GEOUSP _ Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 11, pp.35-50, 2002

Refletindo sobre o papel das representações nas territorialidades urbanas: o exemplo da área

central do Recife
Heleniza Ávila Campos*

Resumo:

Este artigo procura ressaltar a importância do estudo das territorialidades urbanas como fonte de informações significativas para o entendimento das dinâmicas sócio-espaciais das cidades contemporâneas, inclusive possibilitando diagnósticos alternativos a respeito de intervenções urbanísticas. Parte-se do suposto que a investigação acerca das representações dessas territorialidades pelos diversos grupos sociais revela as principais matrizes das contínuas reelaborações dos territórios. Considerando as dimensões tempo e espaço, essa assertiva assume maior consistência quando da análise das áreas centrais de cidades com densidade histórico-cultural. Alguns aportes teóricos que compõem a primeira parte deste artigo foram, no plano empírico, reabastecidos por reflexões que se materializaram em pesquisa sobre a cidade do Recife e sua área central.

Palavras-chave:

Territorialidades urbanas, representações sociais, área central, consumo, revitalização.

Abstract:

This paper try to focus the importance of urban territorialities as significant sources of information about social and spatial dynamics in contemporary Brazilian cities, as well as alternative indication to many sorts of diagnosis about urban intervention. In particular, we understand that research about social groups representations can reveal the main source about the continuous re-elaboration of these territories in their day to day practices. This hypothesis becomes more consistent if we consider the historic and cultural relevance of central areas, in different spatial and time dimensions. Theoretical appointments in the first part of this article find good examples in some aspects of Recife's central area (PE).

Key words:

Urban territorialities, social representations, central area, consumption, revitalisation.

*Doutora em Geografia Humana pela UFRJ e, atualmente, Professora do Curso de

Arquitetura e Urbanismo na Universidade de Santa Cruz do Sul _ UNISC (RS)
E-mail: heleniza@dhgeo.unisc.br


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Campos, H.Á.

Introdução

O artigo visa contribuir para a reflexão sobre as significações atribuídas aos espaços urbanos territorializados, tendo como ponto de partida uma construção teórica acerca das representações sociais, referente a um dos enfoques contidos na tese de doutorado recentemente concluída1. O estudo da evolução histórica e o quadro de formação cultural das áreas centrais das metrópoles no Brasil sugerem a trama complexa dos seus territórios e a contínua e espessa dinâmica das suas territorialidades. São marcantes as coexistências culturais e sócio-econômicas que se mesclam no tempo e no espaço.

A riqueza das expressões culturais que se alternam na configuração sócio-espacial das cidades, contraditoriamente, extingue a possibilidade do reconhecimento da hegemonia de traços culturais genuinamente próprios e específicos em si, senão combinados, alternados e articulados. Em outras palavras, tais composições, no rebatimento de suas práticas sobre as cidades os legados culturais e valores atribuídos, vão assumindo dimensões próprias ao longo do tempo, restringindo qualquer tentativa de mensuração ao plano qualitativo da combinação das influências sócio-culturais recíprocas. Só nesse contexto, entende-se as distintas maneiras de apropriação, utilização e significados dos mesmos elementos de um espaço urbano comum.

Por outro lado, essas combinações culturais quando recorrentes definem ou redefinem representações que se cristalizam nos discursos sobre as cidades em diversos momentos ao longo de suas respectivas histórias. É nesse âmbito que se insere este artigo, acenando sobre o aspecto emblemático que essas representações têm na compreensão das cidades e conseqüentemente como incidem, quer contempladas ou não, no êxito das intervenções urbanas preconizadas.

Nesse sentido, optou-se por ilustrar as reflexões com aspectos presentes na área central do Recife e comum a diversas outras realidades brasileiras: a prostituição, os camelôs, os religiosos, por exemplo, tendo cotejadas suas análises segundo registros documentais, literários, bem como, recentemente valorizada pelos Plano de Revitalização.

O trabalho se divide em três partes: a primeira trata de uma breve revisão bibliográfica e apresentação de pontos para reflexão a respeito das representações e das territorialidades; a segunda parte, expõe alguns aspectos relativos a aspectos recorrentes da dimensão ambiental área central do Recife que historicamente têm composto a imagem da cidade; a terceira, apresenta aspectos das influências culturais estrangeiras, reais e imaginárias, que potencializam os distintos discursos sobre a cidade, seja pela população que freqüenta a área central, seja pelo planejamento.

1. Breves comentários sobre territorialidades urbanas e representações sociais

a) Territorialidades urbanas: uma breve revisão bibliográfica

Territorialidade urbana é aqui entendida como conjunto de ações, comportamentos de indivíduos ou grupos que tendem a afetar, influenciar ou controlar pessoas, fenômenos e relações; atividades que estabelecem territórios, tendo como elementos fundamentais as representações sociais (visões de mundo dos diferentes agentes sociais, atribuições de significados e interpretações da realidade) e as práticas espaciais (ações espacialmente localizadas, materialização cotidiana da identificação dos grupos com o espaço às ações do planejamento).

Os territórios no espaço urbano, sobretudo aqueles encontrados no cotidiano de praças e ruas em metrópoles brasileiras, podem variar ao longo do dia ou, ainda, alternar-se com outros tipos de territórios, sendo, por


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tanto, dinâmico e mutável através do tempo. As territorialidades, entre outros aspectos, podem minimizar conflitos, estabelecendo formas de diálogo, limites e regras sócio-espaciais entre os diversos grupos sociais, por meio de seus "campos de força" representativos das relações dos diversos grupos sociais com um determinado espaço _ os quais passam a se constituir em territórios. Essas relações podem ser observadas tanto em seu interior _ na definição da identidade entre membros de grupos sociais _ ou com o seu exterior, em relação a outros territórios _ relações entre grupos _, ou seja, na troca, diferenciação e dominação perante a existência de outros grupos2. Tais comunicações e formas de controle expressam a dinâmica sócio-espacial _ desigual e heterogênea _ do espaço urbano, sobretudo quando são observadas áreas tão complexas, social e culturalmente, como as áreas centrais.

As territorialidades caracterizam-se internamente pela composição de três elementos básicos fundamentais: as formas de expressão de poder, associados a objetivos comuns dos participantes do grupo; a identificação simbólica do território para seus componentes; e os meios de comunicação com o exterior. As formas de expressão de poder dizem respeito ao controle sobre o acesso a áreas específicas, sobre as relações, sobre comportamentos; essas relações de poder podem se dar nos mais diversos níveis, apresentando ou não sinais concretamente estabelecidos no espaço. Portanto, as territorialidades humanas seguem fins específicos, como sobrevivência material, melhores condições de vida, associados ideologicamente, de forma mais ou menos consciente, a contextos sócio-econômicos, políticos e culturais mais amplos3.

As relações sociais dos seres humanos sempre representaram expressões de força e poder para além dos atributos físicos e ambientais, nos quais se estabelecem. A territorialidade é, portanto, a expressão geográfica primária de poder social, por meio da delimitação e

afirmação do poder de determinado grupo sobre o território4, trazendo implícito um forte significado de pertinência do grupo a uma porção de espaço, que muitas vezes se expressa por modos específicos de comportamento. Trata-se de um construto social com um significado específico (subsistência, ideologia política, poder econômico, entre outros) para os membros de cada grupo enquanto uma identidade particular. Ao mesmo tempo, essas relações indivíduo-território servem como forma de comunicação de limites e códigos comportamentais aos indivíduos que não compartilham dos mesmos interesses e expectativas. Ao longo desse trabalho serão discutidas as diversas microterritorialidades do cotidiano comuns às áreas centrais.

A identificação simbólica refere-se aos diferentes significados e valores que o espaço assume para os diversos grupos sociais na busca de identificação; essa relação simbólica está muito diretamente associada às representações sociais, formadoras de uma trama complexa de diferentes significações que vão influenciar, motivar e mesmo justificar atitudes de resistência, defesa, animosidade dos grupos sociais em relação ao meio onde se encontram; do mesmo modo, as representações construídas social e espacialmente podem promover condições de atratividade. As motivações para a definição de territorialidades estão relacionadas com as diferentes formas de relação de grupos sociais com "seu" território (forma de uso; organização; significado que ele pode assumir em diferentes momentos), traduzindo ao mesmo tempo expectativas particulares interiores aos grupos _ prazer, necessidade, contingência, obrigação, ideologia _, como também exteriores a eles _ funcionais, simbólicas, sociais, físico-ambientais, sócio-econômicas.

Quanto às formas de comunicação com o exterior, estas podem ocorrer não apenas no nível do comportamento, mas também por meio de ações correspondentes à materialização no espaço dessas relações abstratas e subjetivas,


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sexualidade" ou os "gêneros" (gender), com ênfase para as formas como se estabelecem as diferenças espaciais das atividades e as manifestações de grupos com práticas sócio-espaciais específicas, como as minorias ou grupos marginalizados na sociedade que se vêem em condições de segregação sócio-espacial (voluntária ou involuntariamente), em razão de comportamentos específicos, como homossexualidade e prostituição (ambas masculina e feminina)5. Ou, ainda, valorizam o papel de mulheres, crianças, ou idosos nos grupos sócio-econômicos mais carentes e também marginalizados, como comerciantes informais, sem-teto6.

Uma forma recente de abordar as territorialidades tem sido por meio do consumo, o qual permite a identificação de comportamentos de grupos e espacializações. O cada vez mais intenso estímulo ao consumo nas cidades contemporâneas tem incentivado a estetização do espaço como forma de expressão de poder, na medida em que o consumidor passa a ser instrumento de ação e desenvolvimento de poderes hegemônicos mais amplos, como as corporações; empresas multinacionais; e mesmo governamentais. Como exemplo, destaca-se o estudo sobre consumo alimentar desenvolvido por BELL e VALENTINE (1997), no qual a análise de práticas associadas à espacialidade da alimentação podem conduzir à reflexão sobre questões mais amplas da sociedade, como nacionalismo, estética e economia, desde aspectos mais locais (hábitos tradicionais) até níveis mais amplos e internacionais (como, por exemplo, os efeitos de redes alimentares internacionais e corporações transnacionais, como a McDonalds, Pizza Hut, entre outras, nas práticas de consumo). Outros autores valorizam particularidades urbanas de um ponto de vista político, envolvendo diferenças étnicas, sócio-econômicas e outros aspectos contrastantes. São, por exemplo, pesquisas ligadas aos problemas raciais e culturais de migrantes, constituindo a segregação de grupos pobres ou a guetização nas áreas centrais de grandes metrópoles, notadamente nos Estados Unidos e países europeus.

constituindo assim em práticas sócio-espaciais. Estas assumem, ao mesmo tempo, um papel de interação, na medida em que une os indivíduos em grupos que possuem motivações comuns; e diferenciação, estabelecendo limites e expressando desigualdades por meio de comportamentos, formas de usar/transformar o espaço. SMITH (1990) lembra que esses grupos são, em sua própria estrutura, heterogêneos.

Os conflitos de interesses e a hegemonia de determinados grupos sociais sobre outros denunciam a complexidade que se traduz nas resistências e transformações, nas novas incorporações das tradições, do novo, da moda. O processo instaurado de revitalização traz consigo muitas inferências sobre a cultura urbana registrada nos espaços tradicionais da cidade: marcas do passado, conteúdos a serem potencializados e a urgência de investigações mais voltadas às especificidades do urbano e das "legendas" históricas descritas nas práticas de territorialidades atuais, de forma a contribuir para uma reflexão crítica a respeito do atual processo de organização social das cidades e subsidiar a gestão dos seus espaços, envolvendo de forma particular diversos grupos sociais da população a partir da recodificação de imagens, símbolos e representações. As reivindicações dos grupos, seja por manifestos expressos seja por práticas comportamentais, constituem-se em um instrumento básico e coexistem com a ocupação espacial. A própria denominação dos territórios já estabelece uma relação de poder sobre determinado espaço.

Os modos como as territorialidades podem ser percebidas não se apresentam apenas fisicamente com a definição de limites concretos. A complexidade da vida urbana, com suas múltiplas temporalidades e territorialidades, tem estimulado a realização de estudos geográficos sobre comportamento e práticas sócio-espaciais, valorizando, direta ou indiretamente, as territorialidades urbanas. No âmbito da produção anglo-saxônica, destacam-se os grupos que abordam as "Geografias do corpo e da


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Os processos de gentrificação _ e temas correlatos, como a "pós-gentrificação" e "des-gentrificação" _ também têm se constituído em um fenômeno rico em nuances _ processo pelo qual classes de baixo poder aquisitivo são transferidas de áreas centrais, geralmente em avançado estado de degradação, para investimento, reabilitação e estabelecimento de novos residentes, de médio e alto poder aquisitivo, como os yuppies7. Embora a gentrificação seja mais recorrente em metrópoles de países desenvolvidos, interessa a esta pesquisa considerar, enquanto processo seletivo e excludente, diretamente associado aos planos de revitalização e regeneração urbana. BEAUREGARD (1990) lembra que, para ocorrer a gentrificação, seguindo a lógica econômica da oferta e da procura, são necessárias, pelo menos, duas pré-condições: primeiro é necessário haver uma oferta de propriedades favoráveis à ocupação dos novos residentes; e, segundo, tem de haver uma demanda de potenciais gentrificadores, estimulados pelas novas facilidades oferecidas em áreas revitalizadas. Nesse sentido, como será visto mais adiante, nas metrópoles brasileiras um processo de exclusão similar ocorre, porém sem a fixação de novos residentes, apenas a transferência de grupos de baixa renda para áreas periféricas da cidade.

A produção científica francesa, de reconhecida tradição nos debates sobre território, tem contribuído pela revisão do conceito, apresentando propostas metodológicas mais adequadas à realidade contemporânea e ressaltando a relevância do tema. A associação com outros conceitos e problemas sociais é recorrente, como forma de melhor interpretar as articulações espaciais dos territórios, valorizando a construção de identidades territoriais particulares.

No Brasil, trabalhos brasileiros recentes que têm valorizado as desigualdades territoriais _ ainda que de forma não declarada _ e as práticas cotidianas podem ser subdivididos, de forma geral, em alguns temas, como as questões étnicas, com ênfase nas manifestações

afro-brasileiras e sua influência na cultura e na organização sócio-espacial das metrópoles brasileiras8. Essas referências contribuem para a reflexão sobre o poder de resistência e de ocupação territorial das cidades pelos diversos grupos sociais não-dominantes, por meio de suas experiências e de seus traços culturais particulares; as questões relativas à condição feminina, voltadas para o papel da mulher na sociedade brasileira9; outro tema diz respeito às territorialidades de práticas ilegais ou socialmente não aceitas, como a prostituição, o jogo do bicho e o tráfico de drogas10; alguns desses temas vêm associados a formas de apropriação de espaços públicos específicas pelos diversos agentes, como ruas e praças11.

Estudos sobre religião e espaço têm revelado territorializações tão complexas e variadas quantas são as distinções culturais e sócio-econômicas das cidades contemporâneas ocidentais. No caso das cidades brasileiras, os sistemas religiosos além de serem importantes agentes estruturadores do espaço urbano, são também instituições com forte poder político e econômico sobre a cidade. Entre os estudos geográficos sobre religião realizados no Brasil, destaca-se a contribuição de MACHADO (1992) à compreensão da relação entre pentecostalismo e territorialidade. Outro tema interessante é o relativo às territorialidades do tráfico de drogas nas metrópoles brasileiras, com destaque para o caso do Rio de Janeiro, discutido por SOUZA (1995), à luz de algumas questões teoricometodológicas que procuram aproximar o observador da complexidade que envolve a organização do tráfico de drogas no Brasil, discute, de um lado, o caráter pulverizado que as favelas assumem e, de outro lado, a relativa autonomia permitida a indivíduos não necessariamente vinculados a essas favelas.

b) Representações sociais e territorialidades

Como foi dito, as representações sociais são fenômenos específicos, relacionados a modos particulares de compreensão e de comu


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Segundo GOTTDIENER (1995) há diferentes níveis de significação interdependentes e complementares que são qualitativamente importantes para a compreensão da relação entre ambiente construído e a representação simbólica no espaço urbano: o espaço produzido, referindo-se à produção de significados associada à construção material e simbólica do espaço e as relações entre as formas construídas aos estímulos para consumo; a concepção de espaço consumido, referindo-se à leitura do espaço ou à imagem do ambiente, cujos alvos são os indivíduos e grupos conhecidos ou não por aquele que consome.

Nas cidades, diferentes representações de diversos grupos ou agentes sociais ocorrem em relação a um mesmo espaço; pontos de vista aparentemente opostos ou contrários retroalimentam-se de forma que geram expectativas em torno de um mesmo espaço, tendo como eixo o espaço-mercadoria. Uma das contribuições inspiradoras à reflexão sobre o conteúdo filosófico da relação entre sociedade moderna e espaço urbano é o trabalho de WALTER BENJAMIN desenvolvido no início do século XX, destacando-se o chamado Projeto Arcadas, que permitiu a identificação de alguns elementos significativos da representação social de Paris e de outras grandes cidades européias naquele momento15, construindo ao final uma grade conceitual sobre a dialética das representações, tendo como elemento de referência a mercadoria (Figura 1).

No conjunto, a categoria "Mercadoria" destaca-se como signo estruturador, agindo como um fetiche no imaginário social, sob a forma de diversos personagens urbanos: o Flâneur, a Prostituta, o Dandy, entre outros, os quais assumem, na seqüência dos eventos históricos, papéis que interligam naturezas e dimensões distintas16. Benjamin, por meio de fragmentos da realidade, definiu uma dialética da imagem urbana, extraindo fragmentos de seu contexto usual e confrontando-os com significados a eles associados em diferentes momen

nicação do grupo entre si com outros grupos e com o espaço do qual se apropria, cujo propósito é dar significado a aspectos e eventos da vida social12, constituem-se na base subjetiva para a definição das territorialidades urbanas.

As representações sociais da cidade não são construídas por indivíduos isolados, mas por grupos e, uma vez criadas, influenciam o comportamento desses grupos em relação ao espaço, atraindo ou não outros membros entre si (campo de atração), fazendo nascer novas representações. Dessa forma, a consciência coletiva é estimulada, dando significado a coisas e eventos. As atitudes e atribuições de valores são conseqüências da participação na vida social, uma vez que são ponto de partida para que os indivíduos possam demonstrar seus laços de identificação com determinados estilos de vida, regras sociais e modelos de comportamento. A diversidade de atitudes, ideologias e fenômenos da sociedade _ e de forma mais complexa nas cidades _ ocorre, portanto, a partir das representações, criadoras de uma ordem implícita capaz de definir e orientar comportamentos de indivíduos e grupos. Ao mesmo tempo, as representações permitem a comunicação entre os grupos sociais, os quais constroem códigos sociais particulares diferenciadores de diversos aspectos de seus mundos e de sua história, os quais materializam-se a partir de suas práticas sócio-espaciais.

No âmbito das territorialidades, portanto, as representações não se mantêm apenas em um nível abstrato, mas caracterizam-se como formações complexas de materiais e técnicas, aos quais as práticas sociais estão indissoluvelmente associadas13, para além das divisões culturais e econômicas do conhecimento, sendo pontos de conexão essenciais entre pensamento e prática. SHIELDS (1996) lembra que as cidades são tanto sujeito de representação como também objeto, pois inspiram práticas, comportamentos e atitudes ao mesmo tempo em que são interpretadas e valorizadas segundo seus códigos e símbolos gerados14.


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Figura 1: A grade conceitual de Walter Benjamin.

Fonte: Adaptação de Buck-Morss, op. cit., 1989.

cursos seja do planejamento, seja dos diversos tipos de atores sociais que atuam na produção de seus territórios.

No complexo e sofisticado cotidiano urbano, no qual coexistem múltiplos tipos de territórios, estes aparecem tanto como forma de expressão de domínio e poder, como também na forma de resistência às transformações impostas por grupos dominantes, às desigualdades e conflitos sócio-econômicos e culturais. No dia-a-dia da cidade, recursos de apropriação de espaços reconhecíveis, mesmo em sociedades primitivas, assumem características muito mais diferenciadas e complexas, alternando-se com muito mais rapidez no espaço-tempo. É o caso do comércio de rua, sejam ambulantes ou camelôs, por exemplo, que a despeito de assemelharem-se, num primeiro momento às formas de territorialização dos antigos mascates, apresentam formas de articulação e participação na lógica de organização do espaço urbano muito mais complexas e dinâmicas que no passado. Outro exemplo é o caso das territorialidades do sexo e de grupos religiosos17.

tos. O procedimento não-convencional de Benjamin visava expor o pensamento das pessoas sobre suas próprias atividades em termos de "figuras urbanas típicas-ideais", em uma tentativa de revelar conteúdos históricos, filosóficos, sócio-políticos, para além das aparências previamente determinadas. A vida cotidiana não se contrapõe à "hiper-realidade", mas complementam-se, justificam-se. O pensamento de Benjamin inspira um olhar mais atento a certas particularidades dos fenômenos urbanos em dimensões até então pouco valorizadas.

Considerando mercadoria como o próprio espaço urbano _ ou suas frações e toda carga de tradições a ele pertencentes, enfim, qualquer elemento ou aspecto da realidade urbana capaz de gerar territorialidades por meio de suas formas, conteúdos e significados a ele vinculados, reais ou potenciais _, os valores a ele associados flutuam entre as diferentes formas de interpretação da sociedade, alguns dos quais expostos na grade de Benjamin, e que atualmente encontram-se presentes em dis


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Na experiência de Recife, a exemplo de tantas cidades portuárias brasileiras, os territórios assumem formas variadas, de acordo com o espírito do tempo corrente. No item a seguir, serão apresentados alguns dos aspectos que mais têm influenciado a idéia de cidade recifense, desde de sua formação.

2. A dimensão ambiental: o domínio das águas e a conquista da terra firme na história do Recife

"Cochim parece um Recife com rios mais largos, porém a mesma topografia: um rio maior que desce para receber (...) da foz seu último afluente, dão voltas em torno de uma ilha e uma península diante do continente e juntos se lançam ao mar entre praias de coqueiros ao longe dos dois lados."18

A descrição acima se refere à semelhança entre o Recife e a cidade indiana de colonização portuguesa visitada por CHACON (1995), na qual a presença e a importância dos rios destacam-se como elementos referenciais. Com efeito, a cidade do Recife sempre esteve, semelhante a Cochim, associada à imagem dos rios e pontes, daí as freqüentes comparações com Veneza, Amsterdã, Antuérpia. A distinção no papel do rio por vezes segregador, outras vezes agregador, vai estar relacionada à própria evolução histórica da cidade e às variações na gestão e domínio de territórios. As difíceis condições físicas de ocupação territorial sempre fizeram do planejamento um instrumento necessário e constantemente presente na história dos bairros.

O Bairro do Recife distingue-se dos demais bairros da área central por diversos aspectos (morfológicos, funcionais, entre outros), mas, sobretudo, porque foi um dos poucos que não surgiu em conseqüência da fundação de um engenho, mas da produção de açúcar, que deu origem à grande parte dos principais bairros da

cidade. Grande parte das terras ao lado oriental do Bairro do Recife, considerada improdutiva, era loteada em sesmarias e doada a populares19. Esses lotes estreitos em terreno alagadiços não permitiam grandes construções, mas serviam para construção de sobrados (chamados "magros") nos quais funcionavam pensões, estabelecimentos comerciais ou prostíbulos para trabalhadores do porto, comerciantes e viajantes. Assim, o Bairro do Recife, já apresentava esse caráter múltiplo de usos e atividades que repercutiam, como até hoje, em diferenciadas territorialidades.

Atravessando o rio Capibaribe, o Bairro de Santo Antônio caracteriza-se como espaço de transição entre a ilha do Bairro do Recife e o continente, concentrando basicamente atividades empresariais e comerciais. O bairro encontrava-se no início de sua formação, em grande parte coberto pelos mangues, transformados por freqüentes aterros em diversos momentos históricos, potencialmente viáveis às atividades comerciais, dando a conformação da cidade hoje existente. Outro fator que muito contribuiu para a fixação do sítio de localização da cidade na Ilha de Antônio Vaz foi a presença, em seu subsolo, de água para o seu abastecimento. No entanto, dos 94 mil m2 de área construída, aproximadamente 30% estão ociosos20.

Já o Bairro de São José, juntamente com os bairros de Joana Bezerra e Cabanga, é contornado pelos braços do Rio Capibaribe ao Norte e a Oeste; esses bairros são limitados ao Sul e a Leste pela Bacia do Pina. A sua ocupação foi feita a partir de seguidos aterros iniciados no século XVII, para expansão da cidade na Ilha de Antônio Vaz, por meio de ações planejadas ou pela ocupação espontânea de casario _ em áreas firmes _ e mocambos _ em áreas sujeitas a alagamentos. O bairro hoje concentra grande número de estabelecimentos comerciais voltados para classes sociais de baixo e médio poder aquisitivo. FREYRE (1961), referindo-se as suas ruas estreitas e ao seu movimentado comercial de rua, já assinalava:


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Guia, chegou a classe média para se encantar com um charme que já foi legítimo e hoje é multicolorido"23.

b) Os mangues (transição entre seco e molhado)

Por mangue, Josué de Castro referia-se a um tipo especial de vegetação anfíbia, "que prolifera nos solos frouxos e movediços dos estuários, dos deltas, das lagunas litorâneas"24, sobre o qual havia o recorrente ponto de vista higienista, que condenava a sua presença, por confundi-lo com ambientes de condições insalubres. GOMES (1997) destaca que as idéias sobre a vegetação anfíbia e a condição intermediária e indefinida entre ambiente "seco" e "molhado", típica dos manguezais urbanos recifenses, despertaram as mais diversas reações do meio técnico, acadêmico e popular25. É importante lembrar a valorização do mangue, considerada por alguns como romântica e "excessivamente ecológica", mas compartilhada por poetas, escritores locais, como Josué de Castro, João Cabral de Melo Neto, Mauro Mota, Carlos Pena Filho e outros; há ainda as recentes manifestações culturais que fazem alusão ao mangue com formas e conteúdos bem distintos, através do movimento Mangue Beat26. Há, contudo um paradoxo particular entre a simpatia popular por essas expressões críticas e as diversas práticas sociais na cidade: surge, de um lado, a louvação contida nos discursos, poemas e relatos; de outro lado, recidivas práticas que negam esse valor.

c) Os arrecifes

O termo _ que deu origem ao nome da cidade _ de origem árabe significa dique, calçada, cais, referindo-se ao rochedo na faixa litorânea de origem arenítica ou coralígena que funciona como quebra-mar27. Os 6 mil metros de arrecifes na costa da cidade justificaram não apenas a designação do nome da cidade, mas a sua vocação mais antiga, a portuária, além de outras posteriormente desenvolvidas, como defesa e lazer.

"Já para os lados de São José, o Recife como que se orientaliza; (...) É o bairro do comércio mais barato. Das lojas e armarinhos com nomes sentimentais (...)."21

Muitas dessas práticas e características sócio-espaciais ainda podem ser encontradas no bairro. Uma das características de áreas centrais diz respeito às diferenciadas formas de interpretar a dimensão ambiental, muitas vezes aliada, muitas vezes contrária às necessidades _ e possibilidades _ de apropriação do espaço urbano. Destaca-se no Recife a presença dos rios, mangues e arrecifes.

a) Os rios

A interligação entre os bairros centrais e os demais bairros da cidade, mais comum no período colonial, se fazia pela utilização dos rios Capibaribe e Beberibe, como principal meio de acesso e transporte aos setores comerciais da cidade, pela produção dos senhores de engenho _ os quais em geral eram também proprietários da maior parte das terras do núcleo central. Portanto, a confluência dos rios favorecia a ocupação das terras da cidade desde sua origem. Os rios eram valorizados não só como via de penetração para os engenhos na hinterlândia, mas também como locais de banho, conforme destaca Manoel Bandeira em seus poemas, assim como outros escritores e intelectuais. De fato, a exigüidade de espaço urbanizável em seu núcleo central, exigiu um esforço de elaboração planejada de ocupação de áreas alagadas e alagáveis por meio de aterros, muito antes das reformas urbanas que ocorreram em outras capitais brasileiras. Atualmente, há uma revalorização do rio pelo seu potencial turístico22. O rio Capibaribe, enquanto parte da cidade e de cada recifense "testemunha em silêncio o ressurgimento do Recife Antigo. Ele próprio, que já esteve quase morto com o aterro de seus estuários, sabe que a vida volta de outra forma. Saíram as prostitutas do Chantecler, da Rua da


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No próximo item, serão apresentados alguns pontos referentes à valorização da influência da cultura estrangeira _ em particular a européia _ na representação de cidade, desde o período colonial aos tempos recentes.

3. A dimensão cultural. O estrangeiro no imaginário do recifense

Ao longo do processo de formação da cidade do Recife, as contribuições de diferentes culturas estrangeiras predominantes _ em particular a européia e a norte-americana _ têm sido citadas ou lembradas pelas diferentes formas de influência na construção da identidade urbana local, em momentos distintos do desenvolvimento da cidade. Tais aspectos refletem muitas vezes a condição "colonial" na qual foram montadas suas cidades, ou seja, a partir de referenciais de outros valores trazidos de fora. É, no entanto, inegável a presença de aspectos culturais de outros povos, como será destacado a seguir.

a) A contribuição holandesa

A maior ênfase na atualidade é dada pelas instituições e pela sociedade à presença holandesa na cidade. MELLO (1997) aponta que tal presença representou significados diferenciados para classes sociais distintas: os grupos nobiliárquicos e corporativos, assim como as ordens religiosas e o Estado, enfatizavam a Restauração como resgate heróico das terras da Coroa28. De fato, o orgulho pela descendência portuguesa na população recifense só aparece de forma mais decisiva a partir do século XVIII. Até recentemente, a imagem do holandês enquanto inimigo perverso foi predominante29.

A grande contribuição holandesa para a cidade foi na sua organização espacial e no planejamento. Devido à experiência em sítios de difícil tratamento, muito semelhantes aos encontrados em Recife, os holandeses tinham a habilidade de reelaborar os espaços alagados, adaptando-os às necessidades portuárias e comer

ciais. Ao mesmo tempo, as condições políticas e econômicas na Europa do século XVII exigiam freqüentes atualizações de conhecimentos militares, a partir da concepção bélica italiana, aplicando-a na defesa de novas terras dominadas, como era o caso do Recife. A planificação dos bairros centrais e a implantação de infra-estrutura, sobretudo nos bairros de Santo Antônio e São José, foram fundamentais para a atual conformação da área central.

Para camadas mais populares da cidade, o período holandês representou uma forma de resistência política de um povo rico e altamente desenvolvido à coroa portuguesa, materializada na elaboração de engenhosos planos urbanísticos, chegando mesmo aos limites da imaginação lendária e sobrenatural30. Não são poucos os equívocos acerca de referências culturais e patrimônios arquitetônicos atribuídos ao período holandês, em especial refletindo a escolha "forçada" dos ancestrais desejados, visto que, em muitos casos, a opção de vir e estabelecer-se no Recife _ como em tantas outras cidades brasileiras _ representava a fuga de condições política e econômicas indesejáveis ou intolerantes na Europa e não a intenção e o desejo dos migrantes holandeses. Contudo, REZENDE (1999) lembra a permanente dúvida no imaginário popular sobre as possíveis diferenças e vantagens, caso Recife se mantivesse sob o domínio holandês31. Essa dúvida traz em si uma crítica à contemporaneidade, através da imaginação criativa sobre um passado estruturador de um presente talvez mais promissor, o que faz do pseudocolonizador, no caso o "holandês", uma descendência da qual deve se orgulhar a população local. O legado cultural dos "colonizadores" permite, assim, um vislumbrar melancólico do colonizado, em um conflito interior entre sua condição atual e "o que poderia ter sido".

b) A "presença" francesa

A exemplo de tantas outras capitais brasileiras, os franceses exerceram forte influência atrelada a alguns dos primeiros sinais de inte


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gração brasileira à cultura internacionalmente globalizada, por meio dos modismos, costumes e comportamentos, a partir de meados do século XIX32. De fato, a contínua substituição e/ou assimilação de maneiras e hábitos herdados da tradição patriarcal luso-brasileira pelos modismos do exterior a partir do século XIX, em particular dos franceses, foram facilmente assimiláveis pela sociedade local, mas não sem duras críticas de diversos grupos intelectuais, religiosos, entre outros. É o caso do Padre Lopes Gama, o cronista do Jornal O Carapuceiro, na primeira metade do século XIX. Gama apresentava na década de 1830 uma figura pitoresca e caricatural, "versão recifense" do flâneur parisiense _ o "gamenho"33, bem como outras, como o "pelintras"34 e as "coquetes". GAMA (1996) considerava tais "pressões modernizantes" da vida urbana vinculadas a posições sócio-econômicas e políticas que ameaçavam a ordem já estabelecida, impondo novas regras para o qual o recifense, não estaria preparado, daí a sua ridicularização da imitação à cultura européia35.

A influência da cultura francesa a partir do final do século XIX inspirou no Recife desde o vocabulário e vestimenta até partidos arquitetônico-urbanísticos. No início do século XX, a reforma de Saturnino de Brito foi a primeira forma acabada de intervir, cujos princípios expressamente apoiavam-se na Reforma de Paris. É a relação com a cidade o elemento apontado na literatura como o mais influente. A partir de 1920, os cafés ocupando as calçadas no centro da cidade, os espaços livres, as grandes vias abertas eram convites para o passeio de um grande número de pessoas, familiares. Foi comum até a década de 1940 o aparecimento de cafés, lojas com nomes franceses, roupas e etiquetas em estilo francês. Hoje, as influências em termos de comportamentos são ainda encontradas, confundindo-se, contudo, com outras expressões muito mais presentes, como a forte imagem norte-americana globalmente reproduzida.

c) A influência africana

Não se pode deixar de mencionar a influência africana na formação da cidade do Recife, cujas manifestações religiosas, folclóricas, além de hábitos alimentares, entre outros, preservam um caráter restrito a espaços de pouca visibilidade, mas profundamente presentes no cotidiano. Tais atitudes justificam-se pelo amplo controle, sobretudo de manifestações públicas sociais, políticas ou religiosas, ao qual estiveram submetidos os escravos negros.

Uma das referências mais diretas associadas à presença africana é quanto à população escrava urbana, a maioria residente nos bairros centrais. Os registros de Henry Koster e Louis-François Tollenare, para citar alguns dos mais conhecidos, relatam aspectos curiosos _ embora algumas vezes em tom preconceituoso _, sobre a condição da escravidão em Pernambuco e sua interpretação deixada pela literatura. O que mais impressiona é a referência à origem, o que implicava um conceito prévio quanto ao caráter e potencial dos negros escravos, como se pode perceber no comentário de TOLLENARE (1817):

"Os mais hábeis e mais convenientes para o serviço nas cidades são os negros de Angola; os Cabindas e Benguelas são mais dóceis e excelentes para o trabalho agrícola; os Gabões são ferozes e maus; injuria-se um negro chamando-o de Gabão. Os de Moçambique são fracos e pouco inteligentes; todos os carregamentos que deles vi chegar aqui eram miseráveis."36

As territorialidades que permanecem são mais perceptíveis e visíveis em áreas do centro que concentram grupos sociais de menor poder aquisitivo, promovendo ao mesmo tempo um intenso movimento e vigor comercial, cultural, muito singular da cidade. Em geral, as resistências associadas a tais grupos, embora reforçadas por grupos intelectuais e elites culturais


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locais, encontram por parte da população da cidade uma reverência _ para alguns, saudosismo, para outros, fantasias e mitificação, mas quase sempre com respeito e orgulho dos espaços centrais, como no caso dos bairros do Recife, Santo Antônio e São José. Observando mais de perto, percebe-se que cada um desses bairros passa a ser alvo de representações específicas _ da sociedade e do planejamento urbano. Destacam-se algumas diferenças mais extremas, como:

_ O Bairro do Recife, por exemplo, aparece constantemente em transformação, segundo interesses de distintos momentos da evolução urbana: na sua estrutura física; nas práticas sócio-espaciais, representando a "vitrine" de uma Recife em diálogo com as tendências contemporâneas. Essa constante moldagem de sua organização espacial assume características do espírito do tempo da sociedade no momento e das ideologias dominantes (locais e internacionais): modismos, campanhas políticas, e divulgações constantes pela mídia, que reconstroem as "possíveis histórias" da cidade, segundo tendências correntes.

_ O Bairro de São José, ao contrário, é um marco de resistências territoriais e de particularidades sócio-espaciais, preservando suas características mais primitivas, associadas a uma população carente, com forte relação com o interior do estado e códigos de conduta muito claros: quem mora, consome ou trabalha no bairro, tem seus próprios ritmos, sempre de forma a conviver com a diversidade do local; há

limites muito estreitos entre as territorialidades _ representativos talvez da necessidade histórica de convivência entre grupos ou indivíduos que precisam compartilhar espaço e tempo e que, muitas vezes, são incompreensíveis para os visitantes _, mesmo aqueles da própria cidade. Há, no entanto, um lento e gradual enfraquecimento dessas forças territoriais do bairro, tendendo a uma degradação cada vez maior dessas áreas.

4. Conclusão

A abordagem teórica inicial permitiu estabelecer alguns marcos conceituais de referência, bem como aproximações com algumas categorias que reabasteceram contínua e dialogicamente o estudo teórico e empírico das práticas sócio-espaciais e territorialidades nos bairros centrais. Evidencia-se assim, a importância da pesquisa acerca de território, territorialidades e representações, entre outros conceitos e categorias, para compreensão desse processo de refuncionalização, revitalização, recuperação e todo o conjunto de intervenções efetuadas nos bairros centrais das grandes cidades. A assimilação dessas imagens e influências pelos diversos agentes sociais manifesta-se por meio das diferentes formas de apropriação do discurso, seja no sentido de resistir às mudanças impostas, seja pela incorporação dos novos significados correntes, apresentando um conteúdo simbólico mutável. Os esforços de interpretação, utilizando o caso do Recife como exemplo, procuraram realçar esses elementos, recorrentes em suas reedições, evocando novas hipóteses e aguçam novos questionamentos.


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Notas

1 A tese, defendida em 1999, intitula-se: Permanências e mudanças no quadro de requalificação sócio-espacial da área central do Recife (PE): estudo sobre territorialidades urbanas em dois setores `revitalizados'.

2 SOUZA, M.L. O território. Sobre espaço e poder, autonomia e desenvolvimento. In: CASTRO, I.E.; et al (orgs.). Geografia: conceitos e temas, 1995.

3 CHISHOLM, M.; SMITH, D.M. (ed.). Shared Space, Divided Space. Essays on conflict and territorial organization, 1990.

4 SOUZA, M. Lopes de. Op. cit., 1995.

5 BELL, D.; VALENTINE, G. Mapping desire, 1995.

6 HAYS-MITCHELL, M. The ties that bind. Informal and formal sector linkages in street vending: the case of Peru's ambulantes. In: Environment and Planning A. vol.25, 1993, pp.1085-1102; HARRISON, M.E.; McVEY, CLARE, E. Conflict in the city - street trading in Mexico City. In: Third World Planning Review, n.19(3), 1997; entre outros.

7 SMITH, N. The new urban frontier: gentrification and the revanchist city, 1996; SMITH, N. After Tompkins Square Park: Degentrification and the Revanchist city. In: KING, A. (ed.) Re-presenting the city - Ethnicity, Capital and Culture in the 21st century metropolis, 1996.

8 Sobre o assunto, ver, entre outros: REIS, J.J. (org.). Escravidão e invenção da liberdade _ estudos sobre o negro no Brasil, 1988; MOURA, R. Tia Ciata e a pequena África no R. de Janeiro, 1995.

9 Entre outros, ver: PRIORE, M. del. Ao Sul do corpo: condição feminina, maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. 1993; QUINTANEIRO, T. Retratos de Mulher: o cotidiano feminino no Brasil sob o olhar de viajeiros do séc. XIX, 1996.

10 Ver: SOARES, S.S.F (1993); SOUZA, M. Lopes de. As drogas e a "questão urbana" no Brasil. In: CASTRO, I.E. de. Brasil: questões atuais da reorganização do território, 1996.

11 SILVA, J.M. da. A miséria do cotidiano: energias utópicas em um espaço moderno e pós-moderno, 1991; CAMPOS, H.A. A Conservação dos Conjuntos Históricos em áreas centrais urbanas a partir do uso de seus espaços públicos abertos, 1995.

12 MOSCOVICI, S. The phenomenon of social representations. In: Social Representations. Cambridge: Cambridge University Press, 1984.

13 SHIELDS, R. A guide to urban representation and what to do about it: alternative traditions of urban theory. Iin: KING, A. (ed.) Re-presenting the city - Ethnicity, Capital and Culture in the 21st century Metropolis, 1996.

14 SHIELDS, R. Op. cit., 1996.

15 Posteriormente, o trabalho foi desenvolvido em Moscou, Berlim e Bolonha. Ver: BUCK-MORSS, The dialetics of seeing, 1989.

16 BOLLE, Willi. As siglas em cores no trabalho das passagens, de W. Benjamin. In: Revista de Estudos Avançados, São Paulo: USP, 10(27), 1996.

17 Sobre territorialidades de grupos religiosos, do comércio e do sexo. Ver comentários In: CAMPOS, H.Á. Permanências e mudanças no quadro de requalificação sócio-espacial da área central do Recife (PE): um estudo sobre territorialidades urbanas em dois setores "revitalizados", 1999.

18 CHACON, V. Goa e Macau, 1995, p.31.

19 CAVALCANTI, V.B. O Recife e a origem dos seus bairros centrais. In: PEREIRA, N. Um tempo do Recife, 1978, pp.230-33.

20 Destaca-se, por exemplo, a invasão no final de 1999 por famílias de grupos "sem-teto" alguns desses prédios vazios localizados em uma das principais avenidas do bairro e do centro da cidade, a Av. Guararapes.

21 FREYRE, GILBERTO. Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, 1961.

22 A tentativa de reincorporar o rio à dinâmica da cidade tem merecido destaque para projetos, como o "Capibaribe" e "Circuito das Águas", propondo roteiros fluviais, inclusive como nova alternativa ao trânsito convencional.

23 Referência às mudanças promovidas pelo Plano de Revitalização. In: GUSMÃO, F. Parabólicas ligam mangue ao mundo. Jornal do Commércio, "JC 80 anos", p.30-31, 05.04.99.

24 CASTRO, J. Fatores de localização da cidade do Recife: um ensaio de geografia urbana, 1954.

25 GOMES, E.T.A. Recortes de paisagens na Cidade do Recife: uma abordagem geográfica, 1997.


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26 Destacou-se, por exemplo, nos anos 1990 a figura do grupo liderado por Chico Science.

27 FRANCA, Rubem. Arabismos: uma mini-enciclopédia do mundo árabe, 1994, p.72 e 154.

28 MELLO, Evaldo C. de. Rubro Veio: o imaginário da restauração pernambucana, 1997, pp.33-4.

29 FRANCA, Rubem. Monumentos do Recife, 1977, p.80.

30 MELLO, Evaldo C. de. Op. cit., 1997, p.35. Ver também FREYRE, Gilberto. Assombrações do Recife Velho, 1970.

31 REZENDE, Antônio P. O Recife: os espelhos do passado e os labirintos do presente, ou as tentações da memória e as inscrições do desejo. In: Projeto História: revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1999, pp.155-66.

32 É preciso mencionar a influência política da Revolução Francesa no Ocidente, colonizado ou não, no século XVIII. Em Pernambuco, MELO (1992) aponta o então estudante de Medicina e discípulo de Lavoisier, Manoel Arruda Câmara como o apregoador dos ideais burgueses e da "Grande Revolução". Ver: MELO, C. A Revolução

Francesa e a Insurreição de 1817. In: ANDRADE, M.C. de; FERNANDES, E.M. (orgs.). O Nordeste brasileiro e a Revolução Francesa, 1992, p.93.

33 GAMA descreve o gamenho como "(...) passeador incessante e quase inquilino das esquinas e botequins, levando manhãs e tardes já numa botica, já numa loja, porque defronte moram umas meninas jeitosas e caroáveis de namoro, aí tendes um gamenho às direitas". GAMA, Lopes. O que é ser gamenho. In: GAMA Lopes (org: MELLO, E.C. de). O Carapuceiro, 1996, pp.55-6.

34 Tipo masculino de comportamento e costumes grosseiros e de mau gosto embora sempre inspirados na moda da época, o qual igualmente ao gamenho, encontrava-se associado às atividades urbanas, como teatros, passeios públicos, bares, lojas, entre outros. Ver: GAMA, Lopes. O que é ser pelintra. In: op. cit., 1996, pp. 377-83.

35 MELLO, E. Introdução. In: GAMA Lopes/organização: MELLO, Evaldo C. de. Op. Cit, 1996.

36 Ver: TOLLENARE, Louis-François. Notas Dominicais. In: KOSTER, Henry; TOLLENARE, Louis-François. A Escravidão no Brasil, p.29.

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Concluído em: 08/2001