GEOUSP – Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 12, p. , 2002

 

 

 

 

 

Iv Colóquio internacional de geocrítica: o Trabalho

 

Paulo Roberto Rodrigues Soares*

Vanda Ueda*

 

 


Entre os dias 27 e 30 de maio de 2002, na cidade de Barcelona (Espanha), foi realizado o IV colóquio Internacional de Geocrítica, tendo como tema central de discussão “o trabalho”.

O IV Colóquio Internacional de Geocrítica objetivou discutir o trabalho em todas as suas imensões, partindo de enfoques da geografia e das ciências sociais. No atual contexto de revolução tecnológica, de flexibilização das relações de trabalho e face as teorias que preconizam “o fim do trabalho”, o tema central do Colóquio foi de especial relevância para o debate contemporâneo das ciências sociais. 

O mundo do trabalho, base da sociedade industrial emergida com a modernidade, sofre na atualidade uma série de câmbios organizacionais que afetam até mesmo a subjetividade do trabalhador como sujeito ativo e criativo da historia. Neste sentido, o enfoque teórico das comunicações apresentadas e o conteúdo dos debates desenvolvidos durante o colóquio, serviram para reafirmar a centralidade do trabalho na sociedade urbana contemporânea, ao mesmo tempo que apontam para a necessidade de novas políticas de geração de emprego e de proteção social dos trabalhadores e das trabalhadoras.

Entre os temas tratados no Colóquio se incluem: o trabalho em uma perspectiva histórica, trabalho e gênero, trabalho precário e informal, o trabalho no espaço rural, o trabalho na cidade, o trabalho industrial, o trabalho no setor dos serviços, mercado trabalho e desenvolvimento, trabalho e novas tecnologias, sindicalismo e formas de trabalho, a dimensão jurídica do trabalho, políticas de emprego, mercado de trabalho e imigração, trabalho, ócio e turismo e a educação para o trabalho em um mundo de mudanças.

As comunicações apresentadas trataram de aspectos bem diversos, aportando uma grande quantidade de dados e interpretações que estimulam a reflexão sobre a problemática do trabalho. Uma das raízes dos problemas atuais está no fato de que "nunca houve tanta população ativa" e que "nunca o desenvolvimento tecnológico necessitou tão pouca mão-de-obra para a produção". Daí a necessidade de se imaginar novas estruturas sociais, para que o enorme potencial existente se organize de outra forma.

 Quanto às abordagens teóricas do tema "trabalho", foi enfocado que na atualidade o trabalho não é uma "categoria antropológica", nem algo


 

* Doutorandos em Geografia Humana – Universidad de Barcelona – Bolsistas Bex-CAPES

 


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"intrínseco na natureza humana", e sim, que se trata de uma categoria profundamente histórica que na nossa civilização acabou por ser dominada pela "razão produtivista".

 Esta última entrou em crise nas últimas décadas, ao mesmo tempo que a "função social" do trabalho na sociedade. De uma razão centrada na produção material, que sustentava a idéia de função social do trabalho como provedor de bem-estar, se passou à idéia de aquisição de riquezas como pilar da sociedade centrada no consumo. Consequentemente, o período atual marca o incremento das desigualdades no seio da sociedade capitalista, com o crescente "desemprego estrutural" nas sociedades industriais, ao mesmo tempo que se acentua a hierarquia e a dominação dentro do próprio mundo do trabalho, ao promover e privilegiar constantemente as tarefas vinculadas à aquisição da riqueza antes que as de produção material da mesma.

 Como perspectivas de futuro, foram apontados dois cenários: (1) o aumento conjunto do desemprego, do trabalho compulsivo, da competitividade, da insolidariedade e da segmentação social; e (2) uma redução consciente do domínio da produção mercantil e do trabalho assalariado em favor de atividades mais livres, criativas e cooperativas, combinada com a redução das desigualdades na remuneração do trabalho.

Também foi apontada a questão da "geografia dos lugares de trabalho e de consumo", considerando as variações, no tempo e no lugar no qual os homens e mulheres trabalham e o lugar onde o produto de seu trabalho é consumido. Nas sociedades primitivas, ambas localizações se sobrepunham; com  o passar do tempo, estas localizações foram se deferenciando e se alejando, organizando-se uma sociedade crescentemente complexa. Hoje em dia, o avanço das tecnologias da informação e da comunicação coloca em crise estas tendências, perfilando-se a possibilidade de novas coincidências entre o lugar de trabalho e o lugar de consumo, o que leva a vislumbrar consequências importantes sobre a geografia do futuro.

Na mesma direção, se assinalou que a consideração do trabalho como emprego abre caminho para o tratamento do trabalho como mercadoria e sua análise como uma relação social da qual derivam sua regulação, sua especialização, suas relações de poder e os conflitos entre empresários e assalariados, além de suas implicações territoriais. Da mesma forma, se constata que na sociedade capitalista o trabalho como valor de uso deriva ao trabalho como um valor de troca através do processo de "externalização" das atividades classicamente executadas no âmbito familiar.

Entre outras contribuições destacamos a reinvidicação para que os geógrafos se engajem na construção de uma "Geografia do Trabalho", afirmando que tal geografia debe chamar para si a tarefa de apreender o mundo do trabalho através do espaço geográfico, entendido como uma das características do fenômeno, e da rede de relações entre as categorias teóricas e escalares, ou

seja, entre a paisagem, o território e o lugar de existência dos fenômenos, em um movimento complexo de múltiplas determinações.

A direção geral do Colóquio esteve a cargo dos professores Horacio Capel e Joan-Eugeni Sánchez, do Departamento de Geografia Humana da Universidade de



VI congresso internacional de geocrítica: o trabalho

 

 

 


Barcelona. Foram apresentadas 160 comunicações de pesquisadores representando 65 universidades de dez países distintos; a grande maioria apresentadas por pesquisadores espanhóis e brasileiros, além da participação de argentinos, mexicanos, italianos, uruguaios, portugueses, colombianos, venezuelanos e russos.

Os coloquios internacionais de Geocrítica reunem todos os anos na cidade de Barcelona professores universitários, pesquisadores e estudantes de pós-graduação oriundos da geografia e de outras disciplinas sociais que atendem à chamada realizada através do sítio web de Geocrítica

(www.ub.es/geocrit), e apresentam e discutem suas comunicações de forma interdisciplinar e sempre relacionadas a um tema comum.

Coordenado pelo Dr. Horacio Capel (catedrático de geografia humana da Universidade de Barcelona), o sítio de Geocrítica alberga revistas digitais (Scripta Nova, Biblio 3W, Aracne, Scripta Vetera, Geo Crítica) reconhecidas internacionalmente como publicações de qualidade no campo da geografia e das ciências sociais. As comunicações apresentadas nos colóquios Geocrítica, depois de serem avaliadas por consultores externos, são publicadas em números especiais da revista Scripta Nova (geralmente publicados no dia 1º de agosto de cada ano).  

A participação dos geógrafos brasileiros é bastante destacada nos eventos científicos patrocinados por Geocrítica, tanto de acadêmicos vinculados ao programa de doutorado do Departamento de Geografia Humana da Universidade de Barcelona, como por professores que se deslocam à Barcelona especialmente para participar do evento.

O primeiro Colóquio Internacional de Geocrítica (1999) teve como tema “A América ibérica frente aos desafios do século XXI”; foram apresentadas 53 comunicações de pesquisadores europeus (espanhóis, franceses e italianos) e americanos (principalmente latino-americanos que estavam realizando seus doutorados em universidades européias). O II Colóquio Internacional de Geocrítica (2000) foi dedicado ao tema “Inovação, desenvolvimento e meio local” e contou com a participação de 90 pesquisadores. 

O III Colóquio Internacional de Geocrítica (2001) foi dedicado ao tema da “Imigração e mudança social”. Neste colóquio foram apresentadas mais de 100 comunicações de acadêmicos e pesquisadores de Europa, América Latina, América del Norte, África e Ásia, além de diversos estudantes, professores e profissionais que assistiram ao colóquio. Sem dúvida um evento cuja dimensão geográfica rompeu fronteiras revelando as possibilidades abertas pelas novas tecnologias da informação, já que todo o processo de chamada e divulgação das comunicações se realizou através da Internet. Igualmente é louvável, nestes tempos de sobre-valorização acadêmica de uma língua específica, o uso das facilidades de comunicação de nossos idiomas latinos, que possibilitam a constituição de uma numerosa comunidade científica transcontinental.

Neste quarto colóquio foi outorgado o I Prêmio Internacional Geocrítica ao acadêmico mexicano Elias Trabulse, um químico de formação e doutor em história que possui uma vasta obra sobre a história da ciência na América Latina, com especial dedicação à história da Geografía e da Cartografía no México. Os



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idealizadores do Prêmio Geocrítica pretendem que o mesmo se converta em uma distinção de prestígio e uma referência para o mundo científico ibérico e latino-americano.

Nas conclusões do Colóquio foram propostos os temas para os V e VI colóquios internacionais de Geocrítica, que seram “a habitação e o espaço social das cidades” (2003) e “as novas tecnologias da informação e da comunicação” (2004). O próximo encontro já está agendado para a última semana de maio de 2003. Até Barcelona!