Notícia de encontro

 

III Fórum Social Mundial – 2003 – Um outro mundo é possível

 

Paola Verri de Santana[1]

 

 

“Essa segunda “lição” da história contemporânea nos leva a crer que todas as transformações, mesmo quando superficialmente se voltam contra o mercado, obedecem, sempre, às necessidades últimas do próprio mercado.”

Sérgio Lessa in História e Ontologia: A Questão do Trabalho.

 

Numa época em que, apesar das crises do capitalismo, nenhum esforço coletivo parece realmente capaz de por fim às injustiças e desigualdades sócio-econômicas inerentes ao sistema vigente.  O sentimento de impotência, usado como argumento para a apatia, demonstra apenas o sentido da obediência frente ao medo que o mercado provoca. Na realidade, o que pesa são as formas de exclusão e violência, fundadas em práticas sutis ou explícitas de humilhação, opressão e coação.  Isso inibe o aforamento de “uma democracia verdadeira, participativa, por relações igualitárias, solidárias e pacíficas entre pessoas, etnias, gêneros e povos, condenando todas as formas de dominação assim como a sujeição de um ser humano pelo outro.[i] As manifestações nas ruas de Porto Alegre, Brasil, de 23 a 28 de janeiro de 2003, durante o III Fórum Social Mundial, contra o que então se delineava ameaça norte-americana de guerra no Iraque, ilustram perfeitamente esta idéia.

 

A última conferência, “Como enfrentar o império?”, contou com a presença de Noam Chomsky, dos Estados Unidos, conhecido por se opor à arrogância das atitudes imperialistas de seu país, portanto, por se sentir excluído lá e aceito aqui entre os defensores de idéias anti-americanistas.  Mas foi o teor do discurso colocado pela indiana, Arundathi Roy, que levantou maiores aplausos da platéia.  Exemplo do sucesso do FSM frente a um de seus objetivos: cumprir seu papel mobilizador, ela afirmava:  eles têm mais medo de nós do que nós temos deles”.  Em Porto Alegre, as entidades e movimentos da sociedade civil possuem algo forte em comum, porque acima de suas diferenças há clara consciência do que os une: “se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo”.  Enquanto eles, as grandes corporações multinacionais, governos nacionais e instituições internacionais, estavam com dificuldades, em Davos[ii], para entrar em acordo, uma vez que concorrem entre si para definir quem assume lideranças e ganha benefícios. 

 

É como “fábrica de idéias” e de “novas iniciativas”, vertente de movimentos sociais, que se encontra um dos impasses do próprio FSM, na opinião de Francisco Whitaker[iii].  O Fórum foi concebido como espaço e não como “movimento dos movimentos”, não obstante, conseguir munir seus participantes de energias e esperanças em busca da possibilidade de “um outro mundo”, além de debater temas e experiências.  O espírito de luta e a tendência crescente do Fórum, segundo ele, revela uma crise positiva, mas que põe em risco alguns de seus princípios norteadores, formadora de um processo de ruptura de estruturas hierárquicas e disputas de protagonistas, etc.  István Mészáros, Inglaterra, explica este problema ao contestar uma ideologia de esquerda capaz de corromper ideais, além de voltar-se contra si própria.  O partido deve preservar sua liberdade de contestação e manter por princípio não exclusão de idéias divergentes dentro de um mesmo grupo representativo.”  O Fórum Social, exerce o papel de facilitador para ação do poder popular, isto é, abre espaço para todos os que compartilham seus objetivos específicos, daí porque também não é neutro.   Para concretizar isso, ele vem funcionando com base numa rede horizontal, ou seja, construindo uma capacidade de articulação sem líderes e sem dono, cada entidade, movimento e indivíduo atua como sujeito e assume co-responsabilidade, inclusive diante da organização do próprio evento.[iv]

 

A lembrança das motivações para a concepção do Fórum Social é notória, enquanto “espaço aberto de encontro para o aprofundamento da reflexão, o debate democrático de idéias, a formulação de propostas, a troca livre de experiências e a articulação para ações eficazes, de entidades e movimentos da sociedade civil que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo, e estão empenhadas na construção de uma sociedade planetária orientada a uma relação fecunda entre os seres humanos e destes com a Terra.”[v]  Desta forma, assumia uma dimensão simbólica: ser realizado nos mesmos dias do Fórum Econômico de Davos, na Suíça, onde instituições financeiras internacionais vinham se encontrando anualmente desde 1971.  Este evento representa “papel estratégico na formulação do pensamento dos que promovem e defendem as políticas neoliberais em todo mundo. Sua base organizacional é uma fundação suíça que funciona como consultora da ONU e é financiada por mais de 1.000 empresas multinacionais.”[vi] Para o Econômico, a principal preocupação era como enfrentar a falta de confiança e credibilidade no mercado, seus interessados assumiram como desafio os negócios corporativos, a guerra, os riscos da economia global, incluindo pobreza e desigualdade como barreiras.  Portanto, para eles importava justamente as dificuldades de governança frente a num mundo dividido, além da definição dos valores para lideranças.

 

A iniciativa do FSM provinha da vontade de superar a crítica como pura ação de negação, almejava ser propositiva, portanto, positiva no caminho da construção de “um outro mundo possível”.  Mas qual seria o sentido desta possibilidade?  Pensar quais experiências prévias (passadas e presentes) estão postas, de modo a conduzir o movimento da transformação deste mundo, requer saber a que fim devem servir.  Por esta razão, o espaço aberto do Fórum não é neutro, mas se é livre, implica em diferentes visões políticas.  Os diversos movimentos e pensadores lá atuantes revelaram uma questão central: um conflito interno.  Embora tenha havido uma postura anti-globalização relativamente unânime, há análises e reivindicações que partem da crítica aos fundamentos constitutivos do modo de produção capitalista, enquanto outras discutem problemas imediatos, no que lhes toca direta e localmente, como a poluição pela poluição, a pobreza pela pobreza.

 

o simpósio “O Mundo Pós-Neoliberal”[vii] trouxe estes questionamentos sob a ótica referências teóricas e políticas, teve como objetivo buscar uma “síntese e aproximação das diversas correntes políticas mundiais”, partindo da crise do capitalismo neoliberal e rentista, e da falta de “suficientes refêrencias teóricas e programáticas de conjunto que nos permitam compreender o período e disputar uma nova e complexa política para o momento que se apresenta” vivida pela esquerda.  István Mészáros, Inglaterra, deixa entendido que, mesmo alguns participantes do Forum Social Mundial, não ousam negar a assertiva da necessidade de crescimento econômico e da insuperabilidade do mercado.  Vários movimentos e visões políticas não reconhecem a necessidade de uma crítica radical, que chegue às raízes constitutivas desta ordem opressora. Ele defende que uma Revolução Verde verdadeira só poderá ocorrer se associada a uma Revolução Vermelha.  Questão que se contrapõe a concepção de desenvolvimento sustentável presente no fórum inclusive como um de seus eixos temáticos.

 

Se há impossibilidade política de unificação de pensamentos e reivindicações é porque o FSM, enquanto movimento tende a se diluir diante de problemas específicos: a guerra no Iraque; o armamento dos Estados Unidos; a crise na Venezuela; a destruição dos recursos naturais; a imposição para a definição da Alca[viii]; a dizimação dos índios; entre inúmeros outros.  Diante da urgência deles, é compreensível atitudes explícitas, em geral, simbólicas, de resistência.  Seria o sentido do “pensar globalmente para agir localmente” apresentado atualmente.  No entando, segundo Mészáros, isso dificulta pensar os processos mais amplos nos quais estão inseridos, bem como vislumbrar reais mudanças, daí porque sugeriu “pensar globalmente para agir globalmente”.  Ele diz ser mentira que a pobreza e as desigualdades tenham solução com o desenvolvimento, enquanto que a dominação econômica norte-americana sobre os países latino-americanos, mediada pela ação de organismos como a OMC, o FMI e o Banco Mundial, alimenta sua produção militar. Deste modo, os eixos, definidos pelo Conselho Internacional para orientar os debates:

1 - Desenvolvimento Democrático e Sustentável;

2 - Princípios e Valores, Direitos Humanos, Diversidade e Igualdade;

3 - Mídia, Cultura e Alternativas à Mercantilização e Homogeneização;

4 - Poder Político, Sociedade Civil e Democracia; 

5 - Ordem Mundial Democrática, Luta contra a Militarização e Promoção da Paz;

deveriam ser abordados de forma transversal.

 

Manifestações frente a fatos específicos parecem tão passageiras quanto algo que se consume, ou são tão sólidas quanto pretendem se mostrar o mercado e a mercadoria, como elementos fixos da organização sócio-econômica vivida hoje?.  A mídia certamente os trata desta maneira. Kosovo, Afeganistão, Iraque, ou o “serviço” de pronta entrega de bombas em troca de “democracia”, que não é comercializável?  Mesmo na Marcha de abertura do III Fórum, o que se via era preocupação com o Iraque, não mais o que já havia passado, nem o pode estar por vir.  Neste caso, o que seria o imutável?  Assim como o mercado, vem mudando suas formas, as relações sociais de produção em suas formas de dominação não surpreendem ao se revelarem insubstituíveis em suas essências. Por esta razão, os meios de comunicação não mostram como foi bonita a reunião dos trabalhadores rurais no Ginásio de Esportes Gigantinho, para a conferência: Terra, território e soberania alimentar. A Via Campesina, o Movimento dos Sem Terra, e todos interessados pela questão agrária, convocavam e aglutinavam num mesmo lugar uma luta coletiva: não só a posse e o uso da terra, mas também pela independência nacional para produzir alimentos para seu povo, ao invés de importar de multinacionais.  As sementes, simbolizaram o começo e fim do processo produtivo e da cadeia alimentar.  Explicaram, todavia, que foram criadas pela humanidade ao longo de milhares de anos, não obstante as corporações se apropriarem disso, controlando sua comercialização, com métodos legais (patenteando), obrigando a redução de sua variedade, etc.  Mas quem irá perguntar o porquê das “novas tecnologias” não serem “patrimônio da humanidade” e sim propriedade privada?

 

O sentido do Fórum Social Mundial há que estar presente: não se ganham nem se compram direitos, eles são apropriados, conquistados e construídos individual e coletivamente.  Do contrário, o que era ameaça de homogeneização cultural, por exemplo, tende a se tornar realidade.  O Fórum Social Mundial no Brasil e para o mundo significa um pressuposto histórico diante da possibilidade de transformação do destino deste século XXI que ainda virá a ser outro.  É o amadurecimento da participação das organizações sociais e da articulação de suas ações em nível mundial que se espera do IV Fórum Social Mundial, desta vez, a ser realizado na cidade de Mumbai (antiga Bombaim, na Índia), em 2004.  Algo possível mediante Fóruns Sociais Regionais e Temáticos planejados no decorrer deste tempo em diferentes países.

 

Texto aceito em março de 2003



[1] Doutoranda em Geografia Humana no Departamento de Geografia, da Faculdade de Filosofia. Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo – FFLCH/USP, sob a orientação da Profa. Dra. Ana Fani ª Carlos. E-mail: pvsantana@yahoo.com.br.



[i]  Conforme item 10 da Carta de Princípios do Fórum Social Mundial. 

[ii] Para onde o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidira ir levando mensagem de que “mundo não aceita mais crescimento econômico sem desenvolvimento social”, durante o Fórum Econômico Mundial, de 23 a 28 de janeiro de 2003.

[iii] Segundo o balanço feito após o III FSM (14/03/2003): “Notas para o debate sobre o Fórum Social Mundial”, publicado na internet: www.forumsocialmundial.org.br/

[iv] O Acampamento Intercontinental da Juventude ilustra este esforço, não só por sua organização e convergência de pessoas com culturas e ideologias diversas, mas também a experiência vivida evidencia o contato com a heterogeneidade existente.  O espaço criado sob o Parque Harmonia representou tentativa de construção de um novo modo de vida.

[v] Item 1 da Carta de Princípios do Fórum Social Mundial.

[vi]Fórum Social Mundial: origens e objetivos”, artigo de Francisco Whitaker, publicado no "Correio da Cidadania", edição 22/01/2000.

[vii] Uma atividade auto-gestionada ocorrida nos dias 25 e 26 de janeiro de 2003 e organizada pelo Instituto Isaac Akcelrud, a Fundação Rosa Luxemburgo e o CLACSO – Conselho Latino-Americano e Caribenho de Ciências Sociais.

[viii] Para explicar o interesse dos Estados Unidos diante da disponibilidade de água, de biodiversidade, de petróleo, mão-de-obra, e outras fontes de troca desigual comercial e de capital, Osvaldo Martinez, Cuba, foi convidado a participar da conferência “Domínio das Corporações e Crise do Sistema Financeiro internacional”.