GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 14, pp. 145-146, 2003

 

Buenrostro y Arellano, Alejandro M. & Oliveira, Ariovaldo U. (org.)

Chiapas: construindo a esperança. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

A rebelião zapatista

Sebastião Vargas *

Num Brasil que quase sempre ostenta uma gritante ignorância e indiferença pela situação social dos países latinoamericanos, o aparecimento das 377 páginas que constituem o livro Chiapas: construindo a esperança merece atenção especial. O livro é uma bem estruturada reunião de artigos e textos publicados, em sua maioria, no periódico mexicano "La Jornada" (jornal que vem assumindo postura corajosa e comprometida na cobertura dos acontecimentos de Chiapas e que co-edita, juntamente com a Paz e Terra, o citado livro).

Uma palavra sobre os organizadores: Alejandro Buenrostro é mexicano radicado no Brasil que, em suas andanças e trabalhos, conheceu muito da realidade dos excluídos dessa nossa américa, principalmente indígenas e camponeses. Viveu mais de 20 anos na região de Chiapas, uma das mais esquecidas e miseráveis do país, onde desde a década de 60 desenvolve um trabalho de educação popular. Conhece, pois, o fenômeno zapatista desde suas raízes mais profundas. E o que é mais importante, numa condição de comprometimento e participação. Já o geógrafo Ariovaldo Umbelino, que dispensa comentários por sua notória preocupação intelectual para com os problemas da terra e das injustiças socias, ressalta em seu artigo o desafio ao mundo intelectual e político de compreender a rebeldia de populações marginalizadas que lutam por direitos fundamentais, "negados pela moderna etapa do imperialis

mo: o neoliberalismo" (pg.58). O geógrafo nos instiga a olhar a rebelião zapatista buscando entender "semelhanças e diferenças" entre seu processo de luta e o de outras organizações populares. Termina dizendo que "a maioria da humanidade está excluída da repartição da riqueza do mundo, por isso ela se levanta em luta em muitas partes do mundo. A rebeldia zapatista dos povos indígenas de Chiapas ensina-nos que: Ya Basta!" (pg.58)

O livro cumpre formidavelmente bem sua finalidade explícita que é: "divulgar e fazer conhecer o que está acontecendo no México desde que apareceu no cenário histórico o movimento zapatista."(pg.13) Mas não somente isso. Logo de início traz uma importante reunião de informações "Para entender Chipas e os Zapatistas" que consta de dados sobre o território, sua economia, números sobre o conflito como o de acampamentos militares, gastos e refugiados. Apresenta também seis páginas com mapas do cenário do levante zapatista, suas principais localidades, as regiões por grupos étnicos, bem como mapas militares e de prospecção geológica e petrolífera. Sobre a história do movimento pode-se consultar ao final do livro uma boa cronologia do movimento, desde 1994 até janeiro de 2000, que registra com rigor os principais acontecimentos fornecendo uma visão global sobre a processo da rebelião zapatista. Para completar a lista de "utilidades" da obra, os organizadores tiveram o cui


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dado especial de incluir um glossário que permite que o leitor saiba, por exemplo, que Ik´al é "um dos deuses maias. Guardião e coração da palavra, assim como explica o subcomandante Marcos" (pg.371) ou que mapachadas são "na gíria política mexicana aquelas pessoas que estão a serviço de um grupo de poder e sabem tirar proveito da situação."

Numa primeira parte do livro encotramos comentários de intelectuais de peso como o português José Saramago que nos instiga à difícil tarefa de entender os outros, de "compreender a expressão destes olhares, a gravidade destes rostos, o simples modo de estar juntos, de sentir e de pensar juntos, de chorar em comum as mesmas lágrimas, de sorrir o mesmo sorriso, compreender as mãos do único sobrevivente de uma matança colocadas como asas protetoras sobre as cabeças das filhas, compreender este rio infindável de vivos e de mortos, este sangue perdido, esta esperança ganha, este silêncio de quem leva séculos protestando por respeito e justiça, esta ira represada de quem finalmente se cansou de esperar." (pg.34) Também merecem destaque as contribuições de Antônio Cândido, do historiador Osvaldo Coggiola, do sociólogo José de Souza Martins e do bispo Dom Pedro Casaldáliga, que com suas análises, introduzem bem os leitores ao conjunto mais específicos de artigos jornalísticos a seguir. Estes estão organizados por temas tais como origem e história, relações de poder e resistência, autonomia, poder e valor, democracia, governo mexicano e acordos, estado de direito / direito indígena, frente Zapatista de Libertação Nacional e violência. Deste modo, várias facetas desse movimento complexo e inovador são abordadas por profissionais mexicanos, tanto do ponto de vista teórico, como o do filósofo da Universidade Nacional Autônoma de México (UNAM) Luis Villoro que discute as dimensões utópicas e éticas do movimento, ou do antropólogo, também da UNAM, Armando Bartra, que relaciona a cultura tradicional maia, suas histórias e lendas com o moderno processo de insurgência. Fica explícito aí o papel de

"médium" do subcomandante Marcos que, pela boca do Velho Antonio, e, servindo de ponte de comunicação com o mundo dos mortos e dos deuses, nos revela a consciência memoriosa e transcendente da comunidade, a voz do povo profundo encarnada nos anciãos. A história concreta do movimento é abordada por estudiosos como o escritor Carlos Monsivais, Carlos Montemayor, Enrique Florescano, Héctor Díaz-Polaco, etc...

A rebelião zapatista tem sido alvo de diversos rótulos conceituais: primeira guerrilha pós-moderna, última guerrilha de descolonização, virtual (por utilizar soberbamente meios de comunicação eletrônicos com a internet), glocal (local, nacional e global), libertária, utópica, anacrônica... Despertando simpatias e solidariedade no mundo inteiro que vão desde os anarquistas iltalianos do Ya basta! até os sem-terra brasileiros do MST, os zapatistas têm o indiscutível mérito de dar novas respostas à velhas questões da esquerda histórica com muito pouco dogmatismo e colocando a exigência ética e a dignidade no centro de seu discurso e prática política. Numa de suas ousadas propostas, para essa era de desilusão e conformismo, o EZLN lançou a "internacional da esperança", com encontros intercontinentais pela humanidade e contra o neoliberalismo, cujo objetivo, entre outros, foi criar uma rede internacional de movimentos, grupos, entidades, homens e mulheres que lutam, em cada lado do planeta, contra a "internacional do terror". Como explica o subcomandante Marcos numa entrevista ao escritor Montalbán "os agentes da resistência são os setores excluídos. Em um caso, os indígenas; em outro os emigrantes, os homossexuais, as mulheres, os jovens, os desempregados." (pg.45) Sintoma local de uma crise mundial, o zapatismo pode ser entendido como uma ponte onde "caibam todos os que quiserem atravessar para o outro lado, com o mesmo anseio: construir um mundo melhor, isto é, novo". Em suma, como diz o sub, "o zapatismo não é de ninguém, portanto, é de todos."