GEOUSP – Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 12, p. , 2002

 

 

 

 

 

Notas sobre o XIII ENcontro nacional de geógrafos

João Pessoa/PB – 21 a 26 de julho de 2002.

 

 

 

 


A temática central proposta pela organização do XIII Encontro Nacional de Geógrafos esteve diretamente relacionada a dois acontecimentos incômodos: o primeiro referente à profunda crise social, política e econômica na qual o Brasil está historicamente encravado, num momento de possível mudança política; e em segundo, diante da perda de dois importantes geógrafos brasileiros que literalmente agitaram o processo de transformação da geografia latino americana nas últimas quatro décadas: Armando Correa da Silva e, principalmente, o conhecido professor Milton Santos foram os homenageados. Ou melhor, o Encontro ocorreu em homenagem a estes dois geógrafos. Por isso, o mote desta reunião político-científica pediu Por Uma Geografia Nova na Construção do Brasil.

Esta nova geografia não surgiu e nem era para surgir em apenas cinco dias de discussões, debates e reflexões realizadas por uma grande quantidade de geógrafos que se encontravam na bela capital da Paraíba. Aliás, uma informação difundida entre os participantes do encontro era de que estávamos participando do segundo maior encontro científico da América Latina, ficando atrás, apenas, do encontro realizado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). De fato a quantidade de geógrafos neste evento aproximou-se do número de três mil inscritos, conseqüentemente inúmeras pesquisas, de diferentes níveis, foram explicitadas. Embora esta quantidade seja favorável para um movimento de (re)renovação na geografia, a qualidade que estaria presa não a uma unidade positivista da ciência mas sim a uma pluralidade que posicionassem os geógrafos pesquisadores em prol das transformações da teoria e da prática desta ciência parece não ter ocorrido. Tudo ocorreu ou voltou a ocorrer de forma atomística e sistêmica, sem interar ou integrar. O ponta pé para a construção de uma nova Geografia não foi dado, ou foi? 

Talvez sim, já que as conferências de abertura e de encerramento, acontecimento por natureza integrador dos participantes, apresentou indiretamente propostas para novos rumos da ciência geográfica. A abertura proferida pelo Prof. Ariovaldo Umbelino de Oliveira da Universidade de São Paulo apontou para uma Geografia que deve ser engajada epistemologicamente, política, diante da realidade em que vivemos, e propositiva para a transformação. Sua fala certamente foi indigesta para todos, mostrou como, particularmente, o Brasil e, em geral, a nossa América Latina estão mergulhados numa triste crise muito distante de uma feliz revolução. Miséria



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generalizada diante de um vandalismo político dos comandantes do(s) Estado(s) e uma constante e intensa depredação de todos os níveis da vida latino americana levada a cabo pelos invisíveis transnacionais investidores financeiros, exige que a ciência produza soluções à este cenário. Foi este o pedido do Prof. Ariovaldo. O encerramento proferido pelo Prof. Horácio Capel da Universidade de Barcelona (Espanha) propôs uma outra Geografia, antítese direta à proposta da abertura, o engajamento foi banido e a ciência humana com uma função quase que contemplativa nos fez lembrar da geografia inteiramente descritiva. Cabe aos geógrafos presentes tomar partido diante das propostas oferecidas.

Talvez não, pois os trabalhos apresentados no Encontro pareceram estar imersos numa interdisciplinaridade tosca, formal, sem rumos definidos e carregados de uma imprecisão teórica barrando o processo de formação de uma nova Geografia na construção do Brasil. O pluralismo metodológico para a interpretação da realidade deve ser exaltado, mas não exacerbado. As amarras do conhecimento deve ter sustentação sólida e não frágeis como a Geografia atual caracterizada por uma mistura de métodos que não se misturam e diante ao “feirão” interdisciplinar.

Ainda sobre os trabalhos apresentados, devemos valorizar um fato que mesmo posto de maneira espontânea e inconsciente pode levar à uma mudança na Geografia: o lugar está cada vez mais sendo estudado. A diferenciação espacial e o embate entre territórios negam a homogeneização imposta pela globalização. A contradição deve retornar como tema fundamental à ciência geográfica. Assim a idéia de futuro destoará da posição amplamente difundida pelos pensadores tecnocratas e apologistas da globalização que o vêem já definido, já posto.

 

A Estrutura

 

Conferências, mesas redondas, comunicações coordenadas, grupos de trabalho, espaços de diálogo, mini-cursos, reuniões e assembléias políticas da Associação Nacional dos Geógrafos e as atrações culturais permitiram um leque de coisas a fazer.

Cremos que os Espaços de Diálogo (Eds), experiência difundida a partir do último Encontro, foi o diferencial, dadas as suas devidas exceções. A velha forma de participação e apresentação deu lugar ao debate. O debate foi privilegiado, agora só falta a obrigação de produzirmos propostas aos problemas pensados e discutidos nestes espaços.  

 

As Novidades

 

As Comunicações Coordenadas tomaram uma nova forma. Não é a organização do Encontro que propõe o acontecimento e sim os pesquisadores interessados em refletir sobre determinados temas que a organiza. O Encontro abre o espaço, os pesquisadores o preenchem.

O CD Rom contendo todas as pesquisas inscritas no Encontro nos possibilita saber mais. Agora não são apenas os pobres resumos publicados nos grossos Anais nossa referência às pesquisas apresentadas. Textos inteiros



VI congresso internacional de geocrítica: o trabalho

 

 

 


foram publicados na forma digital e socializados a todos os participantes.

Ainda referendando à Era Digital, ocorreu o Encontro On Line pela Internet. Teoricamente a idéia de transmitir quase que simultaneamente todos os acontecimentos da reunião permitiria o ausente participar. Algumas informações resumidas foram retransmitidas. É impossível viver virtualmente o Encontro.

O MSC (Movimento dos Sem Crachás) levantado pelos estudantes que não inscritos participaram do Encontro nos convida a pensar sobre a necessidade do pagamento e sobre os preços para a ciência. Mas se não houver pagamento, não há Encontro.

No campo do conhecimento geográfico a Geografia do Turismo apareceu como uma novidade latente. É cada vez maior a quantidade de trabalhos abordando está temática. Será que a oderna temática ambiental está saindo da moda?

A Cidade

 

É um desafio, uma tarefa árdua viver inteiramente o Encontro diante de praias tão lindas como as de João Pessoa. Em meio às comemorações de Nossa Senhora das Neves e do aniversário de morte do paraibano João Pessoa, a cidade também viveu o Encontro. Todos sabiam quem eram as pessoas que perambulavam pela cidade com as bolsinhas tiracolo (contendo o material do evento) distribuídas durante o credenciamento. “A cidade ficou mais agitada”.

Todos foram à praia. Fizeram turismo. Mas o Encontro foi vivido. A maioria participou. Nos isolamos do mundo por 5 dias. Quase ninguém ficou sabendo que o dólar tinha chegado a três reais. A Geografia esteve presente.