GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 14, pp. 9-19, 2003

 

Evolução dos Estudos de Desertificação

no Nordeste Brasileiro

Marta Celina Linhares Sales *

Resumo:

Partindo de uma breve caracterização geoambiental da região nordeste e contextualizando a inserção do tema da desertificação nos estudos regionais, foi possível selecionar os principais trabalhos realizados em escala regional, os quais foram aqui apresentados em detalhe. O objetivo é mostrar os resultados até agora encontrados, comparar as metodologias empregadas e sugerir possíveis caminhos a serem tomados nos estudos da desertificação no Nordeste brasileiro.

PALAVRAS-CHAVE:

Desertificação, metodologias, nordeste brasileiro

ABSTRACT:

Starting from a breaf environmental characterization of the northeast area and inserting the theme of the desertificação in the regional studies, it was possible to select the main works accomplished in regional scale, which were here presented in detail. The objective is to show the results found up to now, to compare the employed methodologies and to suggest possible roads to be taken in the studies of the desertification in the Brazilian Northeast.

KEY WORDS:

Desertification, methodologies, Brazilian northeast

Introdução

A região Nordeste do Brasil compreende uma área de 1.556 mil km2 e caracteriza-se, do ponto de vista geoambiental, pela diversidade de suas paisagens tendo como elemento marcante no quadro natural da região a condição de semi-aridez de caráter azonal que atinge grande parte do seu território e a alta variabilidade pluviométrica espacial e temporal inerente a esse tipo climático.

A ocupação dessa região ocorreu sempre em uma perspectiva de exploração excessiva levando inclusive à exaustão de parte dos recursos naturais. Deve-se considerar ainda que aliada a

esta exploração predatória estabeleceu-se uma estrutura social concentradora de renda e de poder, responsável pela relativa estagnação e baixos índices sócio-econômicos registrados na região.

A disponibilidade dos recursos naturais reflete diretamente as condições geoambientais diversas que constituem a região. Nas áreas do embasamento cristalino sob extensas superfícies rebaixadas interplanálticas, concentra-se uma rede de drenagem com grande freqüência de cursos d'água intermitentes e sazonais com baixo potencial de águas subterrâneas. É também nestas áreas que ocorrem solos de elevada fertilidade


* Professora Assistente do Departamento de Geografia e História da Universidade Federal do Piauí e Pesquisadora do TROPEN. E-mail: mclsales@uol.com.br


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natural, porém salinos e carbonáticos, sob os quais estão assentados os variados padrões fisionômicos e florísticos da caatinga.

As atividades econômicas desenvolvidas no sertão giraram por muito tempo em torno do binômio gado-algodão e da agricultura de subsistência desenvolvida em solos aluviais. As limitações naturais nessas áreas ficam por conta, principalmente, da instabilidade climática, gerando problemas de disponibilidade hídrica que compromete todo o sistema produtivo.

As áreas sedimentares da região Nordeste compreendem extensas chapadas e cuestas, onde a pequena freqüência dos rios (dada a alta permea-bilidade dos solos) é compensada pelo elevado potencial das águas subterrâneas. Os solos apresentam baixa fertilidade natural, sendo recobertos por caatingas, cerrados e "carrascos". Os terrenos sedimentares ocorrem tanto no semi-árido como nas áreas de transições com precipitações mais elevadas e com atividades agrícolas voltadas para rizicultura nas planícies fluviais e baixões. Recentemente desenvolvem-se as culturas de arroz e soja no topo das chapadas.

Há ainda os relevos com topografias mais elevadas regionalmente denominadas de "serras" e "brejos", que graças a ocorrência de chuvas orográficas apresentam maiores índices pluviomé-tricos e distribuição mais regular. Predomina nestas áreas a policultura desenvolvida em minifúndios, responsável pelo abastecimento de produtos horti-frutícolas em muitas cidades de porte médio do Nordeste.

Quanto à organização social, destaca-se uma importante peculiaridade do Nordeste que é a alta densidade demográfica da região, especialmente na mancha semi-árida passa a ser uma das mais altas do mundo para este tipo de ambiente (AB'SABER, 1985, p.44). Associado a isto, há o problema da existência de uma estrutura fundiária extremamente rígida onde se desen-volvem atividades agropecuárias de baixo nível tecnológico, que inevitavelmente leva a práticas agrícolas predatórias e, conseqüentemente, à degradação ambiental.

Assim, a pressão da população sobre os recursos naturais, já naturalmente frágeis, leva a deterioração ambiental gerando um ciclo de

pobreza e miséria, tornando a região cada vez mais vulnerável. A vulnerabilidade neste caso é resultado da fragilidade ambiental, econômica e social, constituindo-se em um imbricado processo de retroalimentação. Em uma análise mais acurada sobre essas relações no Nordeste, especialmente no semi-árido, AB'SABER (op.cit.p.49) faz a seguinte observação:

"A especificidade dos proble-mas humanos e sociais do Nordeste seco está diretamente relacionado ao balanço entre o quantum de humanidade que a região precisa alimentar e manter e as potencialidades efetivas do meio físico rural, dentro dos padrões culturais de sua população e dos limites impostos pelas relações dominantes de produção" (grifo nosso)

Nosso objetivo aqui, longe de ser uma avaliação aprofundada sobre a complexa situação do Nordeste, é apresentar um panorama que permita situar as questões ligadas à desertificação na região.

Evolução dos Estudos da Desertificação no Nordeste Brasileiro

São antigos os estudos e registros sobre secas, empobrecimento ambiental e suas conseqüências na organização sócio-econômica do Nordeste brasileiro. Muitas vezes esses problemas são evocados como os responsáveis pelo subdesenvolvimento da região. Os documentos mais antigos fazem referência principalmente às secas. Segundo KHAW & CAMPOS (1992), as primeiras referências às estiagens foram feitas por Fernão Cardim em 1587, porém, foi a partir da grande seca de 1877, que o governo passou a considerá-las como um problema nacional. Naquele momento, a estiagem que havia se instalado no Nordeste, resultou na morte de milhares de nordestinos e marcaram as primeiras iniciativas oficiais de combate aos efeitos da seca. Sobre esse episódio, ROBOCK (1992), ao discutir as políticas de combate às secas, faz a seguinte observação:


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"Movido por essa grande tragédia, o imperador D. Pedro II criou uma Comissão de Inquérito cuja recomendação principal era de melhoria dos meios de transporte e a construção de uma série de açudes. Um dos três açudes recomendados era o do Cedro, no município de Quixadá, cuja obra foi iniciada em 1884 e concluída em 1902, 22 anos depois, tendo sido interrompida muitas vezes. Para muitos brasileiros, o açude tornou-se um símbolo da ineficiência e do des-perdício na luta contra a seca." (p.160)

Há portanto, desde os tempos do Império, uma enorme produção tanto literária quanto científica acerca dos problemas causados pelas estiagens que freqüentemente atingem a região. Na literatura, obras clássicas como "O Quinze" de Raquel de Queiroz e "Vidas Secas" de Graciliano Ramos desvelam a contradição entre a miséria econômica e a grandeza espiritual do sertanejo. Alguns desses trabalhos são clássicos, indispen-sáveis na análise e compreensão da forte relação do homem com a rusticidade do ambiente, incluindo-se "Os Sertões" de Euclides da Cunha, que analisa a influência do ambiente nas condições de vida do homem do sertão, constituindo-se em um dos mais ricos documentos que trata das relações entre ambiente e cultura no semi-árido brasileiro. É considerável também a obra de DUQUE (1973, 1982), que com vasta experiência no semi-árido nordestino, estudou e disseminou as bases para uma agricultura ecológica no nordeste.

Assim, a produção acadêmica sobre o tema compreende os mais variados aspectos, analisados sob diferentes perspectivas. CONTI (1995) apresenta uma extensa revisão bibliográfica dos principais trabalhos para o Nordeste Brasileiro. Entretanto, os primeiros trabalhos nos quais aparecem o conceito de desertificação como a degradação das terras produtivas no semi-árido, foram conduzidos na região Nordeste, pelo Prof. José Vasconcelos Sobrinho da Universidade Federal de Pernambuco. Sem dúvida alguma deve-se a este pesquisador o mérito do pioneirismo nos estudos de desertificação no Brasil.

Ainda em 1974, quando se iniciavam as campanhas de ajuda humanitária à região Saheliana na África que sofria em virtude da seca e da fome, ao mesmo tempo em que o fenômeno da desertificação entrava em pauta na comu-nidade acadêmica internacional, Vasconcelos Sobrinho publicava o artigo "O deserto brasileiro" indicando as áreas do Nordeste já comprometidas pela degradação, as quais foram denominados de "núcleos de desertificação". Durante toda a década de 1970 o referido pesquisador publicou diversos outros trabalhos sobre desertificação contribuindo para a divulgação e compreensão do fenômeno e da sua importância na organização espacial no Nordeste.

A partir daí outros trabalhos foram apre-sentados sobre o tema no Brasil, visando especial-mente o Nordeste. A propósito de uma breve análise sobre esses estudos, agrupou-se os realizados em escala regional separando-os de escala local. A opção em analisar esses estudos considerando as escalas de abrangências é a tentativa de comparar as metodologias empre-gadas e os resultados alcançados. Os trabalhos aqui discutidos VASCONCELOS SOBRINHO (1974, 1978, 1978b, s/d), AB'SABER (1977), NIMER (1980, 1988), RODRIGUES (1992, revisado por FERREIRA, 1994) e CONTI (1995) foram sele-cionados em função da boa divulgação e repercussão junto aos estudiosos do tema, são portanto, o que se considera como os principais estudos de âmbito regional.

A produção e abordagem feita pelo Prof. Vasconcelos Sobrinho é baseada principalmente na metodologia dos indicadores da desertificação, seguindo a orientação geral da Conferência das Nações Unidas sobre Desertificação (1977). Nos seus trabalhos o autor discute o que considera ser a vocação pré-desértica do polígono das secas condicionada por "um equilíbrio ecológico instável decorrente do regime pluviométrico de baixo índice de precipitações e extrema irregularidade, dos solos rasos com limitada capacidade de retenção de água, amplo fotoperiodismo e ventos secos e quentes com forte poder de desidratação".

Define os núcleos de desertificação como áreas onde a degradação da cobertura vegetal e do solo alcançou uma condição de irreversi-


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da Bahia).

· Salões _ planícies aluviais dos baixos vales costeiros com solos salinizados onde predomina a presença da vegetação rasteira halófila. Ocorrem principalmente nas várzeas do Baixo Mossoró e Baixo Apodi no Rio Grande do Norte.

· Vales e Encostas Secas _ ocorrem em setores localizados de caatingas abertas em vales secos ou encostas de escarpas e/ou serras situadas a sotavento, ocorrem também em áreas de relevos de cuestas com chão pedregoso e baixo nível de alteração de rochas e nos enclaves de caatingas em áreas de cerrados. Localizam-se principal-mente na região centro-sul do Piauí, no sudeste da escarpa da Ibiapaba e na cuesta do Apodí.

· Lajedos-Mares de Pedra _ inselbergs e campos de inselbergs, que se caracterizam pela aridez rochosa definida, ressaltada por degradação antrópica do entorno. Ocorrem nos sertões de Paulo Afonso - BA, Milagres - BA, Quixadá - CE, Patos - PB e Arcoverde - PE.

· Áreas de Paleo-Dunas Quaternárias _ este geótopo refere-se especificamente ao Campo de dunas de Xique-Xique na Bahia. São paleo-dunas quaternárias facilmente remobilizadas pelas atividades antrópicas.

· Áreas de Topografias Ruiniformes e Cornijas Rochosas Desnudas, com Aridez Rochosa Característica _ topografias ruiniformes situadas à frente ou na base de morros testemunhos e escarpas estruturais, com pouca ou nenhuma interferência antrópica. A melhor representação dessas áreas fica por conta de Sete Cidades em Piracuruca no Piauí.

· Áreas de Revolvimento Anômalo da Estrutura Superficial da Paisagem _ colinas superficialmente degradadas com a remoção parcial dos solos rasos, por erosão antrópica formando um tipo regional de "bad-lands". Aparece nos arredores de Sertânia em Pernambuco.

· Malhadas ou Chão Pedregosos _ diferentes tipos de chão pedregosos, oriundos da liberação de fragmentos de quartzo proveniente de cabeços de dique e veios ou da desagregação de antigos cascalheiros. Ocorrem numerosos casos de

bilidade, apresentando-se como pequenos desertos já definitivamente implantados dentro do ecossistema primitivo. Indica os núcleos já existentes do nordeste: Gilbués no Piauí, Inhamuns no Ceará, Seridó no Rio Grande do Norte, Cariris Velho na Paraíba, Sertão Central de Pernambuco e Sertão do São Francisco na Bahia. Relaciona os indicadores a serem considerados na desertifi-cação (físicos, biológicos-agrícolas, sociais-uso da terra, parâmetros biológicos-humanos, processos sociais, tipos de assentamentos). Estabelece ainda o conceito de áreasparâmetro como recobertas de vegetação primitiva contíguas às que sofrem desertificação áreas-piloto, permitindo comparar a evolução do fenômeno. E em uma das últimas publicações (1983) sugere formas para a contenção do processo.

No mesmo ano que se realizava a Conferência das Nações Unidas sobre Desertifi-cação em Nairobi, Quênia, o geógrafo Aziz Ab'Saber publicou importante trabalho intitulado "Problemática da desertificação e da savanização no Brasil intertropical" (AB'SABER, 1977), no qual define como "processos parciais de desertificação, todos aqueles fatos pontuais ou areolares, suficientemente radicais para criar degradações irreversíveis da paisagem e dos tecidos ecológicos naturais". Mesmo reconhecendo que as áreas úmidas e faixas de transição sofreram mais degradação ambiental, "é no Nordeste seco que aparecem feições de degradação pontuais facilmente reconhecíveis".

Assim, partindo da base conceitual preconizada nos estudos de Geografia Física Global, o autor descreve as áreas susceptíveis aos processos de desertificação considerando sua predisposição geo-ecológica, quase sempre acentuadas por ações antrópicas diretas ou indiretas. Destaca assim, nove geótopos áridos no Nordeste, como as áreas mais atingidas. São eles:

· Altos Pelados _ correspondem aos interflúvios desnudos das colinas rasas nos quais mais de 80% da cobertura vegetal foram retirados favorecendo a remoção da camada superficial do solo e o apa-recimento de fragmentos de quartzo. Ocorrem na região do Alto Jaguaribe, na fronteira do Ceará com a Paraíba e no Vale do rio Vaza Barris (norte


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qüência, principalmente dos desmatamentos e erosão. A partir de critérios climatológicos (regime pluviométrico, duração da estação biologicamente seca e variabilidade pluviométrica ano a ano) mapeou para o Brasil as áreas mais predispostas a desertificação. Elaborou uma carta na escala de 1:5.000.000 denominada de "Zoneamento Sistemático de Áreas mais Predispostas à Deserti-ficação". Apesar da pouca divulgação, constitui-se num importante documento para orientar quais os setores do território brasileiro, que estariam potencialmente sujeitas aos processos de desertifi-cação, considerando os indicadores climáticos.

Oito anos depois o mesmo autor publica o trabalho "Desertificação: Realidade ou Mito?" (1988), no qual apresenta as bases teóricas para os estudos de desertificação, que segundo ele deveriam ser orientadas para a compreensão da dinâmica dos sistemas, discute os aspectos sócio-econômicos mundiais e suas repercussões no fenômeno da desertificação, apresentando um panorama dos países africanos atingidos. Finaliza propondo uma metodologia calcada em três eixos: climatológico, geomorfológico e pedológico, para estudo do que chamou de "Potencialidade natural de semidesertificação no território semi-árido do Brasil". O resultado seria a elaboração de cartas temáticas que superpostas permitiriam conhecer os diferentes níveis de riscos à desertificação.

O trabalho apresentado por RODRIGUES et al. (1992) por ocasião da ICID _ Conferência Internacional sobre Impactos de Variações Climáticas e Desenvolvimento Sustentável em Regiões Semi-Áridas, tratou da "Avaliação do Quadro da Desertificação no Nordeste do Brasil: Diagnóstico e Perspectiva". Este foi atualizado e reapresentado por FERREIRA et al. (1995) na CONSLD _ Conferência Nacional e Seminário LatinoAmericano da Desertificação. O estudo inicialmente apresenta uma caracterização breve da região, destacando alguns aspectos ligados à desertificação (seca, irrigação, etc.) e partindo de uma metodologia baseada em indicadores sócio-econômicos e susceptibilidade climática, esta última determinada pelo índice de aridez (razão entre a precipitação e a evapotranspiração) proposto pelo PNUMA (1991), indica as áreas do Nordeste já afetadas.

malhadas na Bahia, Ceará, Pernambuco e Paraíba.

· Áreas Degradadas por Raspagem ou Empréstimos de Terra _ faixas de terra degradadas à margem de caminhos e estradas relacionadas com a raspagem de solos e empréstimo de terra para construção de aterros e barragens.

Neste artigo AB'SABER (1997) analisa também a degradação nas áreas de cerrados ressaltando alguns pontos de desertificação e savanização e discute os ravinamentos no domí-nio dos mares de morros decorrentes da atividade cafeeira desenvolvida desde o século XIX.

Para o autor, os processos de deserti-ficação no nordeste seco resultam da predispo-sição da estrutura geo-ecológica determinada, principalmente pelas deficiências hídricas sazonais, que em alguns setores associam-se às atividades humanas levando ao surgimento de "pontos ou agrupamento de pontos filiados a processos locais de desertificação". Considera o potencial natural das terras aos processos de degradação e a ação antrópica como desencadeadora desses. O mérito do trabalho é o de reconhecer a fragilidade ambiental do semi-árido como condição "sine qua non" para instalação dos processos de deserti-ficação. Portanto, mesmo os setores pouco ocupados, expirariam cuidado no uso e manejo. Por outro lado, é difícil reconhecer uma tipologia que permita extrapolar para outros setores do sertão seco, já que as áreas citadas tem gêneses diferenciadas e foram identificadas mais pela acuidade, sensibilidade e experiência do observador do que por critérios aplicáveis a outras áreas.

Edmon Nimer publicou em 1980 o artigo "Subsídio ao Plano de Ação Mundial Para Combater a Desertificação _ Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)", no qual discute o conceito de deserto a partir da etimologia da palavra, apresenta as características bio-ecológicas desse ecossistema e o diferencia de desertificação, que para o autor, esta última pode ser determinada por dois fatores: mudanças climáticas expressas principalmente numa crescente deficiência de chuvas e a ação do homem. Apresenta ainda para o Brasil as áreas já comprometidas com o processo em conse-


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Assim, de acordo com a "Carta de Suscep-tibilidade à Desertificação no Nordeste do Brasil" (1992), foram selecionadas as áreas que apre-sentam índice de aridez (PNUMA) de até 0,65 correspondente aos climas sub-úmidos secos. A partir daí, foi elaborada uma matriz na qual foram cruzados os indicadores sócioeconômicos (considerando a presença ou ausência) com as microrregiões homogêneas que se encontram total ou parcialmente nas áreas selecionadas. Os indicadores sócio-econômicos relacionados e pesquisados através de referências bibliográficas foram: densidade demográfica, sistema fundiário, tempo de ocupação, mineração, erosão, perda de fertilidade, pecuarização, estagnação econômica, mecanização, salinização, evolução da população, bovinocultura, caprinocultura, ovinocultura, área de preservação, susceptibilidade climática, uso de defensivos agrícolas, qualidade da água e área agrícola. As áreas consideradas muito grave registraram a presença de no mínimo 15 dos 19 indicadores acima referidos. As áreas graves apresentaram de 11 a 14 indicadores, as áreas moderadas de 6 a 10 e, menos de 6 indicadores, por microrregião, significando ausência da desertificação. Os resultados mostram quais as microrregiões afetadas em cada Estado e os números da desertificação para todo o Nordeste. O trabalho inova ao introduzir dados sócio-econômicos nos estudos de desertificação, porém o uso de microrregiões homogêneas como unidade de alocação dos dados, gera distorções significa-tivas no sentido de um superdimensionamento das áreas atingidas.

CONTI, da Universidade de São Paulo apresenta sua primeira contribuição sobre o tema em 1984, intitulada "A respeito da desertificação". A partir deste artigo diversos outros foram escritos (1985, 1986, 1989a, 1989b, 1991, 1993, 1994a, 1994b) culminando com a elaboração da Tese de Livre Docência "Desertificação nos Trópicos _ Proposta de Metodologia de Estudo aplicada ao Nordeste Brasileiro", na qual o autor apresenta o que se considera como a mais completa e importante revisão bibliográfica sobre o tema, propõe ainda a metodologia estatística de estudos das séries temporais aplicada aos dados de precipitação pluviométrica com o objetivo de encontrar tendências, ciclicidades e indicadores da

variabilidade interanual.

A área de abrangência do estudo foi o semi-árido brasileiro demarcado pela isoieta de 800 mm/ano. Os surpreendentes resultados encon-trados constituem-se em uma importante contribuição aos estudos da desertificação no Nordeste Brasileiro. Do total de 237 postos com séries de dados pluviométricos de 70 anos foram encontrados 118 postos (49,7%) com tendência linear crescente, 85 postos que representam 35,8% do total com tendência linear estável e somente 34 postos (14,3%) com tendência linear decrescente. Esses resultados encontrados permitem uma discussão mais próxima da realidade sobre o regime das chuvas no semi-árido. É comum na região o uso de argumentos baseados nas observações empíricas dos moradores a respeito da diminuição das chuvas, idéias estas, muitas vezes veiculados pela imprensa e constante até mesmo no "discurso acadêmico". Na verdade os resultados encontrados demonstram que quase metade dos postos analisados apresentam tendências de aumento das precipitações locais e 35,8% mantêm os níveis de precipitação estáveis e somente 14,3% realmente tenderiam a diminuição, o que a "priori" descartaria a idéia de mudança no regime de chuvas da região, pelo menos nas últimas décadas. Por outro lado, não se pode descartar a possibilidade de alterações microclimáticas no sentido do ressecamento dos ecossistemas, vinculadas aos impactos ambientais locais que se iniciam com o desmatamento, alteração do escoamento superficial, aumento do albedo etc.

Outro parâmetro analisado foi a variabilidade interanual das chuvas através do coeficiente de variação, os números encontrados para as localidades com tendência decrescente variam de 88,6% em Barra - BA, a 26,3% em Brejo da Madre de Deus - PE, portanto são superiores aos 25% que caracterizam as regiões secas. A alta variabilidade climática encontrada na região indica uma forte instabilidade climática, esta sim, pode ser considerada a responsável pela vulnerabilidade ambiental da região.

Nos estudos de ciclicidade realizados, o autor analisou 237 séries, nas quais apenas 43 (18,1%) apresentaram ciclos, ressalta assim que "a expectativa de um perfil bem caracterizado de


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ciclicidade pluviométrica em todo o domínio do semi-árido não pôde ser confirmada" (op.cit. p.173). Entretanto chama atenção que estes resultados podem decorrer das limitações metodológicas ou da insuficiência das séries, que dada a alta variabilidade, mascara ciclos menores.

Como resultado final indica as áreas do semi-árido nas quais é possível reconhecer o "agravamento da seca", ou seja, diminuição das chuvas. Essas áreas seriam: o setor rebaixado do sertão dos Inhamuns (Ceará), no baixo São Francisco (Bahia, Sergipe e Alagoas), na vertente a sotavento da chapada Diamantina (Bahia) e alguns exemplos pontuais em outros Estados. O autor constatou também uma "sobreposição" das áreas já indicadas na literatura como degradadas, com as retas de tendência negativa.

Quanto aos valores dos coeficientes de variação interanual encontrados, estes comprovam, segundo o autor, o caráter transicional da região, estando esta com perfil semelhante ao de outras áreas secas do mundo. A revelação, dada a pesquisa com séries temporais, de áreas com registro de diminuição das precipitações torna-se o ponto de partida para outros estudos setoriais que possam oferecer maior contribuição para a compreensão do fenômeno.

O QUADRO 1 (no final deste artigo) apresenta um resumo dos trabalhos acima analisados observando a área de abrangência de cada um, as metodologias empregadas e os resultados encontrados. Esses resultados diferem em resposta às diferenças metodológicas, entretanto ao superpô-los é possível identificar áreas já comprometidas com o processo de desertificação. As regiões dos Inhamuns no Ceará e do Sertão do Baixo São Francisco, na Bahia, são áreas indicadas em todos os trabalhos como àquelas afetadas pela desertificação.

Há também uma considerável produção de trabalhos em escala local CARVALHO & LOMBARDO (1979), FRANCO (1985), NERI (1988), REIS (1988), MONTEIRO (1988), FILGUEIRAS (1991) FUNCEME (1993), SILVA et al. (1994), GALVÃO (1994), VERAS (1994), SALES (1998), SOUZA (1999). Aqui discutiremos brevemente aqueles que mais contribuíram na análise dos processos de desertificação no semi-

árido brasileiro, considerando sobretudo as metodologias.

Em 1979, CARVALHO & LOMBARDO publicam "Análise Preliminar das potencialidades das Imagens LANDSAT para Estudo de Deserti-ficação". O trabalho desenvolvido no Baixo-Médio São Francisco, na região de Xique-Xique cobriu um extensão de aproximadamente 1.300 km2. Com base em interpretação visual e digital de imagens de satélite, os autores apre-sentam mapas temá-ticos (geológico, morfológico, pedológico e da cobertura vegetal), que subsidiaram a análise do ambiente na qual definem 11 unidades ambientais e seu grau de risco à desertificação. Foi o primeiro trabalho proposto baseado em interpretação de imagens de satélite e integração dos dados geo-ecológicos.

MONTEIRO (1988) publica os resultados de uma pesquisa realizada no semi-árido. A área selecionada corresponde a um dos geotopos áridos (Altos Pelados) propostos por Ab'Saber situada na região do Alto Jaguaribe. Entre outros, um dos objetivos do trabalho foi experimentar a abordagem sistêmica como tratamento geográfico ao problema da desertificação. Como resultado, além da caracterização geo-ecológica, o autor elabora de forma muito original um panorama das imbricadas relações sócio-econômicas, com todas as implicações políticas envolvidas na questão da desertificação. Em última instância trata-se de uma descrição da difícil relação homem-sociedade/sociedade-natureza localizada espacialmente nos sertões nordestinos.

O trabalho realizado pela FUNCEME (1992) apresentado por ocasião da ICID, "Áreas Degradadas Susceptíveis aos Processos de Desertificação no Estado do Ceará _ Brasil", trata do mapeamento das áreas susceptíveis aos processos de desertificação tendo como critério a aplicação do Índice de Aridez do PNUMA com ocorrência simultânea da degradação dos fatores físicos e biológicos detectadas através do uso de técnicas de sensoriamento remoto e de Sistema de Informação Geografia _ SIG. As áreas mais afetadas situam-se na região de Irauçuba, Inhamuns e Médio Jaguaribe. A propósito destes resultados, CONTI (1995) registra a coincidência com os resultados alcançados no seu trabalho. E aí reside um fato expressivo nos estudos da


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desertificação no semi-árido, porque, mais do que coincidência, são resultados concretos com a indicação das áreas no estado do Ceará já em processo de desertificação.

SALES (1998) faz uma reavaliação do "núcleo de desertificação" de Gilbués no Piauí e considera a área do ponto de vista climático fora da zonas susceptíveis ao fenômeno. Como contribuição pragmática elabora o mapeamento das unidades de paisagem representativas das diferentes "fácies" da degradação ambiental local.

SOUZA (1999) apresenta, através do estudo da desertificação da bacia do rio Taperoá - PB uma contribuição metodológica importante para o estudo de áreas desertificadas, sobretudo quando relaciona dados de tendências de precipi-tação com o nível de degradação de vegetação nativa e o ritmo de recuperação da mesma.

É importante registrar também o surgi-mento mais recentemente de uma nova tendência nos estudos de desertificação no nordeste, trata-se do desenvolvimento de índices, coeficientes e "similares" de desertificação. LEMOS (1997) e RODRIGUES & VIANA (1997) apresentam para o Nordeste e Ceará, respectivamente, estudos no qual elegem algumas variáveis envolvidas no processo de degradação, compondo indicadores que posteriormente submetidos a modelos estatís-ticos de análise fatorial indicam os municípios afetados em diferentes intensidades pelos processos de desertificação.

Há também a iniciativa por parte do Ministério do Meio Ambiente (MMA), através da Coordenação do Plano Nacional de Combate à Desertificação e Efeitos da Seca, de orientar e financiar a elaboração dos Planos Estaduais de Combate à Desertificação. Nestes, cada estado trabalharia no diagnóstico das áreas desertificadas e no encaminhamento de soluções para a recuperação das áreas já afetadas.

Conclusão

A consolidação do conceito de desertificação como a degradação da terra nas regiões áridas, semi-áridas e sub-úmidas secas resultantes de vários fatores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas, permite que se trate os problemas de degradação

ambiental do sertão nordestino na perspectiva da desertificação. Ao longo das duas últimas décadas diversos pesquisadores contribuíram na formação de um importante acervo sobre os processos de desertificação no nordeste e as conseqüências da degradação no desenvolvimento da região e conseqüentemente na vida da população.

Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, as áreas afetadas pela desertificação na Região Nordeste abrangem cerca de 181.000 km2 e as perdas econômicas podem chegar a 100 milhões de dólares anuais. São dados preocu-pantes, sobretudo quando se considera a fragili-dade econômica e ambiental da região.

Quanto às metodologias empregadas nos estudos de desertificação para o Nordeste observa-se, como em todo o mundo, muitas divergências. A dificuldade de compreensão e de uma melhor abordagem do problema, parece estar relacionada à inadequação existente entre as escalas de trabalho e as metodologias propostas. Aos trabalhos realizados para grandes áreas, em âmbito regional, a análise climatológica, como por exemplo tendências, ciclicidade, variabilidade, índices de aridez e técnicas ligadas ao uso de sensoriamento remoto, tais como medidas de reflectividade, índice de vegetação, umidade do solo, entre outras, parecem ser os que oferecem resultados mais próximos à realidade e compatíveis com a escala proposta.

Já os trabalhos desenvolvidos em escala local, poderiam ser orientados para a realização de estudos microclimáticos, de degradação de solos, dinâmica de vegetação, produção de biomassa, uso da terra, estrutura fundiária, densi-dade de população, produtividade agropecuária, etc. Esses são apenas alguns exemplos, o importante é que, reconhecida a especificidade de cada área atingida, sejam produzidos diagnósticos mais precisos.

Os trabalhos realizados até agora em escala regional, mesmo considerando suas diferentes metodologias indicam quais as áreas já atingidas pela desertificação nas quais deveriam ser realizados estudos de detalhe.

Finalmente, é importante lembrar que no Nordeste Brasileiro a diversidade dos ambientes naturais e dos arranjos sócio-econômicos


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existentes, requerem para as áreas afetadas pelos processos de desertificação, estudos individua-lizados e soluções também diferenciadas.


AUTOR/ANO

TÍTULO

ESCALA DE ABRANGÊNCIA

METODOLOGIA

RESULTADOS

VASCONCELOS SOBRINHO

Durante toda a década de 70

Entre outros, "O DESERTO BRASILEIRO"

REGIONAL/NORDESTE

BIO-INDICADORES, VARIAÇÃO DOS ELEMENTOS DO CLIMA E CONDIÇÕES SÓCIO‑ECONÔMICAS

Identificou “NÚCLEOS DE DESERTIFICAÇÃO”

AZIZ AB’SABER (1977)

"PROBLEMÁTICA DA DESERTIFICAÇÃO E DA SAVANIZAÇÃO NO BRASIL INTERTROPICAL"

ESCALA NACIONAL

BASE CONCEITUAL RELACIONADA AOS GEOSSISTEMAS

Identificou 9 (nove) GEÓTOPOS ÁRIDOS

EDMON NIMER (1980)

"ZONEAMENTO SISTEMÁTICO DE ÁREAS MAIS PREDISPOSTAS À DESERTIFICAÇÃO"

ESCALA NACIONAL

CARACTERIZAÇÃO CLIMÁTICA ATRAVÉS DO REGIME PLUVIOMÉTRICO, DURAÇÃO DA ESTAÇÃO BIOLOGICAMENTE SECA E VARIABILIDADE PLUVIOMÉTRICA ANO A ANO

Demarcou as ÁREAS DE CLIMA SUB‑ÚMIDOS e SEMI-ÁRIDOS NO BRASIL

VALDEMAR RODRIGUES

E col. (1992,  revisado

por FERREIRA e col., 1994)

"A DESERTIFICAÇÃO NO NORDESTE DO BRASIL: DIAGNÓSTICO E PERSPECTIVA"

ESCALA REGIONAL

ÍNDICE DE ARIDEZ DA UNEP E INDICADORES SÓCIO‑ECONÔMICOS

CARTA DA SUSCEPTIBILIDADE À DESERTIFICAÇÃO E MAPA DE OCORRÊNCIA DA DESERTIFICAÇÃO NO NORDESTE DO BRASIL

JOSÉ BUENO CONTI (1995)

"DESERTIFICAÇÃO NOS TRÓPICOS – PROPOSTA METODOLÓGICA DE ESTUDO APLICADA AO NORDESTE BRASILEIRO"

ESCALA REGIONAL:

SEMI‑ÁRIDO DELIMITADO PELA ISOIETA DE

8OO mm/ano.

ANÁLISE DE SÉRIES TEMPORAIS DA PLUVIOSIDADE, VARIABILIDADE INTERANUAL E CICLICIDADES

237 POSTOS ANALIZADOS:

118 com TENDÊNCIA LINEAR CRESCENTE, 85 com TENDÊNCIA LINEAR ESTÁVEL e 34 com TENDÊNCIA LINEAR DECRESCENTE

Organizado por SALES, M.C.L

 

Trabalho aceito em maio de 2003

Organizado por SALES, M.C.L

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Texto aceito em março de 2003.