GEOUSP – Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 12, p. , 2002

 

 

 

 

 

aspectos DA PROBLEMÁTICA AMBIENTAL URBANA DA CIDADE DE CURITIBA/PR E O MITO DA “CAPITAL ECOLÓGICA”.

 

 

Francisco Mendonça *

 

 


 

Resumo:

A imagem de “Capital Ecológica” da cidade de Curitiba consolidou-se na década de noventa como fruto de um acirrado processo de citymarketing promovido pela administração municipal. A análise de aspectos relativos à qualidade da água, do ar, das áreas verdes e dos resíduos sólidos, aqui enfocados na perspectiva do ambiente urbano, revelaram condições conflitantes ao ambiente ecologicamente correto. O estudo evidencia a incompatibilidade entre o título de “Capital Ecológica” e as condições sócio-ambientais da cidade de Curitiba.

 

Palavras chaves:

 

Resumo:

The “Ecological Capital” image of Curitiba was created on the ninety’s by the municipality administration in a evident citymarketing process. The analysis of aspects likes the quality of water, air, green areas and solid residues, here approached in a perspective of urban environment, was shown problematic conditions in view of a corrected ecologic environment. This study  analysis the incompatibility between the “Ecological Capital” title and the socio-environmental conditions of Curitiba city.

 

Palavras chaves:

 

 


Introdução.

 


A fase mais contemporânea da modernidade caracteriza-se por uma intensa complexidade das relações sociais e destas com a natureza. A relação conflituosa estabelecida entre a sociedade e o meio natural gerou consideráveis problemas sócio-ambientais nos últimos duzentos anos e que se agravaram quanto mais o modo de produção hegemônico no mundo ocidental se desenvolveu.




·          * Francisco Mendonça é Doutor em Geografia e Professor Titular do Departamento de Geografia e do Programa Interdisciplinar em Meio Ambiente e Desenvolvimento – UFPR.

·          e-mail:chico@ufpr.br

 


A degradação das condições de vida humana e da natureza no final do último século se intensificaram de tal maneira que a sociedade (pós)moderna (?) elegeu, de maneira muitas vezes obsessiva, a busca pelo ambiente saudável como uma necessidade básica de sua existência. Neste contexto, as áreas que ainda apresentam boa cobertura de vegetação natural, rios e ar limpos são consideradas ecologicamente saudáveis e são altamente disputadas pelos diferentes grupos sociais, seja para usufruto, para transformação em mercadoria do turismo, ou mesmo objeto de defesa da luta de movimentos ambientalistas. No âmbito da cidade os atributos do ambiente natural, ou pouco alterados, que ainda ali restam são, muitas vezes, utilizados como estratégia para o desenvolvimento do citymarketing, ou da promoção urbana, como muito bem o apontou Garcia (1997) ao analisar a criação e difusão mediática das imagens curitibanas como fator de atratividade de investimentos e populacional. A questão ambiental não se coloca, como se percebe, isolada de um contexto mais geral e complexo. Por sua natureza interdisciplinar e interinstitucional ela demanda uma postura aberta e integrativa de administrações municipais e de diferentes áreas do conhecimento associadas à toda a sociedade organizada. Para tanto, e sobretudo após os resultados da II Conferência Mundial para o Meio Ambiente – Rio/ECO 92, é preciso tratar não mais somente do meio ambiente mas sim das questões sócio-ambientais.

A cidade de Curitiba1 foi projetada, nacional e internacionalmente na última década, como sendo a “Capital Brasileira de Primeiro Mundo” e “Cidade Modelo” – manifestação de sua condição de cidade resultante da eficácia do planejamento urbano. No mesmo período, e também resultante deste processo, ainda atribuíram-lhe o título de “Capital Ecológica”.

Todavia, as características da urbanização curitibana, devido sobretudo ao contexto histórico-geográfico em que ela se processou, revelam aspectos marcadamente contraditórios face à estas perspectivas imagéticas. Mesmo se algumas partes da cidade expressam características de espaços organizados na perspectiva do planejamento urbano, grande parte está aquém desta condição; vários aspectos do ambiente urbano o atestam de forma evidente, como se verá a seguir.

 

1–A problemática dos recursos hídricos no âmbito urbano-metropolitano de Curitiba.

 

Os rios da RMC – Região Metropolitana de Curitiba estão, em boa parte, muito degradados e poluídos. A revista do CREA/PR (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia, regional Paraná), por exemplo, traz em seu numero 10 (2000, pg. 21), várias reportagens relativas à qualidade das águas de Curitiba e Região Metropolitana de Curitiba, por ocasião do acidente do derramamento de óleo da Petrobrás no rio Iguaçu em julho/2000. Uma das reportagens afirma

 “(...) A gravidade é tanta que há muito tempo os ecologistas (e também o governo) sabem que o Barigui e o Iguaçu, nos limites da Região Metropolitana, estão praticamente mortos, tal é a carga de resíduos industriais e lixo orgânico carreada diariamente, sem que os órgãos públicos competentes se pronunciem. (...)”.

 

Aqueles que cortam a área urbanizada do município sede da região metropolitana são os que apresentam os mais elevados índices de degradação, classificados como possuindo qualidade de regular a ruim segundo o IQA (Índice de Qualidade das Águas)2, parâmetro utilizado internacionalmente para aferir a qualidade das águas dos cursos hídricos.

A degradação dos rios que se observa na área urbana de Curitiba e municípios limítrofes esta relacionada principalmente ao esgotamento sanitário, sobretudo o doméstico, sendo que o industrial também é um considerável contribuinte para a queda da qualidade das águas do município. Dados oficiais (tabela 1) resultantes de análises nos últimos anos revelam que os rios Bacacheri, Belém, Padilha, Barigui, Atuba e Iguaçu, aqueles que cortam a área mais urbanizada da cidade, apresentam a qualidade de suas águas como sendo de razoável a ruim, portanto altamente comprometidas.

Quando se analisa os dados apresentados na tabela 1, particularmente a temporalidade de alguns dos parâmetros aferidos, por exemplo o período que vai de 1987 a 1993 ou 1994, e se identifica que a criação do slogan “Curitiba Capital Ecológica”3 se dá paralela e concomitantemente à constatação da alta poluição dos rios (caracterizados como de qualidade ruim e pertencentes à classe 4/Resolução n. 20 do CONAMA), evidencia-se a não correspondência entre a imagem e a realidade.A elevada degradação dos cursos hídricos de uma cidade revela uma insuficiente e ineficaz política de saneamento ambiental urbano, característica dos países não desenvolvidos ou em estagio de desenvolvimento complexo, nos quais o descaso dos governantes para com a qualidade de vida da população se manifesta, dentre outros, na parcial e insatisfatória cobertura da rede de água tratada e de esgotamento sanitário. Nestes países se observa, principalmente, uma maior atenção do poder publico ao sucesso econômico e uma considerável desatenção aos aspectos da promoção social – das condições e qualidade de vida da população.

Na cidade de Curitiba, embora cerca de 90% da população tenham acesso à água tratada, somente cerca de 60% dos domicílios são servidos pela rede de esgotamento sanitário. Há, portanto, uma expressiva parte da população (cerca de 40%, ou 700.000 pessoas) que lança seus esgotos em fossas, na rede de águas pluviais através de ligações clandestinas ou mesmo diretamente nos cursos hídricos; toda esta ação resulta em degradação da qualidade das águas dos rios e da água subterrânea, e compromete seriamente a qualidade de vida da população.


 


Tabela 1.

IQA (índice de qualidade das águas) dos principais cursos hídricos de Curitiba – 1987/1998.

 

CURSO HÍDRICO

PONTO COLETA AMOSTRAS

LEVANT.

DADOS

IQA

LEVANT.

DADOS

IQA

ATUBA

Terminal A. Camargo

1993-95

Ruim*

1996-98

Ruim*

Jusante Cor. Monjolo

1993-94

Razoável

1996-98

Razoável

 

IGUAÇU

Ponte BR-277

1987-94

Razoável*

1996-98

Razoável*

Araucária

1987-94

Ruim*

- - - - -

- - - - -

ETE SANEPAR

1987-94

Ruim*

1996-98

Ruim*

 

 

BARIGUI

Boichininga

1993-94

Boa

1996-98

Boa

Av. Manoel Ribas

1993-94

Razoável

1996-98

Razoável

Conectora 5 (Semin.)

1987-94

Razoável*

1996-98

Razoável*

Av. João Bettega

1993-94

Ruim

1996-98

Ruim

Ponte da Caximba

1987-95

Ruim*

1996-98

Ruim*

 

BELÉM

Prado Velho

1987-94

Ruim*

1996-98

Ruim

Rodolfo Bernardelli

1987-95

Ruim

1996-98

Ruim

Mont. Pq. S. Lourenço

1993-94

Ruim

1996-98

Ruim

BACACHERI

Parque Bacacheri

1993-94

Ruim

1996-98

Ruim*

Jusante BR-116

1993-94

Ruim

1996-98

Ruim

Á. VERDE

Foz

1993-94

Ruim

- - - - -

- - - -

V. PAROLIM

Foz

1993-94

Ruim

- - - - -

- - - -

IVO

Foz

1993-94

Ruim

- - - - -

- - - -

V. FANY

Foz

1993-94

Ruim

- - - - -

- - - -

PADILHA

Jardim Paranaense

1993-94

Ruim

- - - -

- - - -

* IQA predominante, podendo haver outros no período.

Fonte: SUDERHSA, 1997 e dados fornecidos em 2000


.



Como reflexo de sua condição de cidade localizada num país não desenvolvido, a distribuição espacial da rede de água tratada e de esgotamento sanitário revelam, de forma clara, a exclusão social e a concentração dos privilégios sociais numa determinada parcela da população. É exatamente na área da periferia urbana de Curitiba, além de alguns locais pericentrais de concentração da subhabitação nesta cidade, que se registram a escassez dos referidos recursos e equipamentos urbanos. É também a população destas áreas, sobretudo crianças, aquela que registra os mais elevados índices de doenças relacionadas à insalubridade do ambiente decorrente da falta ou insuficiência de saneamento básico.

Todavia, o aspecto mais paradoxal de toda esta realidade é que a água utilizada para abastecimento da população curitibana é captada exatamente nos mananciais de superfície, cuja qualidade encontra-se, como se viu, bastante degradada. É sobre estas áreas de mananciais que a urbanização-industrialização, em boa parte decorrente do processo de periferização de Curitiba sobre as cidades aglomeradas do seu entorno, demanda as mais desafiadoras ações de planejamento visando a garantia da qualidade e condições de vida da população. É exatamente ali que a ação estatal é débil ou inexistente.

 

2-Alguns aspectos da qualidade do Ar4.

 

Embora seja internacionalmente conhecida como sendo uma cidade que teria alcançado êxito no que diz respeito ao equacionamento dos problemas relativos ao meio ambiente, Curitiba apresenta graves problemas ligados à degradação da água, como visto acima, e do ar. Neste segundo aspecto o comprometimento de sua qualidade se dá principalmente devido à industria, concentrada na porção sudoeste da cidade mas em franco processo de re-locação5, ao transporte urbano na área central e às atividades ligadas à mineração na porção norte, isto quando considerado somente o interior da área urbana.

Dados relativos ao período 1996-1997, pôr exemplo (tabela 2), evidenciam que no período do ano mais propicio à concentração de poluentes atmosféricos na cidade de Curitiba, entre junho e setembro - e com maior destaque no mês de agosto, os índices relativos à concentração de partículas sólidas no ar apresentaram-se bastante acima dos valores máximos estabelecidos por lei6. Confrontados com os parâmetros estabelecidos pelo CONAMA (Resolução 5/89), os poucos exemplos ilustrativos da tabela 2 evidenciam condições de poluição do ar, em que a população da cidade encontrava-se em situações de forte risco ao desenvolvimento de patologias dela decorrentes.



Tabela 2

Material particulado (pó) em suspensão na atmosfera urbana de Curitiba/PR (Alguns exemplos)

 

Ano

Dia/mês

Quantidade

 

1996

06 – Agosto

205  mm/m3

22 – Agosto

192 mm/m3

27 – Agosto

189 mm/m3

 

1997

11 – Agosto

280 mm/m3

19 – Agosto

234 mm/m3

28 – Agosto

249 mm/m3

01 – Setembro

251 mm/m3

Fonte: IAP – Instituto Ambiental do Paraná (in: DANNI-OLIVEIRA, 2000)7.

Ponto de levantamento de dados: Estação manual de medição do IAP localizada no centro de Curitiba (Praça Rui Barbosa – Hospital Santa Casa).



A área central da cidade é aquela que apresenta os índices mais elevados decorrentes da circulação urbana de veículos automotores, notadamente o transporte coletivo de passageiros que emprega combustível poluente na frota. Segundo Danni-Oliveira (2000, pg.189)8, ao concluir pesquisa relativa à correlação entre o clima e a poluição do ar em Curitiba,

 

 “(...) as áreas onde o fluxo de veículo se mostrou mais intenso, houve maior concentração de material particulado e de dióxido de nitrogênio (...)”,

 

destacando-se, conforme seu estudo, os bairros Água Verde e as imediações da rodoferroviária.

Mesmo possuindo um sistema de transporte urbano reputado como eficiente e de boa qualidade, há que se assinalar que este fato não corresponde à toda a realidade do transporte na cidade e na região metropolitana. A rede do ônibus ligeirinho e dos expressos, aqueles utilizados para exemplificar o sucesso curitibano, cobrem somente parte da cidade, sendo que o restante é realizado em linhas de ônibus bairro-centro-bairro com uma considerável concentração de terminais na área central. São estes terminais que recebem tanto os veículos da própria cidade quanto aqueles provenientes da aglomeração metropolitana.

É devido a uma tal concentração que os registros do IAP (Instituto Ambiental do Paraná) expressam os maiores teores de poluentes no ar no centro da cidade, especialmente nos meses de inverno, dado que o principal combustível utilizado na frota de ônibus gera considerável poluição atmosférica.

 

3-Áreas verdes na “Capital Ecológica”.

 

Um dos pontos mais enfáticos na construção da imagem de Curitiba “Capital Ecológica” diz respeito à relação área verde por habitante.

Dados oficiais da administração da cidade tem apresentado que Curitiba possui um dos mais elevados índices (cerca de 53 m2/hab de área verde) que são, todavia, questionáveis, já que os cálculos elaborados pela municipalidade não deixam claro quais foram os critérios utilizados para a seleção das áreas verdes, ou seja, qual o conceito de áreas verdes utilizado para se chegar aos aludidos resultados. Cálculos elaborados por outras instituições e por pós-graduandos da Universidade Federal do Paraná (Hardt, 1994; Vanin, 2001), utilizando vários critérios, apontam para a existência de um índice de área verde/habitante inferior ao apresentado pelo poder municipal.

Mas, independentemente da tentativa de tornar ótima a cidade a partir da criação de uma imagem que não corresponde fielmente à cidade real, a distribuição das áreas verdes na cidade de Curitiba, sobretudo os parques de uso público, é fortemente excludente. A quase totalidade dos parques públicos urbanos, bem equipados para o lazer e a pratica de esportes e de fácil acessibilidade aos citadinos está concentrada na porção norte da cidade, exatamente na área onde também se concentra a classe média e alta da sociedade curitibana, como se pode perceber em vários documentos cartográficos que registram a distribuição dos parques urbanos curitibanos.

A porção centro-sul da cidade de Curitiba encontra-se desassistida no concerne à uma política de parques urbanos municipais. É esta a área que se encontra mais carente de parques com equipamentos de lazer gratuito pois é, paradoxalmente, também nela que se concentra grande parte da população de mais baixa renda do município.

Como conseqüência do processo de urbanização seletivo que se processou nestas áreas periurbanas da porção centro-sul do município de Curitiba, deixando-as desassistidas quando à implantação de parques urbanos, observa-se que nelas os processos de inundações urbanas são os mais impactantes9, gerando centenas de vitimados a cada ano. É também nestas áreas que são registrados os mais elevados índices de criminalidade urbana nas últimas décadas, falta, dentre outros, da oferta do lazer gratuito e acessível às populações carentes do município; neste aspecto, as áreas verdes urbanas de lazer e esporte em muito contribuiriam para solucionar problemas relativos à violência na cidade10.

 

4–Resíduos sólidos.11

 

Os resíduos sólidos urbanos constituem, conforme Rodrigues (1998), um dos mais graves problemas ambientais da humanidade na era contemporânea, fruto direto do exacerbado consumismo que caracteriza a sociedade  moderna e contemporânea

Curitiba, mesmo tendo aparentemente solucionado o problema do lixo, apresenta consideráveis desafios para solucionar o elevado montante de resíduos sólidos que são diariamente produzidos pelas residências, industrias, comércio, hospitais e serviços em geral. O Programa “Lixo que não é lixo”, um dos elementos basilares para a consolidação da idéia da “Capital Ecológica”, é ineficiente e um dos mais caros do país pois não atende às demandas sociais e onera o poder púbico.

O sistema atual de coleta e destinamento final dos resíduos sólidos urbanos encontra-se em franco esgotamento de suas capacidades e a prefeitura local e a região metropolitana ainda vivenciam enormes conflitos para o equacionamento da problemática.

Um dos mais expressivos reflexos desta problemática – dos resíduos sólidos – é a formação de um contingente de pessoas vivendo em condições miseráveis de vida, verdadeiros excluídos do processo de vida cidadã. Cerca de três mil catadores de lixo sobrevivem desumanamente recolhendo lixo na porção mais central da cidade (Davanso 2001; Amaral, 2001).

 

Breves notas conclusivas.

 

Assim tomados, de forma genérica e introdutória, os elementos e argumentos acima apresentados permitem observar que os slogans e imagens que atribuem à Curitiba uma condição de cidade modelo a ser copiada não podem ser concebidos como verdadeiros, que não correspondem à realidade. O que se constata são ações decorrentes de intencionalidades do poder político local e regional, principalmente de grupos que se mantém no poder nos últimos quarenta anos, voltadas à criação de uma cidade “imagética” que, uma vez colocada como produto no mercado competitivo, realiza uma expressiva atratividade econômica e populacional.

Os dados acima apresentados, sobretudo de caráter ilustrativo do discurso aqui desenvolvido, e a observação realizada nos últimos anos sobre o ambiente urbano de Curitiba permitem constatar que ela não poderia ser concebiba como uma “Capital Ecológica” ou “Capital Social”, pois que não reúne condições necessárias para que lhe seja atribuída titulação tão importante. É bem verdade que ela apresenta condições ambientais bem melhores que a maioria das grandes cidades brasileiras e dos países em estágio de desenvolvimento complexo como o Brasil mas, há que se notar, a degradação ambiental de tais cidades é verdadeiramente alarmante. Encontrar-se melhor que elas não significa, absolutamente, estar em boas condições ambientais como se viu para o caso de Curitiba.

O ato de nominar “Curitiba Capital Ecológica” é, de maneira geral, um ato insensato e preocupante, pois corre-se o risco de tomá-la como exemplo. Imagine-se que alguma outra administração municipal tome os índices da qualidade da água e do ar, da distribuição das áreas verdes e do destinamento final e tratamento dos resíduos sólidos registrados nesta cidade, alguns deles apresentados no presente texto, como parâmetros considerados corretos!

Causas e soluções dos problemas ambientais urbanos estão a demandar de todos enorme esforço na perspectiva da promoção da vida na cidade com qualidade e dignidade, principalmente quando a população mundial configura-se como majoritariamente urbana ou urbanizada como no presente12. A especulação da terra urbana e o modo de vida da sociedade moderna, nas condições capitalistas de produção do espaço, estão na raiz dos aludidos problemas, sendo necessário equacioná-los como primeira etapa para a solução dos problemas sócio-ambientais urbanos. Do ponto de vista ambiental, sobretudo dos elementos atinentes ao sitio da cidade, os desafios parecem apontar para a necessária revisão do recorte e administração do território gerados pelo estabelecimento do estado nacional burguês.

O momento atual da modernidade tem apontado, paulatinamente, para o esgotamento e debilidade do recorte do suporte físico-natural do território representado pelos estados nacionais, pois os elementos da natureza (ar, água, solo, relevo e vegetação) não estão circunscritos à tais unidades administrativas do espaço. A gestão diferenciada destes elementos e recursos resulta, diretamente, em degradação e conflitos como os que se vive no presente.

No que concerne à Curitiba, pode-se observar que uma das principais causas da degradação da natureza e dos recursos naturais locais é a gestão estanque do território. A não integração de objetivos, planos e ação de gestão entre a cidade pólo e os demais municípios da região metropolitana resultou em inúmeros problemas ambientais, que tendem ao agravamento quanto mais separadas e desintegradas estiverem as ações dos governos municipais.


Aspectos da problemática ambiental urbana da cidade de Curitiba.e o mito da “cidade ecológica”

 

 


 

Notas



1 A cidade de Curitiba localiza-se na porção sul-oriental do Brasil e possui uma população aproximada de cerca de 1.500.000 habitantes, sendo que a Região Metropolitana de Curitiba aglutina 25 municípios e comporta uma população de cerca de 2.500.000 habitantes (conforme Censo IBGE, 1996).

2 IQA – Índice de Qualidade das Águas, desenvolvido pela Natonal Sanitation Foundation (USA) e que consiste numa espécie de nota atribuída à qualidade da água (podendo variar entre zero e cem ) no qual os nove parâmetros envolvidos são: oxigênio dissolvido (OD), demanda bioquímica de oxigênio (DBO), coliformes fecais (CF), temperatura (T), pH, nitrogênio total (NT), fósforo total (P), sólidos totais e turbidez. Correlacionando-se os valores de IQA com a Resolução n.20 do CONAMA tem-se que: Valores na faixa de 80 a 100 (Ótima) corresponde à Classe 1, entre 52 a 79 às Classes 2 e 3 (Boa), entre 37 a 51 à Classe 4 (Razoável) e entre 0 a 36 (Ruim) quando excedem os limites da Classe 4 (SUDERHSA, 1997).

3 Conforme documento do IPPUC (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), Curitiba teria criado uma Escola de Planejamento Ecológico resultante da boa qualidade ambiental da cidade baseada na relaçao área verde/habitante associada ao transporte urbano eficaz. IPPUC – INSTITUTO DE PESQUISA E PLANEJAMENTO URBANO DE CURITIBA. Memória da Curitiba urbana. Curitiba, n.8, 1992.

4 Para a elaboração da analise relativa à qualidade do ar da cidade de Curitiba utilizou-se principalmente do trabalho de DANNI-OLIVEIRA, I. M. A cidade de Curitiba/Pr e a poluição do ar – Implicações de seus atributos urbanos e geoecológicos na dispersão de poluentes em período de inverno. São Paulo: USP, 2000 (Tese de doutoramento).

5 Na década de 1970 foi criada a CIC – Cidade Industrial de Curitiba – na porção sudoeste do município, por ocasião da implantação da RMC – Região Metropolitana de Curitiba, cujo processo de ocupação do espaço por pequenas, médias e grandes empresas deu-se principalmente em finais daquela década e na seguinte. Em meados da década de 1990 observa-se um deslocamento da industrialização daquela área para as porções oeste (município de Campo Largo) e sobretudo leste (conurbação entre os municípios de Curitiba, São José dos Pinhais, Pinhais e Piraquara), levando alguns analistas a expecularem a passagem do processo de industrialização curitibano de uma matriz fordista para uma matriz  keynesiana).

6 Para Material Particulado (PTS – Partículas Totais em Suspensão) o padrão primário é de uma concentração de 240 mm/m3 e de 150 mm/m3 o secundário, no Brasil conforme Portaria Minter 235/76 (Padrões de Qualidade do Ar) e Resolução CONAMA 5/89 (Avaliação e fixação dos limites de concentração que assegurem a saúde e o bem estar das pessoas).

7 Danni-Oliveira (Op Cit).

8 Danni-Oliveira (Op Cit).

9 A respeito da analise da construção dos parques urbanos e sua interação com medidas higienistas, de saneamento básico e de contenção de inundações na cidade de Curitiba, muito antes da criação de imagens ecológicas sobre os mesmos e apropriadas para a promoção do citymarketing, ver o interessante texto de Oliveira (1996).

10 Os três bairros mais violentos em Curitiba são a CIC (Cidade Industrial de Curitiba), o Cajuru e o Boqueirão, vindo em seguida o Centro da cidade. Mendonça, em recente, correlacionou a temperatura do ar à incidência da criminalidade urbana e concluiu, ao observar a relação existente em os maiores índices de violência e os bairros mais pobres da cidade de Curitiba, pela necessidade de se introduzir parques urbanos nesta porção da cidade como medida de promover o lazer e o esporte na perspectiva da contenção da violência urbana. Ver Mendonça. (2001).

11 Sobre a problemática dos resíduos sólidos urbanos em Curitiba ver também um interessante estudo elaborado pelos estudantes do curso de Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento da UFPR sobre a realidade dos “carrinheiros”  (Darolt et al., 1999), além da tese de Davanso (2001) e de alguns trabalhos de conclusão de cursos de graduação em geografia da UFPR (ver, por exemplo, Ramos, 1985).

12 Neste texto não foram abordados aspectos atinentes às condições de vida (dinâmica social) na cidade de Curitiba, uma das dimensões da discussão do ambiente urbano da cidade. Estes aspectos também evidenciam a irrealidade do slogan de “capital ecológica” e “capital social” imputado à Curitiba pela administração local pois, a título de exemplificação, "existem na cidade 262 "ocupações irregulares", que na linguagem comum são conhecidas como favelas. Aproximadamente 54 mil famílias vivem nessas condições, num total de 200 mil habitantes. Somente nos últimos oito anos, 26 novas favelas surgiram na cidade, somando-se ao número anterior cerca de 20 mil famílias, ou aproximadamente 80 mil novos favelados. (...) Entre os estados da região Sul, o Paraná ficou com o primeiro lugar (...)" no número de favelados. "(...) Entre as capitais, Curitiba ocupa a Quinta posição, tendo apenas menos favelas do que São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza e Guarulhos (...)". (Linarth, 2001, pg. 11).


XX - GEOUSP – Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 12, p. , 2002                                                                                  Mendonça, F.

 

 

 

 

 


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