GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 14, pp. 65- 76, 2003

 

Os Dekasseguis do Brasil foram para o Japão

e lá estão criando raízes

Rosa Ester Rossini*

Resumo:

Os dados atuais a respeito das migrações são muito fragmentados, discrepantes e de difícil aferição. Estima-se que estejam no Japão cerca de 250.000 nikkeis provenientes do Brasil. A partir do início dos anos 80 do século XX ficou evidente esta migração e, aproximadamente, após 20 anos de vida e trabalho no país do Sol Nascente a migração que, inicialmente, era temporária tende a ser definitiva. O novo enraizamento é evidente e pode ser constatado através do: número de escolas que ensinam português; das escolas de samba; da presença de churrascaria; do caminhão que vende alimentos do Brasil; de locadoras de filmes falados em português; da festa e dos casamentos com pessoas do Japão ou com migrantes do Brasil. Nascem, no Japão, cerca de 4.000 crianças por ano, filhos dos nikkeis do Brasil.

PALAVRAS-CHAVE:

Nikkeis; Dekasseguis; Migração; Trabalho; Brasil/Japão.

abstract:

The current data toward migration are very fragmented, inconsistent and hard to be compared. About 250.000 Nikkeis from Brazil are calculated to be living in Japan. After the beginning of the 80S of 20th century this migration became evident. And almost 20 years living and working in the so called Sunrise country, the migrants whose were temporary at the beginning tend to be definitive. The new roots are evident and can be seen through the number of schools teaching Portuguese; of samba schools; the presence of the barbecue restaurants; the truck selling Brazilian food; video rental stores with movies spoken in Portuguese; of party and marriage with people from Japan or migrants from Brazil. In Japan, about 4 thousand children are born by year, whose parents are Nikkeis from Brazil.

KEY-WORDS:

Nikkeis; Dekasseguis; migration; labor; Brazil/Japan.

Os brasileiros que migram à procura de melhores condições de vida, os deserdados do capitalismo, em sua maioria, não figuram nas estatísticas oficiais como migrantes, são turistas. O mesmo ocorre em relação àqueles que chegam ao Brasil. Os dados atuais a respeito das migrações

são muito fragmentados, discrepantes e de difícil aferição.

Os movimentos migratórios representam, de forma crescente, importante modalidade de transferência de divisas. Segundo relatório das Nações Unidas, a remessa anual de dinheiro de migrantes, em nível global, para seus países de


* Professora Titular em Geografia Humana. Departamento de Geografia - FFLCH - USP.

e-mail: rrossini@usp.br


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origem, constitui-se na segunda maior indústria do mundo, perdendo apenas para o petróleo (FNUAP, 1993).

Os imigrantes japoneses começaram a chegar ao Brasil em 1908. O maior volume de entrada ocorreu entre as duas grandes guerras mundiais. As entradas caíram significativamente a partir da década de 1960, quando o Brasil passou pelo período da ditadura militar. No conjunto, entraram cerca de 250.000 japoneses e o estado de São Paulo recebeu mais de 93% deste contingente.

Hoje são cerca de 1,5 milhão de nikkeis no Brasil, que englobam imigrantes japoneses e seus descendentes.

Nos últimos vinte anos, ficou evidente a saída de brasileiros para o Japão, em sua maioria, na faixa produtiva dos 20 aos 39 anos. Raramente migra a família inteira e excepcionalmente levam crianças na primeira partida para o exterior. Não representa exceção a migração de menores de 18 anos para o trabalho no Japão. Todo filho de nikkei nascido no Japão continua sendo brasileiro. A estimativa de nascimento por ano é de 4.000 crianças (Sasaki, 1999).

Brasileiros no Japão por faixa etária

(números absolutos)

Faixa Etária

1994

1996

1998

Total

159.619

201.795

222.217

0 a 4 anos

5.666

9.226

14.380

5 a 9 anos

4.931

6.916

8.948

10 a 14 anos

3.726

5.963

8.619

 15 a 19 anos

12.409

16.310

17.517

20 a 24 anos

30.362

34.304

35.162

25 a 29 anos

30.446

35.274

36.187

30 a 34 anos

22.787

28.432

30.045

35 a 39 anos

15.178

19.861

22.020

40 a 44 anos

11.651

15.337

16.543

45 a 49 anos

10.190

12.525

13.300

50 a 54 anos

7.261

10.476

10.565

55 a 59 anos

3.579

4.659

5.868

60 a 64 anos

1.154

1.961

2.363

65 a 69 anos

217

435

564

70 a 74 anos

45

89

92

75 a 79 anos

7

14

27

acima de 80 anos

10

13

17

Fonte: Ministério da Justiça do Japão (1995, 97, e 99), in: Sasaki, E.M., 1999

O caminho de volta dos japoneses e seus descendentes radicados no Brasil para exercerem trabalho não-especializado e temporário no Japão tem uma forte dose tanto de procura das raízes quanto de desejo de melhoria da situação econômica individual ou familiar. São justificativas: dificuldades que o Brasil atravessa para engajamento da mão-de-obra em condições de desempenhar alguma atividade econômica com retorno justo; baixos salários, impossibilitando a

sobrevivência da família; retorno às origens; enriquecimento rápido; aventura; aprender a língua; fazer poupança para comprar imóvel, etc. (Sasaki, 2000; Ferreira, 2001).

O SONHO E A REALIDADE

Há menos de uma década, para completar o centenário da chegada oficial dos japoneses no Brasil, levas de migrantes de origem japonesa partem para o Japão à procura de trabalho, em


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boa parte motivados por propaganda freqüen-temente enganosa.

Até início de junho de 1990, antes da promulgação da lei que reformulou o controle da entrada de estrangeiros no Japão, os dekasseguis eram considerados, em sua maioria, trabalhadores ilegais. Eram, e são ainda, recrutados, em sua maioria, via empresas de turismo ou aliciados por intermediários. Devido a esta modalidade de engajamento os contratos de trabalho não eram

claros deixando as pessoas freqüentemente à margem de benefícios sociais e, mesmo em caso de acidente de trabalho, não tinham a quem recorrer.

No Japão é elevadíssimo o percentual de clandestinos oriundos das Filipinas, Tailândia, Bangladesh, Vietnã, Coréia, China, Brasil, Peru, dentre outros países. Os brasileiros constituem a terceira nacionalidade em número de estrangeiros, só superada pelos coreanos e chineses.

Estrangeiros registrados no Japão segundo

nacionalidades de maior contingência (1994)

 

País

Número de pessoas

%

Total

1.354.011

100,0

Coréia

676.793

50,0

China

218.585

16,1

Brasil

159.619

11,8

Filipinas

85.968

6,4

EUA

43.320

3,2

Peru

35.382

2,6

Outros

134.344

9,9

Fonte: Ministério da Justiça do Japão (1995: 3), in: Sasaki, E.M., 1999. p.249

 

A presença brasileira no contexto dos estrangeiros no Japão é muito grande. Na América do Sul os brasileiros são o grupo mais numeroso seguido, de longe, pelos peruanos.

Em 1º de junho de 1990 foi aprovada nova lei de controle de entrada de estrangeiros. As empresas passaram a ter direito de contratar legalmente niseis e sanseis. Mesmo após a regulamentação da referida lei, nem sempre os contratos são legais, isto é, estão em contrato indireto pessoas enviadas aos locais de trabalho por agenciadores ou intermediários ou ainda representantes das empresas japonesas, quando os nikkeis ganharam a oportunidade de trabalhar legalmente. (Ninomya, 1999).

Embora a Lei Trabalhista japonesa proíba o envio de trabalhadores simples a outras empresas, fatos com a ausência de seguro contra acidente de trabalho e o não recolhimento de imposto continuam a existir em grande quantidade.

Ao mesmo tempo, na condição de trabalhadores enviados por intermediários, não recebem referência de uma pessoa de confiança da empresa e, em consequência, a chance de ascensão dentro da empresa é quase impossível.

Em função disso, percebe-se que o trabalho ilegal conduz a contratos de trabalho não muito claros. Os treinamentos ou capacitação técnica dos dekasseguis, em geral, são considerados pelas empresas como um desperdício, já que se trata de investimento em pessoas sem contrato.

É mais comum também conceder os trabalhos mais tranqüilos aos funcionários da empresa, restando aos dekasseguis os trabalhos considerados mais simples, que qualquer um pode fazer, e duros, sujos e perigosos. Acrescente-se ainda o fato de que é bastante difícil a passagem do trabalho ilegal para o legal no Japão.


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Estrangeiros no Japão provenientes da América do Sul

(números absolutos)

 

País

1994

1996

1998

2000*

Total (América do Sul)

203.840

248.780

274.442

309.230

Argentina

2.796

3.079

2.962

3.072

Bolívia

2.917

2.913

3.461

3.915

Brasil

159.619

201.795

222.217

254.394

Chile

458

537

598

-

Colômbia

1.121

1.575

1.965

-

Equador

115

126

131

-

Guiana

9

8

6

-

Paraguai

1.129

1.301

1.441

1.658

Peru

35.382

37.099

41.317

46.171

Suriname

11

13

13

-

Uruguai

109

115

100

-

Venezuela

174

219

231

-

Fonte: Ministério da Justiça do Japão (1995, 97, e 99), in: Sasaki, E.M., 1999.

* Japan Immigration Association - JIA - Heisei 13ere Yoshioka, R, 2002

 

OS DOCUMENTOS NECESSÁRIOS PARA A MIGRAÇÃO

Além da passagem, o passaporte é documento indispensável para quem viaja. É necessário distinguir o migrante nascido no Japão (issei) e o que tem dupla nacionalidade (nisei ou issei). Esses não precisam de visto emitido pelo Consulado do Japão. Os outros migrantes niseis, sanseis e de outras ascendências necessitam preparar vasta documentação.

Há dois tipos de visto de saída necessários a pessoas que pretendem viajar para qualquer país com o qual o Brasil não tem livre entrada: o de turista e o de permanência longa. Esta última o Japão denomina de visita aos parentes próximos.

O visto para turista tem validade de noventa dias e o outro a duração de um a três anos. Se for nisei a validade é de até três anos. Os sanseis e os brasileiros casados com descendentes japoneses conseguem visto de, no máximo, um ano. Em ambos os casos os vistos poder ser renovados. "Segundo as estatística do Consulado Geral do Japão em São Paulo, o volume de vistos por ele concedido corresponde a mais de 70% daqueles emitidos por todas as

representações do governo japonês no Brasil" (Yoshioka, 1994, p. 100).

"Não existe o visto de permanência por prazo prolongado para trabalhar, a não ser que a pessoa solicite naturalização, processo difícil, e raramente a permanência é concedida pelo Ministério da Justiça" (Yoshioka, 1994, p. 98).

Para trabalhar no Japão, é necessário, após o desembarque, preparar a documentação para o trabalhador.

O governo japonês através da

"Fundação Centro de Estabilização do Trabalho na Indústria, cria em agosto de 1991 o Centro de Assistência de Empregos para Nikkeis - o Tokio Nikkeis. Este Centro localiza-se estrategicamente, próximo à estação de Yeno, em Tóquio, ponto de chegada do trem procedente de Narita. É um estabe-lecimento da Agência Pública de Apresentação de Emprego [...] O Tokio Nikkeis atende exclusivamente nikkeis e, portanto, fica à disposição com plantonistas que falam português, espanhol ou japonês" (Yoshioka, 1994, p. 103).


Os Dekasseguis do Brasil foram para o Japão e lá estão criando raízes, pp. 65- 76.


Brasileiros no Japão segundo status de permanência

 

Status de Permanência

1994

1996

1998

Total

159.619

201.795

222.217

Professores

14

20

16

Artistas

2

4

3

Atividades Religiosas

15

20

35

Imprensa

1

1

2

Investimentos e administração de empresa

15

20

14

Serviços jurídicos e contábeis

0

0

0

Serviços médicos e paramédicos

0

0

0

Pesquisadores

11

8

12

Educação

3

2

3

Engenheiros

27

15

24

Especialistas em conhecimento humanístico

33

27

45

Transferência interna de empresa

29

24

35

Promoções de entretenimento

304

184

199

Serviços técnicos especializados

65

71

61

Atividades culturais

20

19

14

 

VISITAS TEMPORÁRIAS

 

 

 

Total

2.057

3.404

1.895

Turismo

1.970

3.274

1.857

Visitas e inspeções às fábricas

3

3

1

Atividade cultural e educacional

0

0

0

Visita de parentes

79

125

37

Outros

5

2

0

 

Estudantes universitários

346

372

356

Estudantes de curso médio

40

53

50

Estagiários

225

238

217

Permanência de dependentes

357

354

297

Atividades designadas (total)

11

53

28

Residentes em caráter permanente

373

931

2.644

Cônjuge e filhos de japoneses(as)

95.139

106.665

98.823

Cônjuge e filhos de japoneses permanentes

34

29

47

Residentes por longo período

59.280

87.164

115.536

Outros

1.187

2.017

1.861

Fonte: Ministério da Justiça do Japão (1995, 97, e 99), in: Sasaki, E.M., 1999.

 

 

 

As pessoas que procuram trabalho, ao se dirigirem para lá, preenchem formulários com seus dados pessoais e pretensões de engajamento. Consultam pastas contendo propostas, fazem opção e aguardam a entrevista. São entrevistadas no próprio centro ou recebem orientação do representante da empresa selecionada para se submeterem à seleção.

Nos últimos dez anos, segundo infor-mações dos veículos de comunicação da Comunidade Nikkei do Brasil, mais de 300.000 pessoas (homens e mulheres) partiram à procura de trabalho temporário (dekasseguis).

Em geral desenvolvem atividades não muito aceitas pelos naturais da terra, os quais as


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designam com 3K (condições): KITANAI (sujo), KITSUI (penoso) e KIKEN (perigoso) (Yamochi, 1991).

Embora sejam de ascendência japonesa, não são muito aceitos pela sociedade local por não terem os mesmo hábitos e por não falarem a língua (Revista Tudo Bem, ano 1, nº 1, 1991).

São considerados estrangeiros no Brasil por serem de ascendência nipônica e são também entendidos como estrangeiros no Japão por não terem nascido lá. No fundo são autênticos desenraizados.

Alguns dekasseguis que retornavam ao Brasil definitivamente, ou estavam visitando a família, minimizavam as dificuldades enfrentadas pelo fato de estarem com os bolsos cheios. O dinheiro poupado durante o período de estada no Japão era suficiente para adquirirem imóveis, comprar carros, iniciarem alguma nova forma de sobrevivência com o montante acumulado em pouco tempo. Não se esqueciam, na sua fala truncada, de chamar a atenção para o fato de que a adaptação é um processo difícil não só pela dificuldade de comunicação, como pelos hábitos dos japoneses do Japão. Destacavam ainda que a vida no exterior é muito agitada, sem descanso, pois tudo é cronometrado (Asari, 1992).

Continua sendo grande a migração apesar da revoada ter perdido a enorme intensidade com a qual se apresentava devido a problemas econô-micos pelos quais o Japão atravessa. O maior contingente ocorreu de 1989 a 1992.

OS TIPOS DE TRABALHO E AS DIFICULDADES ENCONTRADAS NO JAPÃO

Independente da atividade que será desempenhada pelo dekassegui do Brasil ou do porte da empresa, o espaço será sempre pequeno para sua instalação. São hospedados em alojamento ou apartamento tipo kitchenette. Alguns migrantes alugam apartamentos ou a própria empresa se encarrega desse assunto.

As refeições são fornecidas pela empresa e posteriormente descontadas do salário. Aquelas que não possuem refeitórios contratam serviços de restaurantes. No caso de o trabalhador estar fazendo hora extra, a refeição é fornecida gratuitamente pelo empregador.

O seguro de saúde que inclui tratamento dentário e o de acidente de trabalho são obriga-tórios aos empregados contratados legalmente.

Os descontos no salário, que variam bastante de uma empresa para outra, incluem, portanto, aqueles atinentes aos seguros de saúde, previdenciário, refeição, alojamento, imposto de renda.

As despesas da viagem de ida são com freqüência financiadas pela empresa e posteriormente descontadas em parcelas em um período de três a seis meses após a chegada do trabalhador. Para as pessoas que assumiram compromisso por dois anos (um ano + um ano) de trabalho, as empresas freqüentemente, devolvem a passagem de ida. Para aquele funcionário que cumpriu o prazo combinado, teve boa freqüência, a empresa pode pagar a despesa de volta como prêmio pelo serviço prestado.

Além do salário mensal, algumas empresas pagam bônus especiais. Ajuda de custo, ajuda de feriado prolongado, prêmio de aposentadoria, prêmio de serviço prestado.

Todas as empresas no Japão param durante quinze dias em agosto, cinco dias nas festas de fim de ano e ano novo e alguns dias durante o verão.

Pela lei trabalhista do Japão o prêmio de aposentadoria corresponde à indenização por doze meses de trabalho. O chamado prêmio de serviço prestado acrescido do prêmio de aposentadoria correspondem, na realidade, ao valor que o funcionário recebe ao ter a passagem de volta paga pela empresa.

Os trabalhadores que não são contratados diretamente pelas empresas mas por intermediários - broker -, ao receberem o salário mensal, além dos descontos habituais onde se incluem para os alojados também aquele referente a despesas de luz, ainda pagam um percentual à empresa que se encarrega do seu contrato.

Em geral são descontados de 15% a 30% do seu salário, como o fazem os empreiteiros no Brasil, e também não têm os direitos que deveriam ter por lei porque este desconto vai, com freqüência, para o bolso das firmas agenciadoras de trabalhadores, pois a pessoa na realidade é um autônomo ou um alugado.


Os Dekasseguis do Brasil foram para o Japão e lá estão criando raízes, pp. 65- 76.


Demonstração de Prêmios de Vários Seguros no Japão (em %)

Prêmio

Empregador

Empregado

 

1. Kenko hoken (seguro saúde)

4,10

4,10

 

2. Koosei nenkin hoken (aposentadoria)

7,23

7,25(homem)

 

3. Koyoo hoken (seguro desemprego)

0,55

0,55

 

4. Jidoo-teate (auxílio família)

0,12

-

 

    Subtotal (1+2+3+4)

12,12

11,90

 

5. Tokubetso-hokenryoo (prêmio especial)

0,50

0,30

 

6. Roosai-hoken (seguro acidente de trabalho)

3,20

-

 

Além desse percentual o trabalhador sofrerá o desconto de aproximadamente 4,75% referente ao imposto de renda na fonte

Fonte: Boletim do J.P. Center, nº 33, 13/nov/1992, apud Yoshioka, 1994, p. 109

 

Sendo autônomo deve efetuar o pagamento do seguro saúde junto à prefeitura municipal. No caso de ter algum problema de saúde receberá assistência médica mas terá que assumir 30% das despesas com o tratamento e não tem direito ao recebimento dos dias parados.

Sendo assalariado pagará 10% pela assistência médica e tratamento de saúde. Pelos dias parados, a partir do quinto dia receberá 60% da diária normal de contribuição. Quando atingir a idade de sessenta anos poderá receber aposentadoria proporcional e, se tiver contribuído por mais de sete meses, passará a ter direito ao abono desemprego (Yoshioka, 1994).

É comum a sonegação da contribuição previdenciária por parte do empregador. O argumento mais comum diz respeito ao fato de que dificilmente o trabalhador poderá usufruir da aposentadoria e será um desperdício pagar por um benefício desnecessário. Quando ocorre um acidente ou doença o trabalhador fica a desco-berto. A saída é arrumar as malas e partir rumo ao Brasil. São inúmeros os casos desse tipo.

Devido ao trabalho exaustivo, fatigante e mesmo rotineiro são muito freqüentes os desequilíbrios emocionais e não são raros os suicídios.

O governo japonês hoje está ressarcindo os trabalhadores estrangeiros do pagamento efetuado para a Previdência. Para muitos é o resultado de enorme luta. Na realidade, ele quer evitar, no futuro, ter que assumir a aposentadoria proporcional a que os trabalhadores teriam direito, como o fazem alguns países, a exemplo da França.

O NOVO ENRAIZAMENTO

Os dekasseguis do Brasil têm sido contratados e/ou agenciados para as mais variadas atividades, não importando seu grau de instrução.

Os trabalhos mais comuns são aqueles ligados à construção civil, a firmas de limpeza, à hotelaria, a indústrias de peças de carro, alimentícias, de peças elétricas e eletrônicas, etc. Outras vezes são guardas de segurança ou acompanhantes de idosos. É atividade quase que exclusivamente feminina o trabalho de carrega-


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doras em campo de golfe (Caddy). As mulheres brasileiras têm se adaptado bastante a esta atividade. O transporte de tacos e outros apetrechos é feito em pequenos veículos

motorizados. Trabalham em qualquer período do dia, mesmo com chuva e vento. As gorjetas são maiores se conhecerem o jogo e souberem sugerir boas tacadas.

Brasileiros no Japão por ocupação (total)

 

Ocupação

1994

1996

1998

Total

159.619

201.795

222.217

Médico e agentes de saúde

247

240

209

Técnicos especializados

516

428

366

Professor

59

68

86

Artista

168

156

147

Escritor literário

16

20

17

Jornalista

17

33

46

Pesquisador científico

18

13

12

Religioso

33

44

72

Outros técnicos especializados

251

361

373

Administrador

100

152

179

Escritório

11.180

12.050

11.010

Comércio

11

15

22

Venda

644

797

994

Agrícola

399

417

421

Pesca

65

55

33

Pedras preciosas

29

28

23

Transporte e correspondência

255

328

318

Produção manufatureira

93.248

117.099

127.498

Trabalhador operário

4.140

4.072

3.585

Setor de serviços

6.160

5.190

4.313

Sem ocupação

41.925

60.002

72.121

Não sabe

130

277

372

Fonte: Ministério da Justiça do Japão (1995, 97, e 99), in: Sasaki, E.M., 1999.

 

Brasileiros no Japão no setor manufatureiro por sexo

Ano

nº total

%

Homens

%

Mulheres

%

1994

97.388

100,0

63.681

65,39

33.707

34,61

1996

121.171

100,0

78.176

64,52

42.995

35,48

1998

131.083

100,0

82.463

62,91

48.620

37,09

Fonte: Ministério da Justiça do Japão (1995, 97, e 99), in: Sasaki, E.M., 1999.

 

Brasileiro no Japão no setor de serviço por sexo

Ano

nº total

%

Homens

%

Mulheres

%

1994

6.160

100,0

1.553

25,21

4.607

74,79

1996

5.190

100,0

1.425

27,46

3.765

72,54

1998

4.313

100,0

1.393

32,30

2.920

67,70

Fonte: Ministério da Justiça do Japão (1995, 97, e 99), in: Sasaki, E.M., 1999.

 

Brasileiros no Japão sem ocupação por sexo

Ano

nº total

%

Homens

%

Mulheres

%

1994

41.925

100,0

18.224

43,47

23.701

56,53

1996

60.002

100,0

25.803

43,00

34.199

57,00

1998

72.121

100,0

29.806

41,33

42.315

58,67

Fonte: Ministério da Justiça do Japão (1995, 97, e 99), in: Sasaki, E.M., 1999.

 

 

 

 


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Não é incomum a apreensão do passa-porte do trabalhador.

O governo japonês tem combatido os agenciadores de pessoas para trabalho, levando à prisão os dirigentes de empresas e/ou os aliciadores. Esse recrutamento ilegal conduz também as mulheres a se submeterem a atividades que podem ser claramente consideradas como prostituição.

Recebem por mês líquido de 1.200 a 2.000 ou mais dólares. Chegam a poupar de 500 a 1.000 ou mais dólares por mês. Isso é possível a custo de um máximo de economia acompanhado de grande sacrifício e absoluta austeridade. Uma verdadeira vida franciscana. A economia é obtida através de árduas horas extras de trabalho (até quatro diárias, bem superior ao número permitido por lei). Acrescente-se ainda que as empresas que guardam os 3K são as que melhor remunerarem pelo tipo de trabalho e por estarem à margem da legislação.

Em São Paulo o Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior (Ciate), sociedade civil, tendo como membros consti-tutivos a Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, a Federação das Associações das Províncias do Japão e a Beneficência Nipo-Brasileira, tem orientado e dado assistência aos trabalhadores que o procuram. Através de pesquisa realizada por Reimei Yoshioka junto ao Ciate, estima-se que aqueles migrantes mais determinados conseguem economizar de quinze a trinta mil dólares anuais.

Não há informações mais concretas sobre os valores referidos anteriormente, mas o jornal Folha de S. Paulo (26/jan./1994, pp. 3-4) traz como título de reportagem `Brasileiros faturam US$ 2 bi no Japão' (Yoshioka, 1994, pp. 168-9).

Os casos de discriminação em geral são freqüentes, como o de mulheres receberem 20% a 25% menos que os homens. Quanto menos

conhece a língua japonesa a pessoa recebe trabalho mais difícil, sujo e penoso.

Mesmo hoje, não são raros os falsos casamentos por parte daqueles que pretendem trabalhar no Japão e não têm nenhuma ascen-dência japonesa. Após a regulamentação da lei, são aceitos para trabalho aqueles que não têm ascendência japonesa mas são casados com descendentes há cinco anos.

Merece destaque o fato de que os migrantes temporários, por não conhecerem bem a legislação trabalhista japonesa e por terem como único objetivo o de trabalhar, estão começando a criar problemas para os naturais da terra. Aceitam qualquer tipo de atividade sem questionar muito o valor da remuneração. Em muitos casos, a preferência para engajamento, por estes dois motivos, acaba sendo dada aos dekasseguis em detrimento dos naturais da terra. Destaque-se entretanto que hoje os dekasseguis são os maiores concorrentes entre si no mercado de trabalho.

Poderíamos ainda destacar que, apesar das dificuldades, da discriminação que os dekasseguis sofrem no Japão, a procura de brasileiros por esta modalidade de trabalho continua, como já foi dito anteriormente, sendo grande.

Reimei relata que,

"As indústrias automobilísticas, eletro-eletrônica, sobretudo, passam a exibir, nos seus balanços, redução nos lucros, o que implica também diminuição da produção e, como resultado imediato, a redução de horas extras, o número de turnos e a demissão de trabalhadores temporários, ou seja, dos dekasseguis. Estes, demitidos, passam a alimentar pouco a pouco o exército industrial de reserva, aceitando salários mais baixos no comércio ou em prestação de serviços" (Yoshioka, 1994, p. 132).


- GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 14, 2003 ROSSINI, R. E.


"O BRASIL NO JAPÃO". O Estabelecimento Das Redes E As Estratégias De (Sobre) Vivência

As saudades são muito grandes. Como os migrantes estão contornando esta situação? Atra-vés de relatos e de viagem exploratória de pesquisa as constatações são evidentes.

Nas províncias do Japão são muitas as cidades que apresentam número significativo de migrantes do Brasil.

Nas cidades de Hamamatsu, Kobe e Tenri, por exemplo, existem escolas, mantidas pela prefeitura, nas quais as professoras são brasileiras e nelas são recebidos os filhos dos dekasseguis. Nestas cidades há, principalmente para os migrantes, programas de rádio com músicas brasileiras e falados em português (Ueda, 1993). Há empresas educacionais como a Pentagono que tem escolas no Japão com a finalidade de ensinar portugueses para os filhos dos brasileiros: são 5.000 estudantes.

As empresas "oferecem" materiais didáticos em português. Já há associações de escolas brasileiras no Japão.

As professoras também tem encontrado seu mercado de trabalho ensinando português às crianças cujos pais pretendem voltar ao Brasil, o que nem sempre acontecerá, pois a vontade é grande mas as possibilidades que o Brasil oferece nem sempre possibilitarão a concretização deste sonho. A violência dos estudantes japoneses nas escolas, contra os dekasseguis, em geral, é muito grande.

Em todas as cidades onde há grande contingente de nikkeis brasileiros a saudade da comida e do tempero brasileiro é suprida através do abastecimento fornecido por "caminhões de alimentação" que passam em dia pré-determinado vendendo arroz, feijão, charque, goiabada, bananada, etc. Pode-se freqüentar a preços bastante elevados, churrascaria com churrasco "gaúcho" ou mesmo um rodízio de carne como se estivesse em São Paulo ou Porto Alegre. Através dos meios modernos de comunicação pode-se assistir as novelas através de vídeo ou de televisão a cabo. Bancas de Jornal e revista estão presentes também nas cidades de maior afluência.

O principal meio de comunicação internacional entre os migrantes é de longe o telefone em mais de 80%. A EMBRATEL, em determinadas horas do dia e da noite e nos fins de semana e feriados oferece facilidades altamente motivadoras. Seguem-se para as comunicações as cartas, em torno de 10%. A internet é ainda pouco utilizada (2%). A comunicação via "correio sem selo", através dos amigos que viajam também é bastante utilizada. Alguns não se comunicam.

O ponto alto das festas ocorre na época de carnaval. Há escolas de samba com foliões fantasiados que explodem a sua alegria dançando e cantando.

As empresas de entretenimento de "brasileiros" oferecem seus serviços: discoteca, karaokê, bar, dançarinos/as, modelos, cantores, desfile de modas, vestuários para festas e adornos.

A TV Globo detém o controle do mercado brasileiro de TV por assinatura no Japão. Assiste-se concomitantemente às novelas ou aluga-se um vídeo das mesmas.

Há vários jornais voltados para os brasileiros no Japão: International Press, Jornal Tudo Bem, Nova Visão, Folha Mundial. As revistas são também um veículo de comunicação muito utilizado para leitura e informação: Os Dekasseguis, Missô com Farinha, Brasil Shimbund, Made in Japão, Arigatô, Braz New.

As redes de relações de amizade e parentesco se intensificam. Agora você tem uma referência no Japão como têm os nordestinos que migram para São Paulo ou mineiros de Governador Valadares que migram para os Estados Unidos.

Assim é que o caráter temporário tende a se tornar definitivo. O número de casamentos e de nascimentos cresce a cada ano. A família é reconstituída, ou pela ida da esposa ou marido e pelos filhos ou por uma nova união e muitas vezes há o "prejuízo" daquelas pessoas que ficaram no Brasil e que viram as remessas mensais sendo diminuídos paulatinamente, a correspondência sendo cada vez mais esparsa até a devolução por "mudança de endereço" e o desaparecimento do companheiro/companheira.

Os novos arranjos familiares tendem a se intensificar e os casamentos, no Japão, com dekasseguis ou japoneses, aumentam, apesar de


Os Dekasseguis do Brasil foram para o Japão e lá estão criando raízes, pp. 65- 76.


mais de 50% dos migrantes - homens e mulheres - já serem casados ao partirem.

O trabalho exaustivo, as saudades, as violências sofridas são pouco relatados. Fica entretanto a imagem do sucesso transmitido por aquele que partiu àqueles que estão no Brasil.

Alguns migrantes já se estabeleceram "garantindo" a sua sobrevivência como pequenos empresários, comerciantes, pequenos industriais, etc.

Há serviços prestados pelos dekasseguis já estabelecidos no Japão que facilitam a vida dos que á estão no país ou que pretendem migrara como: prestadores de serviços profissionais, culturais e artísticos, técnicos de informática, advogados, jornalistas e até representantes religiosos.

As oportunidades criadas pelos primeiros que chegaram no Japão possibilita também a criação de serviços de recrutamento, informação e assistência para a regularização da documentação.

O mercado imobiliário das cidades com grande número de migrantes (Assai, Urai, Suzano, Mogi das Cruzes, Londrina, Maringá, etc.) dinamizou-se, e mesmo está sofrendo processo inflacionário, pois, no retorno, quase todos

procuram imóveis para comprar.

Através do Serviço Brasileiro de Apoio às Empresas (Sebrae), o Brasil está tentando através da publicidade, no Brasil e no Japão, orientar os retornados ou aqueles que pretendem voltar a se estabelecer, implantando pequenos negócios. Dessa forma tenta-se garantir a permanência no Brasil e aplicação do dinheiro, duramente poupado, através do trabalho realizado no Japão pelos dekasseguis do Brasil.

Acrescente-se ainda que as remessas de dinheiro feitas por aqueles que partiram para o Japão têm colaborado para garantir a sobrevivência, em condições dignas, daqueles que aqui permanecem. Os homens percentualmente fazem maior remessas que as mulheres e os parentes aqui no Brasil administram o dinheiro remetido.

É voz geral que apesar de terem conseguido economizar bastante no Japão, o Brasil é o lugar para viver e o Japão é o lugar para sobreviver.

Apesar do sonho de retornar a migração tende a ser definida como pode ser constatado que o novo enraizamento é efetivamente uma realidade.

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_______. Questões Relacionadas à Educação de Filhos de Dekasseguis. (Trabalho mimeografado 28.01.2002).

Texto entregue em março de 2003.

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