JOSUÉ DE CASTRO:  UM GEÓGRAFO DE MULTIPLAS CONTRIBUIÇÕES

REVISITADO EM SUAS IDÉIAS*

 

 

                                                                                                       Antônio Alfredo Teles de Carvalho1

RESUMO - A multiplicidade temática associada ao caráter vanguardista e dialógico de Josué de Castro assume maior relevo quando a sua obra é cotejada à luz da contemporaneidade. Reveladores dessa evidência são os seus estudos acerca da fome e da nutrição, consumo, meio ambiente na perspectiva do desenvolvimento sustentável ou da geografia social no país, afora outros que o projetaram mundialmente. Entrementes no Brasil pós-1964 Josué e sua obra caíram no ostracismo só sendo resgatados ciclicamente a partir dos anos oitenta  do século passado. Nesse sentido pode-se afirmar que no país ainda são insignificantes as tentativas de releitura da sua obra em face ao que ela representa enquanto substrato do pensamento social brasileiro contemporâneo. Contudo, a despeito desta realidade alguns autores revisitaram as suas idéias possibilitando que fosse revelada às novas gerações as bases do seu pensamento plural. Por conseguinte, já é possível identificar-se atualmente no país, ainda que timidamente, uma rede de estudiosos e pesquisadores que tomaram o autor e/ou a sua obra como objeto de estudo. Aqui, buscar-se-á resgatar alguns deles, especialmente os de natureza geográfica onde decerto encontram-se significativos trabalhos inspirados no criador e na criação e tem engendrado novos debates e discussões acerca do conhecimento científico e da Geografia em particular.

 

Abstract

The thematic multiplicity related to the vanguard and

dialogic character of Josué de Castro assume more

relief when his work is confronted to contemporary

light.  Those who revealed this evidence are the

studies about hanger and nutrition, consume,

environment in sustainable development perspective or

about social geography in Brazil, among others

subjects that gave him worldwide projection.

Meanwhile, in Brazil pos-1964, Josué and his work were

forgotten, they have been rescued only cyclically

after 80s.  On this way, it is possible to assert

that, in this country, the attempts to re-read his

work, in face of what it represents as substrate of

contemporaneous Brazilian social thought.  But, in

spite of this realities, some authors revisited his

ideas making possible to reveal them to new

generations, on bases of his plural thought. As

consequence, it is already possible to identify in

this country nowadays, even if timidly, a net of

studious and researchers that took the author and/or

his work as object of studding.  Here, this paper will

show some of those rescued specially the geographical

ones, where certainly relevant works, suggested by

their creator and  his creation, are found.  They have

engendered new debate and discussions about scientific

knowledge and Geography, in particular.

 

Key-words: Josué de Castro, Geographical Thought,

Geography.

 

             

Considerações Iniciais

 

 

              A multiplicidade temática contemplada por Josué de Castro associada ao seu pioneirismo e as modalidades de abordagem quase sempre inovadoras, conferiu-lhe distinções como autor plural e/ou matriz à análise e compreensão de alguns espectros que ‘simbolizam’ a sua contemporaneidade e perduram até hoje.

              Reveladores dessa evidência são os seus estudos acerca da fome e da nutrição, consumo, meio ambiente na perspectiva do desenvolvimento sustentável, ou da geografia social no Brasil, afora outros que o projetaram nas diversas plagas do mundo. Para reforçar esta afirmação apoiar-me-ei em Amado (1958: 347) que a propósito aludira:

                                                  “de Josué de Castro e sua obra de escritor e cientista (...) ouvi falar, 

                                                  tanto  em  Paris como  em  Moscou, tanto  em Viena e Berlim quanto 

                                                  em  Pequim   e  Ulam Bator,  cidade   encravada  nas  montanhas  da

                                                  Mongólia. Por toda a  parte onde se  lê e o trabalho da inteligência é 

                                                  respeitado e amado”.

 

              Paradoxalmente, no Brasil pós-1964 Josué e sua obra caíram no ostracismo só sendo resgatados ciclicamente a partir dos anos oitenta do século passado e, especialmente no decênio subseqüente, mormente em decorrência de movimentos que se relacionam com o seu pensamento e a sua trajetória2 ou em datas representativas no que concerne à obra3.

              Nesta perspectiva, pode-se afirmar que no país ainda são insignificantes as tentativas de releitura da sua obra. Entrementes,  a despeito dessa realidade, vale destacar que alguns autores revisitaram as idéias de Josué de Castro possibilitando que fossem reveladas às novas gerações as bases do seu pensamento plural. Assim sendo, já é possível identificar-se atualmente no país, ainda que timidamente, uma rede de estudiosos e pesquisadores que tomaram o autor e a sua obra como objeto de estudo4. Com exceção dos trabalhos de  Tobelem5 e de Taranto6, esses estudos remetem à década de oitenta e caracterizam-se especialmente pela natureza temática. É ancorado nesta perspectiva que aqui  destacar-se-á um dos temas mais recorrentes no contexto de revisitações do universo castrino, a geografia, ciência a qual está intimamente associado desde os primeiros tempos da sua institucionalização no país.  

Nas Trilhas do Retorno a Josué de Castro

              Analogamente ao que pode ser constatado no campo da fome e da nutrição7, também na Geografia Josué revelou-se um pioneiro, especialmente na análise dos aspectos sociais negligenciados por significativa parcela dos adeptos da escola vidalina. Com efeito, realça Valverde8 que: 

                                                   “o  grande  mérito  de  Josué  de  Castro  foi a contribuição que ele         

                                                   trouxe para ressaltar a diferença nos problemas de nível de vida (...)

                                                   entre  as   classes  ricas  e  as  classes  pobres   exploradas.  E então

                                                   ele  mostra   como   efetivamente       uma  referência  que     fez  

                                                   se  acentuar  de    até hoje (...) Dá ênfase aos problemas dos níveis

                                                   de  vida das populações  ricas e  das maiorias pobres dentro do país

                                                    e do  mundo em seu conjunto, como  acontece até hoje, que é a base

                                                   do  problema social” . 

 

              Esta observação de um insigne geógrafo brasileiro, justifica a importância atribuída a Josué na instituição de uma geografia social crítica no país por outros autores a exemplo de Santos e de Moraes que o vêem como referência ao entendimento das metamorfoses efetuadas no contexto geográfico brasileiro. Para o primeiro, “Josué foi um grande pioneiro dentro de sua disciplina de eleição: a Geografia Humana. Mas foi também alguém que inovou na análise dos fenômenos sociais então pouco ou nada estudados” (2002: 29); por sua vez, Moraes (1986: 119)9 alude que a “Geografia da Fome abriu aos geógrafos novos horizontes ao apontar uma perspectiva de engajamento social, de atuação crítica”.

              É oportuno rememorar que a geografia clássica de inspiração vidalina10 predominante no país neste período, não comportava este tipo de abordagem, o que em parte explica a restrita divulgação da sua obra entre os geógrafos contemporâneos seus ou mesmo sucedâneos, tornando-o até os dias atuais ‘um desconhecido’ a despeito do que adverte Andrade apud Carvalho (2001: 4) quando assegura que “no momento em que vivemos, em que se tem dificuldade de distinguir o nacional do internacional, ante o processo, em marcha, da chamada ‘globalização’, o seu pensamento ganha importância”. Não por acaso, é nos  trabalhos deste autor que se encontra expressivo volume de informações sobre Josué de Castro, sempre enfatizando o seu pioneirismo no tratamento das questões sociais na Geografia, o seu legado e a atualidade do seu pensamento.

              Acrescente-se, ademais, que a geografia há muito se ressente de respaldo teórico que lhe enseje participar mais ativamente nos constantes debates que buscam o entendimento da realidade (Silva, 1992:13) e, nesse sentido, a releitura de Josué de Castro chega a ser fundamental.

              Para fins de análise, a partir da bibliografia levantada, a sucinta releitura da obra castrina no contexto geográfico brasileiro pode ser analisada à luz de três matrizes:              

              - fome e a nutrição

              - história do pensamento geográfico social brasileiro

              - estudos de geografia urbana brasileira

              A totalidade composta pelos trabalhos subjacentes a estas perspectivas ainda que não contemplando a inteireza do universo temático evocado pelo geógrafo, mesmo o subdesenvolvimento, muito associado ao conjunto da sua obra, permite uma visão ampla e  acurada do seu pensamento e, conseqüentemente, da geografia por ele ensejada. Acrescente-se que esta geografia que certamente perpassou o que vislumbrara o autor, especialmente com o advento do paradigma crítico, também eludiu-se de questões como a fome, que tem se constituído em um dos mais insistentes flagelos sociais desde os tempos mais longínquos. 

              Decerto, deriva daí a pouca incursão aos matizes castrinos acerca da fome a da nutrição, notabilizada no reduzido grupo de geógrafos brasileiros a ocupar-se com o tema. Contudo, nos anos 90 vem à luz alguns trabalhos que se não são suficientes ao preenchimento desta lacuna, despertam a necessidade de revisitar Josué e retomar a sua análise. Nesse sentido, ressalta Souza (1993: 4) que

                                                   “tentar  estudar a fome (...) e  poder compartilhar  das  angústias de 

                                                   Josué de Castro, é  percorrer  os  caminhos  da compreensão do que

                                                   seja   a   globalização   e   seus  efeitos   pervesos:  o   mercado   e  a

                                                   banalização  da  comida, a  escassez,  a  abundância. É ver o mundo     

                                                   num   evoluir  desigual   e  combinado. É ter de admitir, tristemente,

                                                   que  dadas  às profundas características  culturais que impregnam o

                                                   processo de globalização, nesta caminhada, nós os cientistas sociais

                                                   e   intelectuais  dos   países  pobres  estaremos   sós.  Pois  esta   é  a  

                                                   característica do nosso LUGAR”.                                       

 

              Perceba-se que no período técnico-científico informacional, a técnica, igualmente ao que denunciou Josué décadas atrás, não tem ética e, continua a ser utilizada mais contra que a favor dos povos pobres, visando unicamente produzir o máximo de vantagens e lucros aos grupos da economia dominante.  

              Instigada por esse processo, a autora lança mão de uma releitura de Geografia da Fome e impressiona-se com o geógrafo: difícil superar a genialidade de Josué de Castro. E muito menos as suas angústias (Op. Cit: 2). Souza mostra ainda, a partir dessa releitura que no mundo atual a fome consiste em um efeito perverso e insistente da globalização e da qual emanam as geografias das desigualdades.

              Distintamente da análise realizada por Souza, centrada na contemporaneidade, Marchi (1988) transportou-se aos meados do século passado a fim de recuperar a análise de Josué de Castro quanto à fome e a produção de alimentos nas décadas de 40 e 5011.

              No seu trabalho, o autor discorre sobre a biografia do ‘geógrafo da fome’ e traz à tona impressões deste a propósito da questão fundiária no Nordeste brasileiro a partir de Geografia da Fome, para em seguida destacar que o trabalho empreendido pelo mesmo é pela reforma agrária e observa “que a proposta de Josué de Castro é pela modernização do campo, nos moldes dos países industrializados europeus e norte-americanos, que fizeram acompanhar o seu processo de industrialização, de uma reforma do campo e de uma alteração da estrutura de poder da terra” (Op. Cit: 40).

              Em A Fome e as Duas Faces do Estado do Ceará12, Sampaio (1999) ancorado no pensamento de Josué e na sua contribuição nos estudos sobre a fome, aviva a relevância da sua obra:

                                                   “constatamos  que  sua  obra  deixou significativo legado  político  e

                                                   econômico,  ora  aplicado  pelas  instituições  internacionais  (ONU,

                                                   BIRD,  FMI,  OMS,  FAO,  UNESCO,  UNICEF, etc.)   responsáveis

                                                   pelas  propostas   de   planejamento   planetário   para   construir   e

                                                   reconstruir   territórios.  Josué   propôs   mudanças  nas   estruturas

                                                   dominantes,    via    terra,    educação,   saúde,    meio   ambiente    e

                                                   solidariedade entre os homens”.

             

             Na esteira dessa herança, o geógrafo trilha os processos geopolíticos que envolvem o espectro da fome no Ceará, aplicando ao seu trabalho conceitos e classificações instituídos por Josué, ‘recriando’ a classificação da fome em endêmica e epidêmica desenvolvida pelo autor nos anos 40.

              Esse sistema de referências construído por Josué de Castro que inspirou trabalhos similares ao de Sampaio, alumiando e antecipando inferências de diferentes focos de realidade conferiu-lhe  a designação de ‘visionário’, ‘profeta’ ou, ‘místico’ segundo a perspectiva de Mançano e Gonçalves em recente trabalho sobre o autor e a sua obra13. Segundo estes geógrafos, as idéias castrinas são místicas por simbolizar e alimentar as lutas sociais no país.              

              Quanto a Segunda matriz apontada, pode-se afirmar que se trata de um campo fértil e igualmente vasto a ser explorado, pois mesmo reconhecendo a dimensão do significado de Josué de Castro à geografia brasileira institucionalizada aqueles que se dedicam ou, discorreram sobre a história da disciplina no país, ainda não lhe dispensaram uma análise condizente com a sua contribuicão. Com freqüência as referências ao autor consistem em breves citações.

              Nessa perspectiva, aparecem Dias (1989: 197) que na sua reconstituição histórica do pensamento geográfico brasileiro, destaca a originalidade do autor; Santos (Op. Cit: 23) aludindo o vanguardismo da sua interpretação não conformista e o conteúdo social da sua obra; Monteiro (1980:14/41/133) apontando o reconhecimento logrado por Josué no exterior em função do tratamento dispensado aos problemas terceiromundistas, a despeito da indiferença conhecida no Brasil ou ainda, a influência recebida do geógrafo norte-americano Preston James; Geiger (1994: 376) recuperando ligeiros aspectos biográficos ou ressaltando que o mesmo ‘iria se transformar em personagem nacional e internacional, não pelo conteúdo científico de seu texto, mas pelo significado político e científico da escolha do tema, da geografia da fome, colocando a disciplina no campo social e sobretudo Andrade, que em vários trabalhos chama a atenção para a importância de Josué na formação do pensamento geográfico nacional.

              Constituem exceções os trabalhos de Marchi (Op. Cit.), Anselmo e Bray (1998) e mais uma vez Andrade (1996), que em biografia escrita para compor a reedição do livro de A. M. Castro14 em comemoração ao cinqüentenário de Geografia da Fome, resgata e contextualiza a sua trajetória, destacando o geógrafo social implícito no intelectual e homem público que fora Josué.

              Assim, pôde o autor penetrar no universo castrino e defrontar-se com novas formas de entendimento das suas preocupações, da geografia trilhada, ou ainda as suas ‘divergências’ com o grupo de geógrafos brasileiros, que

                                                  “procurava apresentar a escola francesa como politicamente neutra,

                                                  deixando  as   preocupações  políticas  e  sociais  para  sociólogos  e

                                                  economistas,  enquanto  ele,  tomando  a  fome  como  centro de suas

                                                  preocupações,   estendia    seus   enfoques    aos     aspectos   étnicos,

                                                  lingüísticos,  religiosos  e  alimentares” (Op. Cit: 294).

 

              As considerações sistematizadas  por  Andrade,  de forma ampla, se fazem sentir na monografia de Marchi (Op. Cit.), assim como no ensaio de Anselmo & Bray15, que objetivando elucidar a importância de Josué de Castro para a geografia brasileira, ainda discutem as influências teórico-metodológicas   subjacentes  a  sua  obra,  o  rompimento  com  a  neutralidade científica  e a

projeção lograda à frente da sua temporalidade. É lícito acrescentar que a abordagem marcadamente possibilista assumida pelo autor, em parte, é propulsionadora desses avanços freqüentemente associados ao seu pensamento e a sua obra.

              O paradigma possibilista também se apresenta como aporte à sua análise sobre a cidade, que no seu entender

                                                   “é   sempre   um   produto   das   possibilidades   geográficas   e   da

                                                   capacidade  de  utilização  das mesmas pelo grupo  humano  local  e

                                                   nela  se   refletem   sempre   as   influências   do  meio  natural  e  as

                                                   influências   do   grupo  cultual.  Embora seja,  como  resultante  um

                                                   organismo  artificial,  a  cidade  é, ao mesmo tempo,  uma expressão

                                                   do  natural  e  do  humano:  a mais complexa e grandiosa expressão

                                                   material da ação do homem como fator geográfico” (1954: 26). 

 

              Este trecho extraído da sua tese à Cátedra de Geografia Humana da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil16 em 1948, ratifica o anteriormente colocado e revela a sua habilidade na articulação entre o natural e o cultural. Este trabalho consiste também em um marco nos estudos sobre a cidade no país, o que confere ao autor a condição de matriz aos estudos da geografia urbana brasileira. Contudo, vale aludir que esta matriz pode apresentar-se sob duas perspectivas: a primeira corresponde aos estudos históricos da geografia urbana nacional e, a segunda, aos estudos sobre a cidade do Recife.

              No primeiro caso, a referência à tese de Josué torna-se imprescindível e com freqüência é ressaltada pelos estudiosos do tema. Com efeito, no seu livro Dois Séculos do Pensamento Geográfico sobre a Cidade, destaca Vasconcelos (1999: 217) que “Josué de Castro inicia a série de teses de geógrafos dedicados às grandes cidades brasileiras” no segundo pós-guerra quando tem início “o estudo de cidades brasileiras realizados por geógrafos nacionais” (Vasconcelos, 1997: 76). Assim, o Recife foi estudado por Josué “a partir de pesquisas realizadas no Brasil, em Portugal, França e Holanda, procurando relacionar os fatores fisiográficos, históricos e locacionais, e propondo o conceito moderno de “fabricação de paisagem urbana” (Vasconcelos, 1994: 67). Abreu (1994: 224) na sua avaliação a propósito da evolução do estudo geográfico da cidade no Brasil também não deixa de  fazer referência ao trabalho do autor sobre o Recife, o que aliás já fora destacado com mais ênfase por Azevedo (1994) na década de 50 no seu clássico ensaio de geografia urbana retrospectiva onde trata das vilas e cidades brasileiras do período colonial.

              Entretanto, é nos estudos específicos sobre o Recife, que Josué de Castro tende a ser mais revisitado pelos geógrafos. Os trabalhos levantados ilustram este fato, que em parte justifica-se pelo número  de   pesquisas  desenvolvidas  sobre  a   cidade.  Assim, Costa17,  na  primeira  parte  da  sua

dissertação busca a compreensão da formação do Recife dentro da sua Região Metropolitana no clássico de Josué, trilha esta perseguida por Barreto18 para descrever a cidade a partir do período holandês, semelhante ao que fizera Andrade19, que estudou a formação da aglomeração recifense e a influência holandesa nas metamorfoses urbanas ocorridas no período Maurício. Procedimento similar foi adotado por Gomes20 a propósito das similaridades e reencontros de paisagens européias como Veneza e Amsterdã no Recife.

              A evolução do espaço urbano da cidade também constituiu objeto de análise para Melo21 que nesta perspectiva, evidenciou a sua ocupação por sobrados e mocambos, temas aprofundados por Bitoun apud Gomes (Op. Cit.)22, Veras23 e Cavalcante24 que buscaram em Josué aportes à explicação da diversidade de paisagens que formam a capital pernambucana e o seu processo histórico de ocupação humana e urbanização.                          

              A totalidade destes aspectos são revistos e analisados por Gomes nos três primeiros capítulos que compõem o “Itinerário Intertextual nas Paisagens Históricas do Recife”, segunda parte da sua tese de doutoramento25. 

              A autora utiliza-se das noções de sítio e localização descritos por Josué para explicar a formação e evolução das paisagens e os lugares contidos no espaço recifense dos seus primeiros tempos ao período da dominação holandesa.

              Observa-se, assim, que Fatores de Localização da Cidade do Recife constitui um referencial imprescindível ao estudo da cidade do Recife e por conseguinte, à historiografia da geografia urbana brasileira.

 

 

Para não Concluir

              As considerações aqui formuladas centradas na obra de Josué de Castro à luz dos trabalhos relacionados, clarificam os múltiplos desdobramentos passíveis de análise a partir do seu pensamento como também reafirmam a sua importância na formação do pensamento  geográfico brasileiro especialmente nas décadas sucedâneas a sua  institucionalização, ao mesmo tempo em que acenam à necessidade de aprofundamento e reflexões a propósito do criador e da criação em face ao que representam enquanto substrato do pensamento social brasileiro contemporâneo.

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*Texto extraído da segunda parte do terceiro capítulo da Dissertação de Mestrado Josué de Castro na Perspectiva da Geografia Brasileira – 1934/1956: uma contribuição à historiografia geográfica nacional, defendida no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Pernambuco.

Trabalho aceito em novembro de 2002



1 Professor Substituto do Departamento de Ciencias Geográficas da Universidade Federal de Pernambuco. Email: antalf@hotmail.com

2 A exemplo da “Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida” sob a liderança do sociólogo Herbert de Souza – Betinho; “Ano 2000 sem Miséria”, comandada pelo arcebispo emérito de Olinda e Recife Dom Hélder Câmara e o movimento “Mangue Beat” liderado pelo músico pernambucano Chico Science. 

3 Ressalte-se à guisa de exemplo, o significativo número de eventos (seminários, simpósios, mesas-redondas etc.) realizados em várias partes do país em comemoração ao cinqüentenário da primeira edição de Geografia da Fome ao longo do ano de 1996. 

 

4 Perceba-se que os trabalhos relacionados  neste texto revelam esta realidade

5 TOBELEM, Alain. Josué de Castro e a Descoberta da Fome. Rio de Janeiro: Leitura, 1974. Provavelmente, este é o único livro sobre Josué de Castro publicado no Brasil nos anos setenta.

6 TARANTO, G. Societá ed Sottosviluppo nell'opera di Josué de Castro. Cahiers Internationaux d'Histoire Economique et Sociale. Geneve: Librairie Droz, 1980.

7 Onde decerto se encontram os mais significativos trabalhos inspirados no pensamento e na obra de Josué de Castro, chegando mesmo a constituir-se um imperativo aos investigadores da área tomar o autor em alguma perspectiva, como referência.

8 Em entrevista concedida a Antônio Alfredo Teles de Carvalho. Rio de Janeiro, 20 de novembro de 1999.

9 Ainda, segundo Moraes (Op. Cit: 118) este livro, (juntamente com Geografia do Subdesenvolvimento, de Yves Lacoste), “mesmo não ultrapassando a esfera da proposta regional (...) apresentava realidades tão contraditórias, que sua simples descrição adquiria uma força considerável de denúncia, fazendo da geografia um instrumento de ação política”.

10 Igualmente oportuno, é rememorar que Josué era adepto dessa escola, entretanto assumira uma postura independente que lhe permitiu desenvolver seus trabalhos à luz da análise regional incorporando o social.

11 MARCHI, Dorival Donizeti. O Pensamento Geográfico de Josué de Castro nas Décadas de 40 e 50: a fome e a produção de alimentos. Monografia (Especialização no Setor de Desenvolvimento Rural) Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, 1998.

 

 

12 SAMPAIO, José Levi F. A fome e as Duas Faces do Estado do Ceará. Tese de Doutoramento (Programa de Pós-Graduação em Geografia) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP. São Paulo, 1999.

13 MANÇANO, Bernardo, GONÇALVES, Carlos W. P. Josué de Castro – vida e obra. São Paulo: Expressão Popular, 2000.

14 CASTRO, Anna Maria de. Fome, um Tema Proibido: últimos escritos de Josué de Castro. 3 ed. Recife: CEPE, 1996.

15 ANSELMO, Rita de Cássia M. de S., BRAY, Sílvio Carlos. Josué de Castro e a Importância de sua Obra para a Geografia Nacional. Rio Claro, 1998. 10 p.

 

 

16 Fatores de Localização da Cidade do Recife – um ensaio de geografia urbana. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial, 1948.

17 COSTA, Eda Maranhão P. Expansão Urbana e Organização Espacial – uma Área Litorânea na Região Metropolitana do Recife. Dissertação (Curso de Mestrado em Geografia) Centro de Filosofia e Ciências Humanas - UFPE. Recife, 1981.

18 BARRETO, Ângela Maria M. O Recife Através dos Tempos – formação da sua paisagem. Dissertação (Curso de Mestrado em Geografia) Centro de Filosofia e Ciências Humanas - UFPE. Recife, 1990.

19 ANDRADE, Manuel Correia de. Recife: problemática de uma metrópole de região subdesenvolvida. Recife: Universitária, 1979

20 GOMES, Edvânia T. Aguiar. Recortes de Paisagens na Cidade do Recife: uma abordagem geográfica. Tese de Doutoramento (Programa de Pós-Graduação em Geografia) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP. São Paulo, 1997. p. 88.

21 MELO, Mario Lacerda de. Metropolização e Subdsenvolvimento: o caso do Recife. Recife: Universitária, 1978.

22 Op. Cit.

23 VERAS, Lúcia Maria de S. C. De Apé-Puc a Apipucos: numa encruzilhada,a construção e permanência de um lugar urbano. Dissertação (Curso de Mestrado em Geografia) Centro de Filosofia e Ciências Humanas - UFPE. Recife, 1996

24 CAVALCANTE, Onilda Bezerra. O manguezal do Pina: a representação cultural de uma paisagem. Dissertação (Curso de Mestrado em Geografia) Centro de Filosofia e Ciências Humanas - UFPE. Recife,  2000.

25 Op. Cit. p. 54.