GEOUSP – Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 12, p.XX , 2002.
 

 

 

 

Carlos, Ana Fani Alessandri

Espaço-tempo na metrópole

São Paulo, Ed. Contexto , 2001, p 368.

 

Wagner Costa Ribeiro *

 

 

 


1. São Paulo: metrópole do não lugar

 

Em Espaço-tempo na metrópole, originalmente Tese de Livre Docência apresentada ao Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo no ano 2000, a autora analisa uma intervenção urbana em uma área metropolitana de um país periférico para refletir sobre a condição humana contemporânea. Para ela, o caso ilustra de maneira contundente as agruras de uma época que caracteriza como sendo de um desencontro entre “sujeito e a obra”. Em seu trabalho a metrópole de São Paulo aparece como o lugar de profundas e rápidas transformações que ocorrem não só no espaço - nas formas urbanas - mas, sobretudo na vida cotidiana. As intervenções do estado redefinindo usos e funções de parcelas da cidade, interferem nos modos de uso e apropriação da cidade, pelo cidadão, criando uma nova prática socioespacial na medida em que  transformam o sentido dos espaços públicos e redefinem os espaços privados. Esse processo, todavia, não se realiza sem profundas contradições gerando conflitos e lutas em torno do "direito a cidade".

O livro, ilustrado com mapas e fotografias, aborda a Operação Urbana Faria Lima, que consistiu na abertura de uma grande via em um bairro residencial desenvolvida na década de 1990 em São Paulo. Na interpretação da autora, perdeu-se com a obra, uma avenida que em determinados trechos chega a ter mais de 4 faixas de rodagem para cada direção, um dos sentidos da vida urbana: a identidade dos moradores com o lugar onde habitam.

No desenvolvimento dessa idéia, em nosso ver central no trabalho analisado, ela chega à elaboração de uma nova maneira de ver o mundo urbano estabelecendo o que chama de “dialética do estranhamento/reconhecimento”. Segundo a Autora, a vida metropolitana estabelece uma cisão entre o tempo da vida e o tempo da cidade resultando no estranhamento/reconhecimento.

Se o estranhamento é facilmente apreendido, o reconhecimento torna-se mais difícil, pois, em nosso entender, vem impregnado de valores também alheios ao ser no mundo que acabam por impingir ao habitante de um grande centro urbano uma falsa idéia de pertencimento. O caso da Grande São Paulo é relevante. Com mais de 18 milhões de habitantes, oferece em tese os melhores serviços de saúde, a melhor gastronomia, os melhores eventos


 

* Professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo.


XX - GEOUSPEspaço e Tempo, São Paulo, Nº 12, p. , 2002                                                                                  Ribeiro, W. C.

 

 

 


de entretenimento, os postos de trabalho com melhor remuneração, e a lista poderia prosseguir. Mas pensamos que o que realmente a cidade metropolitana de um país periférico disponibiliza a seus habitantes é pouco, diante das inúmeras ofertas. A imensa maioria da população que vive em metrópoles não tem acesso a esses atrativos! Também é verdade que muita gente nem esta informada sobre tais possibilidades, mas a oferta de trabalho ou de moradia, mesmo que subnormal, já garante a ilusão de pertencimento a uma obra gigantesca que impressiona a quem nela vive e a quem a observa de fora.

Essa exterioridade artificial na verdade coroa a concepção de que no mundo construído encontramos abrigo ante aos dilemas da vida e aos azares de ordem natural e/ou social. Mas a dura realidade das periferias urbanas indica que a violência é desigualmente distribuída na cidade, tanto em número de ocorrências quanto em qualidade (nos bairros de classe média alta e alta ela afeta mais aos empregados domésticos do que aos seus patrões e os roubos de automóveis lideram as estatísticas enquanto que na periferia predomina assassinatos e roubos a mão armada). Da mesma forma, os azares naturais afetam o espaço urbano de maneira distinta: fortes chuvas causam perdas de vida em áreas faveladas enquanto alagam vias públicas em áreas onde vive gente abastada.

Essa diversidade construída ao longo de séculos em São Paulo é caracterizada no livro da geógrafa da USP. Mas, por piorem que sejam as condições humanas, é possível que haja algum reconhecimento, alguma lembrança de pertencer à turba que se movimenta para mover o que lhe é exterior: uma dinâmica social imposta, como vem ocorrendo nesses tempos de uma globalização perversa. Mas isso seria assunto para outro momento.

Retomando as idéias da geógrafa, novidades criadas por meio de grandes intervenções urbanas apagam e redefinem identidades. Se existe perda de referenciais urbanos com a destruição de antigos casarões ou galpões de fábrica para a construção de um centro de compras que reproduz um modelo encontrado em diversas partes do mundo, trata-se da produção do não lugar, um dos temas abordados no livro. Podemos dizer que para sua autora a metrópole transforma-se em um amontoado de não lugares, cujas vias produzidas em reformas, como a estudada no livro, destroçam o antigo tecido urbano buscando uma lógica do novo em si mesmo, da ideologia da velocidade e de que o belo é apenas o novo. Uma grande avenida serviria para o deslocamento rápido de um automóvel mas o que assistimos em São Paulo é o trânsito caótico e congestionado ao ponto de pedestres chegarem mais rápido aos seus destinos que os que encontram-se em carros! Nesse sentido, a avenida torna-se um não lugar não apreendido pelo “citadino”, que ocupa um automóvel envolto em um monte de ferro e aço, iludido que esta alheio ao mundo exterior ao som da música de sua preferência...

Mas se a operação urbana realizada em São Paulo causou esses problemas temos que refletir sobre as intervenções em larga escala na cidade. Elas ocorrem há muito tempo: lembremos de Paris ou mesmo de Barcelona, ou ainda do Rio de Janeiro, para citar um caso brasileiro.



Espaço-tempo na metrópole, pp. XX                                                                                                                                                XX

 

 

 


Essas experiências lograram aspectos positivos e negativos. Mais uma razão para que sejam analisadas de maneira crítica. O livro aqui comentado contribui para essa reflexão.