerá um aumento nos resultados, em termos das variáveis setoriais do DS, representadas pelas áreas em branco do círculo inferior da figura 1: Hospitalidade do Espaço (HE), Identidade e Cultura (IC) e Satisfação do Cliente e Sociedade anfitriã (SCS.).

A maximização dessa área é o resultado da posição ocupada por três pontos, os quais aparecem na figura como as extremidades das três calotas relativas às citadas áreas em branco. Por esses três pontos passam os eixos referentes às diretrizes regionais: 1- investimentos e financiamentos da região turística; 2- estratégia competitiva sustentável; 3-planejamento estratégico da região turística.


- GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 14, 2003 TOLEDO, G. L.et Alii



Gestão do Turismo no Contexto do Planejamento estratégico Regional, pp. 21-30.


Como na Figura 2, os três eixos referidos acima também coordenam os outros setores da atividade turística. O alinhamento e crescimento (tanto horizontal vertical) dos setores se darão conjunta e simultaneamente. É importante notar que, ao aumentar a área da tríade MATE, geometricamente representada pelo aumento da distância entre os eixos Planejamento, Competi-tividade e Financiamento, aumenta simultanea-mente o DS regional.

Em sua estada, o turista vai utilizar e circular dentro da rede de fluxos coordenados por esses setores, os quais estarão integrados, geridos e orientados para a satisfação diferenciada do mesmo.

O modelo proposto permite trabalhar melhor o valor a ser agregado à marca do pólo turístico, possibilitado pela sinergia de cada um dos setores econômicos, os quais contribuem para o ciclo turístico, para a comunidade anfitriã e, conseqüentemente, para o DS.

III. Estudo de Casos

A metodologia seguirá uma análise da estrutura espacial, a qual Santos (1997) define como uma combinação localizada de uma estrutura específica, de uma estrutura de renda específica, de uma estrutura de classes específica e de um

arranjo específico de técnicas produtivas e organizativas utilizadas por aquelas estruturas que definem as relações entre os recursos presentes.

Como esta pesquisa não é um estudo comparativo, a linha de análise seguirá o argu-mento de que cada lugar tem, a cada momento, um papel próprio no processo produtivo (produção, circulação, distribuição e consumo). A presença de combinações particulares de capital e de trabalho são uma forma de distribuição da sociedade global no espaço, que atribui a cada unidade técnica um valor particular em cada lugar geográfico (Santos 1997).

Nesse estudo, foram analisadas as políticas de desenvolvimento e de planejamento turístico, avaliando-se a tríade MATE em regiões latino-americanas. A cifras permitem considerar a atividade em sua dimensão real o contexto sócio-econômico dos países considerados, como mostra a Tabela 1.

III.1 Caso México.

O país possui o plano "Política e Estratégia Nacional para o Desenvolvimento Turístico Sustentável", que é o resultado da atuação da Secretaria de Turismo (SECTUR, 2000) e do esforço de várias instituições dos setores público,

Tabela 1: Destinos turísticos do mundo (perspectiva para o ano 2001)

Turismo

Mundial

A.Latina

México

Costa Rica

Brasil

1- faturamento**

(% do PIB)

4500

(4,0%)

145

(3,5%)

71

(8,2%)

3,2

(7,9%)

58,2

(7,5%)

2- impostos**

(% do total)

792,4

(4,2%)

(--)

(--)

(--)

(--)

(--)

(--)

(--)

(--)

3- empregos gerados*

(% do total )

207

(9,0%)

12,7

(8,5%)

2,7

(8,3%)

0,235

(16%)

5,382

(7,5%)

4- chegadas de turistas*

(% do total )

656,9

(--)

40

(6,1%)

20

(3,1%)

2,3

(0,4%)

5,1

(0,8%)

5- ingresso de divisas**

(% do total)

1063

(12,8 %)

 30

(12,3%)

19,5

(14%)

1,4

(18%)

8,0

(10%)

6 Investimentos**

(% do total)

656

(9%)

22

(7,8%)

16,1

(12%)

0,580

(20%)

8,5

(6,2%)

* milhões                     **bilhões de U$S   

 Fonte: World Travel and Tourism Council – WTTC (2000)

 


- GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 14, 2003 TOLEDO, G. L.et Alii


social e acadêmico para definir as diretrizes, políticas e uma estratégia específica, de modo a criar bases para transformar a estrutura de desenvolvimento do setor e permitir o trânsito até a sustentabilidade.

Para conseguir atingir os resultados, a SECTUR (2000) considerou um modelo partici-pativo de planejamento, que permitiu que os atores sociais do turismo realizassem contribuições importantes tanto em nível teórico quanto prático.

A SECTUR (2000) elaborou suas metas de acordo com a Declaração do Rio 92 e as considerações da Agenda XXI para Viagens e Turismo da OMT. Após a avaliação do PE realizado pela SECTUR, no período de 1995-2000, desenvol-veu-se o Plano Nacional do Desenvolvimento 2000-2005, que começa com uma introdução, antecedentes e, posteriormente, apresenta as fases a serem seguidas por esse, conforme pode ser observado na Figura 3.

III.2- Caso Costa Rica.

As diretrizes políticas da Costa Rica estruturam-se como um aglomerado turístico que abarca todo o seu espaço nacional. Para Segura,

Inman (1998), a Costa Rica encontra-se na etapa de desenvolvimento e com a experiência de vários planejamentos, execuções, mensurações e avaliações de planos anteriores, que permitem uma retroalimentação positiva dos novos planos. Em sua experiência prática, essa região tem conseguido resolver situações de risco para sua sobrevivência.

O Departamento de Recursos Naturais do Instituto Costarriquense de Turismo (ICT, 2000) tem elaborado o programa "Certificação da Sustentabilidade Turística"(CST), como estratégia para sócio-histórico-culturais. Incentiva-se a participação ativa das comunidades locais nas redes de conhecimento turístico do setor público-privado.

Com o turismo, as províncias menos ricas da Costa Rica, como Puntarenas e Guanacaste têm encontrado um motor de desenvolvimento sócio-econômico. O ICT (2000) destaca que a inclusão dos elementos sócio-ecológicos no PE beneficia mais de 700 mil pessoas, que, direta ou indiretamente, dependem dele Isso significa 20% do total da população do país.


Gestão do Turismo no Contexto do Planejamento estratégico Regional, pp. 21-30.


III.3- Caso do Nordeste brasileiro.

O governo Federal do Brasil e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) estão apoiando a execução do projeto "Iniciativa pelo Nordeste", o qual visa a promover uma nova cultura para o desenvolvimento da região, a partir da formação de clusters turísticos. Nasce, assim, o

PRODETUR/NE, um programa que reúne um conjunto de aproximadamente 450 projetos, mobilizando recursos da ordem de US$ 800 milhões, dos quais US$ 400 milhões são financiados pelo Banco do Nordeste, com repasse do BID. E espera-se que sejam alcançadas as seguintes metas:

Tabela 2: Parcial do ano de 1999 do executado pela PRODETUR

Descrição (% U$D do total gasto)

Unid.

Globais

Realizados

%.

Empregos diretos

unid.

1.687.000

1.119.215

66,3

Empregos indiretos

unid.

2.183.000

1.448.277

66,3

Saneamento, água potável(26,2%)

mil hab

809,1

647,0

80,0

Melhoria rede viária (17,7 %)

km

647,4

642,1

99,2

Patrimônio histórico (7,3%)

m2

287.792,7

287.492,7

99,9

Meio ambiente (3,1 %)

ha

47.679

44.024,4

92,3

08 aeroportos (25%)

unid.

08

07

87,5

Desenvolvimento Institucional (3,7 %)

projeto

172,0

74,0

43,0

Fonte: The Pro-Northeast Initiative (1999)


Na concepção do projeto, o setor privado é instado a mobilizar sinergias a partir de vantagens comparativas locais, para alavancar a competitividade dinâmica regional. De acordo com a Organização Mundial do Turismo (OMT, 2000), cada US$ 7 mil deixados no país repercutem na manutenção de um emprego. Enquanto que na indústria automobilística são necessários R$ 170 mil para gerar um emprego, no turismo apenas R$ 40 mil possibilitam um emprego direto num hotel; R$ 10 mil empregam uma pessoa num restaurante e R$ 50 podem garantir matéria-prima e emprego a um artesão.

Interpretação dos dados das três regiões. Na análise das evidências práticas, pelo método das "proposições teóricas" (Yin, 2001) desenvol-vidas no marco referencial para os casos desse trabalho, verifica-se que, na atual fase da implementação das teorias do DS, existe uma combinação entre arte e ciência. Isso é devido à falta de metodologias ou indicadores comuns para áreas como Ecologia, Sociologia, Antropologia e Economia.

É um bom exemplo para outros setores, a consciência do PE turístico do México e da Costa

Rica, que tem começado a incorporar a dimensão ambiental, cultural e identidade do lugar na tomada de decisões de seus processos de planejamento e fixação de objetivo. Maior des-taque merece, ainda, o fato de que ambos têm obtido um retorno no crescimento econômico-turístico a médio e curto prazo.

Outro aspecto a favor da otimização da tríade MATE, praticada pelas três regiões no PE, consiste em possibilitar identificar os problemas, atores e métodos para resolver objetivos em comum, sejam público-privado, nacionais ou internacionais.

Além da já conhecida densidade de equipamentos, serviços, infra-estrutura, imagem e turistas necessários para a execução do turismo, os técnicos e acadêmicos dessas regiões turísticas evidenciam, nos PE, a necessidade de articular as atividades da tríade MATE para o desenvolvimento, como pode ser observado no Quadro 1.

A seguir são tecidos alguns comentários sobre os países analisados, segundo as fases em que se encontram no ciclo de vida do turismo.


- GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 14, 2003 TOLEDO, G. L.et Alii


Quadro 1: atividades da tríade MATE mencionadas dentro dos planos turísticos.

Atividade/País

México

Costa Rica

Brasil

Imagem turística

Diferenciada

Diferenciada

Pouco Diferen.

Imagem turística relacionada com a identidade e cultura regional

Altamente

Diferenciada

Pouco

Diferenciada

Altamente

Diferenciada

Imagem turística relacionada com o meio ambiente regional

Altamente

Diferenciada

Altamente

Diferenciada

Pouco

Diferenciada

Planejamento participativo e capacitado

Alto

Alto

Baixo

Sinergia da Iniciativa Pública-Privada

Médio

Alto

Médio

Enfoque intersetorial, a longo prazo

Alto

Alto

Médio

Incentivar e facilitar os investimentos sustentáveis

Definidos

Definidos

Pouco definidos

Enfoque na competitividade global

Alta

Alta

Alta

Informações e capacitação de sustentabilidade aos turistas, agentes de viagens, hotéis, restaurantes entre outros. Etiqueta ecológica

Alta

Alta

Baixa

Sistema de gestão articulado e intersetorial

Alta

Alta

Baixa

Tratamento cientifico, literatura especializada, escolas de turismo

Alto

Médio

Baixo

Capacitação de recursos humanos

Alta

Alta

Inicial

Indicadores de Sustentabilidade

Alto

Médio

Baixo

Enfoque no consumo sustentável

Media

Alta

Baixa

Limites da capacidade máxima turística

Definidos

Definidos

Não definidos

Mensuração, investigação controle, avaliação dentro do planejamento

Definidos

Definidos

Pouco definidos

Indicadores e manejo ecológico

Alto

Alto

Baixo

Certificação ecológica

Média

Alta

Baixa

Recuperação e preservação ecológica

Inicial

Alta

Baixa

Retro-alimentação dos planejamentos

Alta

Alta

Baixa

 


México (Fase de Sustentabilidade)

Com referência ao planejamento turístico desse país, salientam-se os seguintes aspectos:

1. planejamento e gestão do turismo de forma sustentável, procurando otimizar as áreas da tríade MATE, levando em conta objetivos e alguns indicadores comuns;

2. inclusão, nos planos, da filosofia dos relatórios da CMMAD (1987) e da ECO'92;

3. alta capacidade de articular o turismo com os demais setores;

4. uso de métodos de desenvolvimento que apontam para uma distribuição mais eqüitativa de seus resultados econômicos;

5. inclusão da identidade e cultura regionais para aumentar a competitividade do turismo nessa fase de turismo globalizado.


Gestão do Turismo no Contexto do Planejamento estratégico Regional, pp. 21-30.


Costa Rica. (Fase de Desenvolvimento)

A proposta original da Costa Rica apresenta as seguintes características:

1. turismo ecológico sustentável, que utiliza, de forma competitiva, seus recursos naturais turís-ticos (viabilidade prática do binômio competiti-vidade-sustentabilidade), alimentado pela inovação no manejo ambiental;

2. considera métodos e indicadores com objetivos comuns à tríade MATE, como a certificação da sustentabilidade turística, possuindo etiquetas ecológicas;

3. evidencia um alto grau de compro-metimento e planejamento, a longo prazo, do poder público em sinergia com a iniciativa privada e outros integrantes do cluster.

Os resultados da Costa Rica são um excelente exemplo para mostrar que a maior parte da responsabilidade pela degradação do turismo é devida a um inexistente ou ineficaz planejamento/execução, com a participação real e capacitada das sociedades anfitriãs.

Nordeste do Brasil (Fase de Iniciação)

Dada a situação sócio-econômica do nordeste brasileiro, a PRODETUR/NE está sendo importante em virtude dos seguintes elementos:

1. ser um programa de desenvolvimento por meio de projetos;

2. determinar a situação-problema, atores envolvidos, objetivos e modelo de gestão para articular o DS;

3. facilitar os financiamentos e vias de investi-mentos nacionais e internacionais, por meio de uma articulação do poder político com a iniciativa privada.

Quanto maior for a inclusão de atividades como IC, HE, SCS (objetivos da MATE em um mesmo plano, pelo planeja-mento intersetorial), maior será o fase de desenvolvimento alcançado. Quatro enfoques podem ser considerados:

1. mesmo com planejamento, o turismo pode ser um agente de degradação. Mas, nos casos de planejamento bem desenvolvido, uma solução de sucesso pode ser alcançada. Isso porque que a atividade turística deve estar continuamente submetida a um processo de mensuração, controle e avaliação, o qual possibilita, nos casos que seja

detectada a degradação, uma imediata inter-venção, mediante ações corretivas, permitindo a construção da sustentabilidade da atividade turística;

2. as cifras são contundentes em relação à real importância do turismo na economia nacional, nos casos estudados. Apresentam-se dados:

· capacidade de proporcionar a geração empregos diretos (aproximadamente do 8% a 10%);

· gerar divisas (aproximadamente 8% a 15% da balança nacional);

· contribuir para o PIB (entre um 5% a um 9% do PIB nacional), numa real articulação do turismo com inúmeros setores econômicos e sociais das regiões onde se realiza (no Brasil foram diagnos-ticados em 52 setores).

3. a real capacidade de ser condutor de um DS, pela alta capacitação técnica dos responsáveis pelo planejamento. Eles possuem um enfoque sistêmico para poder articular a tríade MATE com as variáveis IC, SCS, HE, que, em outros setores, é difícil de se encontrar;

4. os processos espaciais decorrentes de um planejamento "teórico", a partir de experiências anteriores, a filosofia e terminologia dos conceitos presentes em relatórios como o do CMMAD (1987) e da ECO 92 são explicitamente mencionados nos planos, embora tenham como primeiro objetivo o binômio competitividade e sustentabilidade

IV- Considerações finais.

Os resultados indicam que, para uma melhor convivência do setor turístico com a dinâ-mica espacial da região, deve-se estabelecer PE's eficazes e promover uma gestão participativa que otimize as inter-relações concernentes à tríade MATE, processo que deve ser concebido a partir de uma afirmação positiva da identidade e cultura regionais.

Deve-se realizar um estudo científico de caráter interdisciplinar e participativo, a partir da cultura e identidade local, cujo resultado confirme a viabilidade econômica, sociocultural e ambiental da execução desta atividade em uma determinada região. Ao mesmo tempo, é necessários encontrar formas de distribuir, de maneira mais eqüitativa, os benefícios do turismo e de seu próprio desenvolvimento, para elevar a qualidade de vida


- GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 14, 2003 TOLEDO, G. L.et Alii


da população local, especialmente dos mais carentes. Dessa forma, o turismo passa a ocupar uma posição responsável, em que o setor possa

articular e proporcionar o desenvolvimento sustentável regional.

Bibliografia

CMMAD. Nosso Futuro Comum. RJ: Fundação Getulio Vargas, 1991.

EMBRATUR. Turismo, estruturação e legislação. RJ: EMBRATUR, 2000.

Figuerola, M. Análisis del Turismo. Madri: UCM, 1978.

IET. Instituto Español de Turismo. Empleo y Turismo. Madri: IET, 1999.

Krippendorf J. Les Devorateurs de Paysages. Heures, Lausanne, 1977.

Lozato-Giotart, J. Géographie du tourisme. Masson, Paris, 1990.

OMT. Compendio de Estadísticas del Turismo. Madrid: OMT, 2000.

Paloucci, L. Competitividade sustentável em turismo. ECA-USP, Dissertação de Mestrado, SP, 2000.

Pearce, D. Géographie du tourisme. Paris: Nathan, 1993.

Sachs, I. Estratégias de transição para o Século XXI. Desenvolvimento e meio ambiente. São Paulo: Studio Nobel, 1993.

Santos, M. Espaço e Método. São Paulo: Nobel, 1997.

SECTUR. Secretaria de Turismo de México. La Política y Estrategia Nacional para el Desarrollo Turístico Sustentable. México: SECTUR, 2000.

Segura, G.; Inman C. Turismo en Costa Rica. Costa Rica: CLACDS, 1998.

Sen, A. Desenvolvimento como Liberdade. São Paulo: Cia das Letras, 1996

The Pro-Northeast Initiative. Relatório Técnico. Bahia: Bahiatur, 1999.

Toledo et al. Planificación estratégica de empresas turísticas. Buenos Aires: Propuesta de un modelo. Estudios y Perspectivas, 2001

WTTC. Tourism Satellite Accounting Research. Canadá, WTTC, 2000.

Yázigi, E. A alma do lugar. São Paulo: Contexto, 2001.

Yin, R. Estudo de Caso. Planejamento e Métodos. Porto Alegre: Bookman, 2001.

Trabalho aceito em junho de 2003