GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 14, pp. 147 - 148, 2003

 

Buenrostro y Arellano, Alejandro M. _ "As Raízes do Fenômeno Chiapas".

São Paulo, Editora Alfarrábio, 2002.

A Semente Zapatista

Marco Antonio Mitidiero Junior *

"Como se tornou possível aos desfavore-cidos pelo sistema econômico e político do México emergir agora como um movimento organizado, que traz consigo, do âmago de sua história, a dignidade e a esperança do povo mexicano ?" (p. 15)

É com esta frase que Alejandro Buenrostro começa seu relato e sua reflexão sobre a gênese do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). Ao indagar sobre as condições históricas e sociais para a organização de um movimento formado pela parte mais miserável da sociedade mexicana que são os indígenas (Tzeltales, Choles, Tzoltziles e Tojobales, todos de descendência Maia), o autor recupera a sua biografia, transformando o livro em um relato comentado.

Alejandro trabalhou aproximadamente 20 anos como educador nas comunidades indígenas do Estado de Chiapas. Dessa forma, desde a década de 60, vem acompanhando o processo de pauperização, de injustiças, da violência e da destruição da cultura dos povos indígenas no território mexicano.

Quando em 1º de janeiro de 1994 os políticos mexicanos comemoravam o início do acordo de livre comércio (NAFTA) com os Estados Unidos e Canadá, como signo de progresso econômico daquela sociedade ("México Imaginário"), os indígenas e camponeses do Estado

de Chiapas levantaram-se contra toda uma história de miséria e desrespeito que incide sobre as raízes sociais deste país ("México Profundo"). A partir deste primeiro dia do ano, o mundo inteiro passou a conhecer o Movimento Zapatista. A grande mídia mundial noticiou o espontâneo movimento que tomou para si vários municípios de um dos estados mais pobres do México. É justamente para desmistificar esta característica falsa, que muitas vezes é atribuída aos movimentos populares, que o autor nos convida a conhecê-los. As raízes do Movimento Zapatista estão na longínqua história daqueles sujeitos e não em um fato acidental, ou melhor, "um conflito não é um desajuste passageiro da sociedade, tende a se tornar uma possibilidade de mudança na história". (p. 16)

Outro ponto essencial para entendermos a gênese deste movimento social está na negação dos esquemas teórico-dogmáticos tão difundidos nos bancos acadêmicos. Como fez Regina Sader em seu estudo de doutorado sobre a luta dos trabalhadores rurais camponeses do Estado do Pará, descartando teorias globalizantes para explicar a realidade, o autor deu um passo adiante, descartando a interpretação óbvia de que estes sujeitos sociais em luta são o simples reflexo das contradições econômicas geradas pelo desenvolvimento do sistema capitalista de produção no mundo. Alejandro, como um bom


*Email: mitidierousp@yahoo.com.br


- GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 14, 2003 MITIDIERO JR.,M.A.


Assim este movimento vem caminhando. Denuncia e propõe. Traz a esperança e gera a resistência. Desafia as análises e interpretações. Segundo o Subcomandante Marcos, uma das principais lideranças do movimento zapatista, "o zapatismo não é uma nova doutrina ou ideologia, nem uma bandeira que substitua o comunismo, o capitalismo ou a social democracia. Nem chega a ter corpo teórico acabado. Somos escorregadios para definições. Escapamos dos esquemas. O zapatismo é um sintoma do que está ocorrendo no mundo, algo maior e mais geral que, em cada continente aparece de uma forma. Em cada lugar essa rebeldia apresenta formas e reivindicações próprias. Por isso dizemos que as rebeliões pelo mundo afora têm muito do zapatismo".

Como num importante livro para entendermos as organizações camponesas escrito por Teodor Shanin, "La Clase Incómoda ", Marcos resume a manifestação empírica dos injustiçados: "Somos incômodos", diz o subcomandante. Incômodos porque produzem o manifesto de negação da opressão cotidiana na qual são vitimas. Manifestam-se da sua forma, à sua maneira, a partir das suas condições. Assim, incorporam e ampliam um só grito, o grito de resistência e transformação, ou como Plínio de Arruda Sampaio escreve no prefácio deste livro: "Ainda não temos condições de definir com precisão o novo mundo possível. Mas já se tem uma idéia clara de como ele não deve ser".