GEOUSP – Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 12, p. , 2002

 

 

NAS Atividades econômicas a modernidade tecnológica exclui homens e mulheres.

incorpora mais a mulher na cidade e menos no campo.

 

Rosa Ester Rossini *

 

 


 

Resumo:

A modernização tecnológica em andamento faz com que o mundo do trabalho sofra grandes transformações. No Brasil, com a substituição paulatina do emprego pela ocupação, aumento da terceirização e do setor informal, vem ocorrendo um afastamento das mulheres do mercado de trabalho formal. O aumento da atividade feminina nos anos noventa, induzida pela queda na fecundidade, aumento da urbanização, da escolaridade feminina, dentre outros fatores, não tem impedido a exclusão da mulher do mercado de trabalho. Havendo uma predominância de atividades femininas nas cidades, registra-se uma forte masculinidade na agricultura, pois com a mecanização do campo, não se encontra mulheres operando máquinas sofisticadas.

 

Palavras Chaves:

Modernização tecnológica, trabalho feminino, exclusão social.

 

Resumo:

La modernisation technologique qui nous voyons au-jour-d’hui, change le monde du travail. Au Brésil, avec la substitution graduel de l’emploi par l’occupation, l’augmentation de la terceirization e de le secteur informel, il y a un éloignement  des femmes du marché formel du travail. L’augmentation de l’activité féminin aus annés 1990, induite par la diminution de la fecondité, l’augmentation de l’urbanisation, de l’ecolarité féminin, parmi d’autres factores, n’empêche pas l’exclution de femmes de le marché de travail.  Il y a une prédominance des activités feminins en travaux qui sont d’ordre domestique - la majorité informels - plusiers secteurs de l’economie sont encore fermés à des femmes. Avec cette predominance d’activités feminins aus villes, on peu enregistré une fort présence masculin à l’agriculture, puisque avec la mecanisation de la campagne, nous ne trouvons pas des femmes qui conduisent machines sophistiquées.

 

Palavras Chaves:

Modernization technologique; travail feminin; exclution social.



 


* Professora Titular em Geografia Humana do Departamento de Geografia - FFLCH/ USP

Pesquisadora do NEMGE - Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero/ USP

Pesquisadora do LABOPLAN - Laboratório de Geografia Política e Planejamento Territorial e Ambiental do Departamento de Geografia - FFLCH/ USP

e-mail: rrossini@usp.br

 


As discussões a respeito das tendências atuais do futuro da humanidade, na qual as mulheres são a maioria (esquecida), giram em torno das técnicas e tecnologias.

No fundo, as projeções se limitam à visão da fração da população mundial que já vive com conforto.

Lamentavelmente a maioria da população que vai nascer neste século nunca vai chegar a usar um computador, a receber um tratamento médico em hospital especializado e nunca vai viajar de avião, pois vivemos o mundo da exclusão (Dupas, 1999, Rorty, 1999). Essas populações terão sorte se puderem aprender a ler e comprar alguns medicamentos.

Neste mundo da exclusão será fácil perceber que uma pessoa pobre do Brasil ou de outro país da América Latina não terá o mesmo tratamento para a AIDS-SIDA que uma pessoa de um país do 1º Mundo. Ninguém escreveu que uma criança nascida no 3º Mundo vai ter as mesmas oportunidades na vida que uma criança nascida na Holanda ou na Suécia. Nem todas as crianças terão acesso a computador.

Aquelas pessoas que já se beneficiam da sorte continuarão tendo mais sorte. No interior dos países industrializados do 1º Mundo é possível que haja um pouco mais de sorte, de igualdade, no interior deles.

Hoje a humanidade está empenhada no que talvez seja a grande aventura científica do século XXI: o projeto Genoma. É possível que todas as pessoas saiam beneficiadas pois, tornando-se possível o conhecimento da organização do código genético, as perspectivas de curar as doenças e de ampliar anos de vida, possam ser mais democratizadas e toda a humanidade será atingida.

O futuro que as mulheres almejam é o da igualdade e equidade de gênero em todos os aspectos da VIDA.

Para que haja a possibilidade da transformação é preciso ter sonhos, esperanças e auto-confiança. Acima de tudo: SOLIDARIEDADE  e esperança social para que mais cedo ou mais tarde todos tenham as mesmas oportunidades. (Santos, 1996, Rorty, 1999).

 

1-Exclusão social em um mundo em transformação

 

A modernização tecnológica em andamento, poupadora de trabalho, cria as bases para reestruturar a produção de bens e serviços, os processos e a organização do trabalho. Suas repercussões na composição orgânica do capital pela tecnificação leva, em maior escala, à exclusão de mulheres, de pessoas idosas e prematuramente idosas e de jovens que deveriam estar entrando no mercado de trabalho. (Cacciamali, 2001)

O emprego paulatinamente está sendo substituído pela ocupação. Desta forma o emprego formal começa a ser raro.

A tônica passa a ser o mercado informal de trabalho e a terceirização. O trabalho flexível e informal, no qual as mulheres ocupam cada vez mais espaço, passa a ser importante gerador de atividades. Os grandes países desta periferia como o Brasil, Argentina, México e Índia já atingem hoje, em suas concentrações metropolitanas, mais de 50% de sua mão-de-obra empregada no setor flexível. Intensificam-se ausência ou perda dos direitos conquistados em duras lutas sindicais para a pessoa trabalhadora, tais como: férias, 13º salário, Previdência, saúde e hospitalização. As aposentadorias precoces por falta de oportunidade de trabalho, por “demissão voluntária” ou por dispensa do emprego, se avolumam. (Cacciamali, 2000)

A população está sendo obrigada a “inventar” o seu próprio trabalho, “adquirir” seus esquemas de produção social. Além do mais, esse setor informal, embora encarado pelos governos como importante gerador de empregos/ocupação, é comumente tratado como marginal por ser uma fonte de evasão fiscal. (Wajnmann, 1997, 1998, Bruschini, 1998).

Todos esses fatores, incluídos na profunda mudança do paradigma do trabalho humano neste início de século, introduzem alterações muito importantes que aumentam a exclusão social real ou, no mínimo, justificam nas pessoas uma sensação de aumento de sua condição de exclusão. O desemprego é hoje o fenômeno mais aparente de mudanças estruturais que vem ocorrendo no mercado de trabalho. (Cacciamali, 2001)


 

 


Tabela 1 - Brasil

Taxas de desemprego, por sexo

Regiões metropolitanas e distrito federal 1996-99 (em %)

Regiões

Homens

Mulheres

Metropolitanas

1996

1999

1996

1999

São Paulo

13,5

17,3

17,2

21,7

Porto Alegre

12,4

16,7

14,1

21,9

Belo Horizonte

11,5

15,9

14,2

20,4

Salvador

nd

25,8

nd

29,9

Recife

nd

19,6

nd

25,6

Distrito Federal

14,9

18,8

19,1

24,6

Fonte: Anuário dos Trabalhadores DIEESE/SEADE, MTE/FAT e convênios regionais. PED - Pesquisa de emprego e desemprego - DIEESE/ 2000-2001, p. 108.

 


Se o direito ao trabalho digno não significa um dever da sociedade em prover na qualidade e quantidade necessária esses postos de trabalho, uma das questões fundamentais dos direitos da humanidade, 50 anos após a sua promulgação, está prejudicada. (Dupas, 1999).

Para o início da mudança esse é o momento das corporações transnacionais, que primaram pela concentração dos capitais e pela fragmentação das cadeias produtivas visando apenas ao lucro, pararem para pensar na ética. (Souza, 1997, 1998).

O mundo está carecendo de escolas, de habitação, de saúde - (pois o stress e a depressão se intensificam), de segurança - (a violência aumenta, o consumo de drogas cresce aceleradamente), de alimentação, etc. Para a satisfação destas necessidades básicas é necessário que haja vontade política dos governantes, preocupação cada vez mais distante.

 

2-O trabalho em um mundo em transformação

 

A questão do trabalho, de seu futuro, de seu estatuto e de seu lugar não é e não



XX - GEOUSP – Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 12, p. , 2002                                                                                   Rossini, R. E.

 

 

 


pode ser privilégio apenas de uma classe privilegiada de gestores do pensamento da política econômica e social do país, posto que o seu reverso é o desemprego, a desocupação (Souza, 1997). É necessário pensar na população.

A globalização, característica do momento atual, é um processo de enorme perversidade e que tem como condições fundamentais, o espaço geográfico e a tecnociência. A globalização, portanto, não se encerra apenas na questão do conhecimento do mercado e da economia, mas no conhecimento do mundo, cuja existência se conecta diretamente com as pessoas e com o território (Souza, 1998, 1997, Santos, 1996).

Assim sendo, o problema contemporâneo, especialmente a pobreza, a exclusão social, encontrarão solução no âmbito da política, da ética e da filosofia.

A política dos Estados neo-liberais é o de enxugar suas empresas acelerando as privatizações. Os Estados amparam as empresas com capital retirando parcela que deveria ser encaminhada ao social, linha seguida nos últimos tempos pelo governo federal de apoio a bancos privados e empréstimos a empresas privadas.

As empresas correm atrás dos lucros. Nessa corrida há necessidade de atualização tecnológica que implica numa rotatividade e redução de empregos. Acrescente-se ainda a implantação de novas modalidades de contrato de trabalho, maior expansão de trabalhos por conta própria e de contratos não registrados.

Assim sendo a questão do emprego é uma decorrência da visão do mundo, logo uma concepção política de percepção do mundo, desta forma é ético e filosófico. (Souza, 1998, 1997).

 

3-Tendências atuais das taxas de ocupação no Brasil

 

A chamada “socialização” das atividades nas empresas, os “ajustes” realizados por alguns ramos de atividades conduzem à menor necessidade de mão-de-obra. Assim sendo esta racionalidade está promovendo:

- Diminuição do assalariamento;

- Aumento da terceirização;

- Aumento do setor informal;

- Aumento da ocupação relativa das mulheres;

- Aumento do desemprego de Homens e de Mulheres;

- Aumento do desemprego de “velhos”;

- Aumento de jovens desocupados, etc, (Wajnman, 1997, 1998; Posthuma, 1997; Abreu, 1994; Cacciamali 2000, 2001).

O mercado de trabalho não tem sido capaz de criar postos de trabalho no volume e no ritmo demandando pela população disponível ativa para o trabalho. As estatísticas oficiais, através de malabarismos estatísticos, informam a existência de cerca de 20% da população fora do mercado de trabalho. Acrescente-se ainda o fato de que no Brasil, em 1999, 57% da população recebia até três salários mínimos (O Salário Mínimo no Brasil é, em 06.2002, cerca de 73 dólares).

 

 

 



 


Tabela 2 - Brasil

Distribuição dos ocupados, por níveis de rendimento 1999 (em %)

Nível de Rendimento

Brasil

 

Homens

Mulheres

Total

Até 1 salário mínimo

17,0

24,7

20,1

Mais de 1 a 2 salários mínimos

21,7

21,5

21,7

Mais de 2 a 3 salários mínimos

16,9

12,9

15,3

Mais de 3 a 5 salários mínimos

13,5

7,9

11,2

Mais de 5 a 10 salários mínimos

11,4

7,2

9,7

Mais de 10 a 20 salários mínimos

5,2

3,0

4,3

Mais de 20 salários mínimos

2,9

1,1

2,2

Sem rendimento1

9,7

20,7

14,1

Sem declaração

1,7

1,0

1,4

Total

100,0

100,0

100,0

Fonte: Dados; IBGE.PNAD. Elaboração: DIEESE: Anuário dos Trabalhadores, DIEESE/ 2000-2001, p. 79.

1 - Incluídas as pessoas que receberam somente em benefícios

Obs.: Não incluída a população da zona rural de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá.

 


Nestas duas últimas décadas a saída de pessoas do país, em idade produtiva, para o trabalho no exterior aumentou significativamente. Rompendo a tradição histórica de predomínio de migrantes do sexo masculino, está havendo equilíbrio entre homens e mulheres nesta migração, segundo pesquisas recentes. Está ocorrendo uma troca desigual: as pessoas migrantes para o exterior tem escolarização predominantemente de nível médio e vão executar, quase sempre, trabalhos que não exigem esta formação e que são renegados pelas pessoas do chamado primeiro mundo por serem duros, pesados e perigosos. Por outro lado as empresas que recentemente foram privatizadas por grupos internacionais, tem solicitado autorização do governo brasileiro para a entrada dos seus técnicos no Brasil que são bem assistidos, recebem polpudos salários e executam trabalhos cujos profissionais brasileiros são perfeitamente capazes. A partir deste quadro assiste-se à tendência ao:

- aumento do número de dias de pessoas desempregadas/desocupadas;

- aumento do número de dias  de pessoas procurando emprego/ocupação;

- aumento do número de pessoas fazendo bico;

- aumento de cursos profissionalizantes;

-          aumento de pessoas ligadas ao setor informal;

-           aumento de trabalhos a domicílio e de trabalhos no domicílio;

-          aumento da migração.

 

O mercado está à procura de pessoas criativas, versáteis, capazes de se adaptar e as mulheres são o FUTURO.

 

4-O crescimento da atividade feminina nos anos 90

 

O crescimento histórico dos níveis e tendências da participação feminina no mercado de trabalho no Brasil é um fenômeno bastante significativo.

Até a década de 70, a taxa de participação das mulheres não ultrapassou os 20%, em 97, esta taxa saltou para 47% e tende a continuar crescendo. Estima-se que em 2001 seja de 51% (Revista Veja, 1991, p. 14)

Conforme revelam os dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), esta fraca participação das mulheres no mercado de trabalho, fruto, em parte, da metodologia utilizada e da frágil conscientização das mulheres em relação ao seu trabalho, que perdurou até o início da década de 80, começa a sofrer modificação em meados da década de 80, o que se consolida nos anos 90. Devido a uma enorme gama de fatores ocorre crescimento mais intenso das taxas de atividades para as mulheres nas idades mais maduras. (Wajnman, 1997, 1998).

As tentativas de se conhecer os determinantes dos processos de crescimento e mudança de padrão de atividade feminina tendem a enfocar tanto as mudanças demográficas quanto as de caráter sócio-econômicas e culturais que estariam alterando padrões de comportamento das mulheres casadas e com filhos, no sentido da maior compatibilização das atividades domésticas com as atividades de mercado. Além dos fatores conjunturais, que identificam as atividades femininas com estratégias de proteção da renda familiar, mas que não explicam uma tendência de mais longo prazo, é necessário destacar:

- o processo de urbanização;

- a queda da fecundidade;

-          a escolarização feminina;

- mudanças nos arranjos familiares;

- esquemas de cuidados domésticos;

- políticas públicas que viabilizaram a saída da mulher para o mercado,etc.

(Wajnman, 1997, 1998; Abreu, 1994; Bruschini, 1998)

A industrialização crescente de bens e serviços do lar, desde produtos alimentícios ao cuidado das crianças, teriam proporcionado maiores possibilidades da mulher se dedicar às atividades produtivas.

Uma forma menos habitual de discutir o crescimento da participação feminina é identificar, no crescimento da informalidade que se verifica no mundo do trabalho, a ampliação do espaço para a atividade feminina. Assim, as mudanças no perfil da pessoa trabalhadora requisitada pelo mercado poderiam, eventualmente, estar favorecendo a demanda por mulheres, à medida que abre espaço para um perfil de trabalho mais flexível, mais intermitente, marcado por jornadas mais curtas e, claramente, mais terceirizado. A ausência de vínculos formais atinge proporcionalmente mais mulheres, concebida como a proporção de trabalhadores por conta-própria e empregados sem carteira sobre a população ocupada.

Nos anos 90 a taxa de atividade feminina manteve-se em lento crescimento enquanto que a dos homens declinou de 79,8% em 91 para 76,6% em 1995 (Wajnman, 1997, 1998). Homens e mulheres perdem postos de trabalho permanente.

No Estado de São Paulo o setor informal concentra grande número de Homens e Mulheres. Os serviços domésticos ocupam predominantemente mulheres, embora já haja tendência de ocupação de homens nesta atividade, acrescente-se ainda a forte participação feminina também nos serviços públicos onde se individualiza a atividade de ensino. Nas ocupações ligadas à construção civil, serviços braçais e indústria metalúrgica há predomínio de homens (tabela 3).

 

 

 

 


 

Tabela 3 - Estado de São Paulo

Proporção da população ocupada por grupo ocupacional e sexo

Grupo

Homem

Mulher

Comerciante ambulante

13,78

15,18

Comércio varejista e atacadista

8,47

1,35

Construção civil

10,27

0,11

Serviços financeiros, corretagem e seguros

1,68

1,30

Serviços de barbearia e beleza

0,42

2,38

Serviços domésticos

0,60

14,19

Serviços de hotel, bares e restaurantes

2,64

5,44

Serviços públicos

4,18

11,33

Esporte e cultura

1,37

1,40

Confecção de vestuário e calçados

0,62

5,22

Extrativismo

0,26

0,09

Indústria de alimentação e fumo

0,15

0,11

Indústria de cerâmica, artigos de borracha, cimento e madeira

2,81

0,48

Indústria eletroeletônica

0,30

0,35

Indústria gráfica e papel

1,14

0,53

Indústria metalúrgica

6,91

0,57

Indústria têxtil

0,45

0,41

Ocupações genéricas de produção

19,12

26,71

Trabalhadores braçais

13,93

4,94

Outros

10,92

7,91

Fonte: IPEA: Inserção o mercado de trabalho: diferenças por sexo e consequências sobre o bem-estar. Construída com base nas informações contidas na Pesquisa Mensal de Emprego (PME) de 1996, 1997 e 1998.

 


As mulheres, no conjunto, têm jornada de trabalho de duração menor do que a dos homens. Há algumas explicações para isto tais como: a carga de trabalho de preparo de aulas não é computada para as pessoas que se dedicam ao magistério; número de horas a mais dedicadas ao cuidado com os filhos e com a casa também não são computados nas jornadas femininas.

Sintetizando pode-se perceber, no Brasil, as seguintes tendências de participação das pessoas na força de trabalho no início do século XXI:

- importante crescimento da participação dos conta-próprias (vendedores de produtos; trabalho no domicílio; diaristas);

- aumento dos empregadores, pequenas firmas;

- expressiva participação de empregadas domésticas sem carteira e com ganhos decrescentes;

- aumento da participação das empregadas domésticas-diaristas- e com ganhos crescentes;

- aumento das funcionárias públicas - professoras;

- redução das pessoas empregadas com carteira assinada (especialmente na indústria);

- heterogeneidade nas formas de contratação, uso e remuneração da mão-de-obra;

- no total das mulheres ocupadas, 70% ocorre sem carteira;

- programas de intermediação e qualificação de mão-de-obra e micro-crédito;

- aumento das taxas de desemprego e aumento de empregos precários e menos qualificados. Atinge homens e mulheres;

- constituição de uma jurisprudência a respeito das atividades das pessoas trabalhadoras por conta própria e pequenos empreendedores;

- luta por maior abrangência e cobertura do seguro desemprego.

 

5-A aceleração das maculidades na agricultura

 

O atual período técnico-científico-informacional tem provocado modificações no “arranjo” da atividade agrícola, no caso da cana, e da força de trabalho. Em função dos estudos recentes e aplicação destes, ligados as engenharias genética e científica, são visíveis as mudanças.

Com a utilização de variedades de cana desenvolvidas em modernos laboratórios de pesquisa é possível chegar-se até a 10 cortes enquanto que no passado recente era econômico, no máximo 3 cortes. A colheita não mais se realiza a partir de junho, mas desde fevereiro já se observa o início do corte, mesmo que seja para o plantio. Isto quer dizer que pode-se colher cana o ano todo. Com a utilização da irrigação, principalmente nos períodos secos, através do pivô central que irriga um hectare de terra a cada 24 horas, pode-se eliminar o que chamamos dos rigores do clima.

Cultivando e plantando o ano todo, irrigando e aumentando a produtividade, intensificando a mecanização no corte, plantio e tratos culturais, altera-se por completo o calendário agrícola tradicional. Claro que há um período de maior concentração de atividades e onde fica evidente a enorme participação da força de trabalho masculina mas, no conjunto, é possível falar-se em trabalho durante todo o ano. A migração de trabalhadores para o período da colheita, embora tenha diminuído bastante, continua sendo predominantemente masculina provocando queda sensível na participação percentual da mulher na força de trabalho nesta atividade e no período da colheita.

A proibição da queima dos canaviais no perímetro de um quilômetro da cidade para evitar o aumento da poluição ambiental, embora nem sempre cumprida a legislação, tem levado os usineiros a investirem em outras linhas de pesquisa para aproveitamento do material e diminuição do “lixo”.

Foram desenvolvidas e estão sendo utilizadas “novas” formas de aproveitamento dos resíduos: “hotéis” para o gado com alimentação à base de torta feita com o bagaço da cana. Próximo à usina são feitos pastos em exíguos espaços (por exemplo 100 m por 2 a 3 km), e alugados trechos para criadores de gado que o utilizam para engorda ou para fugir das secas; outra forma de aproveitamento dos “resíduos” é através da produção de energia elétrica. Essa energia, por exemplo, na Usina Vale do Rosário movimenta a própria usina e ainda é vendida à cidade de Orlândia, a qual possui 60.000 habitantes e que é iluminada no período da safra, seis meses; há ainda a utilização dos resíduos da transformação da cana que são jogados no solo e ou distribuídos na plantação através de uma rede de canais. Os resultados dessa prática ainda não foram avaliados quanto ao comprometimento do lençol freático. (Rossini, 1999).

Com a modernidade tecnológica na agricultura da cana assiste-se à: diminuição relativa da mulher na força de trabalho, diminuição numérica da participação de homens na força de trabalho, diminuição do tamanho da família, queda da fecundidade, aumento da participação da mulher na chefia da família, aumento da migração, gravidez precoce, diminuição do poder aquisitivo tanto para os homens como para as mulheres, aumento do número de laqueaduras de trompa voluntárias, pressão dos empreiteiros para a realização de laqueaduras e exigência de apresentação do atestado médico constatando a não gravidez, consumo quase diário de carne de frango, aumento do fornecimento pela usina de alimentação às pessoas trabalhadoras. A distribuição de leite com café e de suco bem doces no início do trabalho e lanche da tarde é feita para aumentar a energização das pessoas trabalhadoras e conseqüente intensificação da produtividade do trabalho. Utilizando esta prática é possível ocorrer queda relativa do pagamento por produção considerando que este pagamento é estabelecido pela média geral da produção.

A residência predominante é no urbano.

É evidente as contratações masculinas para operar máquinas. Não se encontrou ainda mulheres operando máquinas sofisticadas. Assim sendo, a modernidade tecnológica na agricultura, nesta fase, só tem acelerado as masculinidades: o trabalho no campo capitalista é masculino.

As mulheres conquistaram um certo espaço nos movimentos sociais, na fase dos acampamentos na luta pela terra. Realizada esta etapa, os homens “assumem o poder”.

Finalizando, torna-se necessário ressaltar que não existe um espaço global, mas, apenas espaços da globalização e que a possibilidade de diminuição das diferenças é quase uma utopia.

O mundo, porém, é apenas um conjunto de possibilidades, cuja efetivação depende das oportunidades oferecidas pelos lugares (Santos, 1996).

Trata-se, portanto, para todas as pessoas e em particular para as mulheres, da busca de oportunidades oferecidas pelas possibilidades para a realização do futuro sonhado objetivando suprir as carências: de todos os tipos de consumo - material e imaterial, neste mundo de exclusão; políticos; de participação social; de cidadania e sobretudo carência de ética por parte do Estado e das Empresas para com as mulheres.

Nós somos o futuro. O milênio que se iniciou em 2001 promete ir além dos sonhos da ficção científica. É preciso descobrir o novo, adaptá-lo e transformá-lo. Talvez o grande caminho seja a solidariedade das pessoas e entre as pessoas e sobretudo para com as mulheres.


 

Bibliografia

 

 


ABREU, J.; Sorj, B. Informalidade e precariedade: gênero e raça no Brasil em 1990. IV Conferência Internacional da Mulher (Pesquisas, 1995). Rio de Janeiro: IPEA, 1994 (Série Seminários, nº 7)

BRUSCHINI, C. Gênero e trabalho feminino no Brasil: novas conquistas ou persistência da discriminação? Campinas. UNICAMP, abril de 1998, 37p. (mimeo).

CACCIAMALI, M. C. Informalidade, flexibilidade e desemprego - necessidade de regras e políticas públicas para o mercado de trabalho e o exercício da cidadania. GEOUSP Espaço e Tempo. Revista do Departamento de Geografia, vol. 10, 2001, Humanitas - FFLCH, USP, pp. 77-90.

__________, Reform and labor adjustment in Argentine and Brazil. Carta Internacional - São Paulo, vol. 8, nº 93, 2000. pp. 8-12.

DIEESE - Anuário dos Trabalhadores. 2000-2001, p. 79 e p. 108.

DUPAS, G. 1998. Economia Global e exclusão social. Jornal da USP. 15 a 21 de março de 1998.

IPEA - Pesquisa Mensal de Emprego (PME) de 1996, 1997 e 1998.

POSTHUMA, A. C.; LOMBARDI, M. E. 1997. Mercado de trabalho e exclusão social da força de trabalho feminina. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v. 11, nº 1, pp. 124-131, jan-mar, 1997.

Revista Veja. Edição Especial Mulher. Ano 34, dezembro de 2001.

RORTY, R. O futuro da utopia. Jornal Folha de São Paulo, 4 de abril de 1999.

ROSSINI, R.E. “Internacionalização e modernização: os anos 60 a 80”. In: BRIOSCHI, L.R. et BACELLAR, C.A.P. Na Estrada do Anhanguera. Uma visão regional da história paulista. Humanitas, São Paulo, 1999. pp. 203 a 240.

SANTOS, M. 1996. A natureza do espaço. Hucitec, São Paulo.

SOUZA, M. A. A. de. 1998. A geografia do futuro e o futuro da geografia - CEGE - Capistrano de Abreu. Universidade de São Paulo.

______. 1997. O significado do trabalho no mundo novo. XVII Encontro Nacional de Dirigentes de Pessoal das Instituições Federais de Ensino. Curitiba-Brasil (mimeo).

WAJNMAN, S.; Perpétuo, I. H. 1997. A redução do emprego formal e a participação feminina no mercado de trabalho brasileiro. Revista Nova Economia, vol. 7, nº 1, maio de 1997. Belo Horizonte. Brasil, pp. 123-147.

WAJNMAN, S.; Queiroz, B. L; Liberato, U.C, 1998. O crescimento da atividade feminina nos anos noventa no Brasil in XI Encontro Nacional de Estudos Populacionais. População: Globalização e Exclusão. ABEP - Caxambú - Minas Gerais, pp. 2429-2454.